Publicação

Um rural para viver, outro para visitar : o ambiente nas estratégias de desenvolvimento para as áreas rurais

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:O tema desta tese relaciona-se com a qualificação das trajectórias de desenvolvimento em áreas rurais, através da nova centralidade das questões ambientais. Neste domínio, a tese apoia-se no contributo das ciências sociais, particularmente da sociologia, para a compreensão das representações sociais sobre os processos associados à protecção do ambiente e à promoção do desenvolvimento nas áreas rurais, tendo em conta as transformações que estas sofreram ao longo das últimas décadas. Argumenta-se que a marginalização ou a fraca integração das áreas rurais portuguesas - particularmente das áreas rurais a que podemos chamar profundas ou remotas - nos modelos de desenvolvimento socioeconómico vigentes nas últimas décadas, tende a colocá-las, actualmente, como áreas centrais no contexto dos paradigmas de desenvolvimento emergentes e em processo de consolidação, nos quais o ambiente surge como um aspecto fundamental. A integração e a valorização actuais das áreas rurais são sobretudo processos exteriores a essas mesmas áreas e por esta razão, estes processos tendem a não ser compreendidos e aceites como legítimos por uma boa parte das populações rurais. Este facto conduz potencialmente a conflitos, sustentados em representações, práticas e legitimidades diversas, quer face ao ambiente, quer face ao desenvolvimento socioeconómico. A discussão sobre a oportunidade e as formas de integração das áreas rurais nos modelos de desenvolvimento actuais enquadra-se também no debate contemporâneo acerca dos processos associados à globalização, às transformações das sociedades modernas e à emergência da pós-modernidade. A tese estrutura-se em quatro partes principais. Na primeira, com base na revisão bibliográfica, procedemos à caracterização do debate actual sobre a emergência do ambiente como questão social e política nas sociedades contemporâneas em geral e na sociedade portuguesa em particular. Na segunda parte, ainda com base na revisão de literatura, procura-se analisar a passagem das áreas rurais de produtoras de alimentos a guardiãs do ambiente natural, tendo em conta as suas principais transformações, quer no âmbito das sociedades ocidentais, quer no contexto português. A terceira parte aborda a questão do lugar do ambiente nas políticas de desenvolvimento em geral e de desenvolvimento rural em particular, tendo por base a revisão bibliográfica e a análise da legislação e dos programas e medidas concebidos e implementados para as áreas rurais. Finalmente, na quarta parte, apresenta-se a análise empírica, baseada no estudo das representações e práticas face à protecção do ambiente e aos processos de desenvolvimento socioeconómico, dos residentes, visitantes e entidades político-administrativas e económicas das áreas da Serra da Freita e do Parque Natural de Montesinho. As principais conclusões da tese revelam que existe um rural para viver e um rural para visitar, ou seja que as representações e práticas dos residentes e dos visitantes de ambas as áreas consideradas não são coincidentes, fazendo emergir dois universos paralelos e uma nova dicotomia rural/urbano. A investigação revela ainda que as representações e práticas dos residentes não são tidas em conta nos processos de elaboração e implementação de programas e medidas para as áreas rurais. Mais ainda, observa-se que as representações e práticas dos visitantes face àquelas áreas tendem a sobrepor-se às dos residentes nos programas e medidas que visam o mundo rural em Portugal. Face a isto, concluímos pela necessidade de um modelo de gestão das diversidades encontradas com capacidade para incorporar as diferentes necessidades, interesses e aspirações dos residentes e dos visitantes das áreas rurais. Recomenda-se que esse modelo se baseie numa negociação permanente entre os vários actores sociais e institucionais em presença. Recomenda-se igualmente que o desenvolvimento rural, em prol da sua eficácia, não ultrapasse os interesses e as necessidades das populações a que primeiramente se destina.
Autores principais:Figueiredo, Elisabete Maria Melo
Assunto:Ciências do ambiente Zonas rurais Zonas rurais
Ano:2003
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Aveiro
Idioma:português
Origem:RIA - Repositório Institucional da Universidade de Aveiro
Descrição
Resumo:O tema desta tese relaciona-se com a qualificação das trajectórias de desenvolvimento em áreas rurais, através da nova centralidade das questões ambientais. Neste domínio, a tese apoia-se no contributo das ciências sociais, particularmente da sociologia, para a compreensão das representações sociais sobre os processos associados à protecção do ambiente e à promoção do desenvolvimento nas áreas rurais, tendo em conta as transformações que estas sofreram ao longo das últimas décadas. Argumenta-se que a marginalização ou a fraca integração das áreas rurais portuguesas - particularmente das áreas rurais a que podemos chamar profundas ou remotas - nos modelos de desenvolvimento socioeconómico vigentes nas últimas décadas, tende a colocá-las, actualmente, como áreas centrais no contexto dos paradigmas de desenvolvimento emergentes e em processo de consolidação, nos quais o ambiente surge como um aspecto fundamental. A integração e a valorização actuais das áreas rurais são sobretudo processos exteriores a essas mesmas áreas e por esta razão, estes processos tendem a não ser compreendidos e aceites como legítimos por uma boa parte das populações rurais. Este facto conduz potencialmente a conflitos, sustentados em representações, práticas e legitimidades diversas, quer face ao ambiente, quer face ao desenvolvimento socioeconómico. A discussão sobre a oportunidade e as formas de integração das áreas rurais nos modelos de desenvolvimento actuais enquadra-se também no debate contemporâneo acerca dos processos associados à globalização, às transformações das sociedades modernas e à emergência da pós-modernidade. A tese estrutura-se em quatro partes principais. Na primeira, com base na revisão bibliográfica, procedemos à caracterização do debate actual sobre a emergência do ambiente como questão social e política nas sociedades contemporâneas em geral e na sociedade portuguesa em particular. Na segunda parte, ainda com base na revisão de literatura, procura-se analisar a passagem das áreas rurais de produtoras de alimentos a guardiãs do ambiente natural, tendo em conta as suas principais transformações, quer no âmbito das sociedades ocidentais, quer no contexto português. A terceira parte aborda a questão do lugar do ambiente nas políticas de desenvolvimento em geral e de desenvolvimento rural em particular, tendo por base a revisão bibliográfica e a análise da legislação e dos programas e medidas concebidos e implementados para as áreas rurais. Finalmente, na quarta parte, apresenta-se a análise empírica, baseada no estudo das representações e práticas face à protecção do ambiente e aos processos de desenvolvimento socioeconómico, dos residentes, visitantes e entidades político-administrativas e económicas das áreas da Serra da Freita e do Parque Natural de Montesinho. As principais conclusões da tese revelam que existe um rural para viver e um rural para visitar, ou seja que as representações e práticas dos residentes e dos visitantes de ambas as áreas consideradas não são coincidentes, fazendo emergir dois universos paralelos e uma nova dicotomia rural/urbano. A investigação revela ainda que as representações e práticas dos residentes não são tidas em conta nos processos de elaboração e implementação de programas e medidas para as áreas rurais. Mais ainda, observa-se que as representações e práticas dos visitantes face àquelas áreas tendem a sobrepor-se às dos residentes nos programas e medidas que visam o mundo rural em Portugal. Face a isto, concluímos pela necessidade de um modelo de gestão das diversidades encontradas com capacidade para incorporar as diferentes necessidades, interesses e aspirações dos residentes e dos visitantes das áreas rurais. Recomenda-se que esse modelo se baseie numa negociação permanente entre os vários actores sociais e institucionais em presença. Recomenda-se igualmente que o desenvolvimento rural, em prol da sua eficácia, não ultrapasse os interesses e as necessidades das populações a que primeiramente se destina.