Publicação
Envelhecimento e trajetórias de vida de adultos com dificuldades intelectuais e desenvolvimentais : um estudo qualitativo com díades de cuidadores
| Resumo: | Contexto e objetivo. O envelhecimento é um processo universal e individual que se refere a uma mudança progressiva, dinâmica e complexa que, para além de se situar na esfera biológica e psicológica, é cultural e socialmente construído, ocorrendo ao longo de toda a vida. Apesar de ser uma realidade pouco estudada em Portugal, a verdade é que existem cada vez mais indivíduos com Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais (DID) que enfrentam o processo de envelhecimento devido ao aumento de esperança média de vida decorrente das melhorias das condições de vida em geral. Este facto levanta grandes desafios à sociedade, aos políticos, às famílias e às instituições, os quais devem estar preparados com políticas, respostas e serviços. Tendo em conta a literatura no domínio, o conhecimento sobre a inexistência de diretrizes específicas para os adultos com DID em processo de envelhecimento e a respetiva falta de orientações estratégicas nacionais de médio e longo prazo que promovam a melhoria da qualidade de vida desta população, fundamentaram a necessidade de desenvolver o presente estudo. A presente investigação, qualitativa de natureza fenomenológica (Creswell, 2013), procura compreender o processo de envelhecimento de adultos com DID na perspetiva dos seus cuidadores (informais e formais). Assim, pretende-se com esta investigação contribuir para conhecer melhor a realidade do adulto com DID em processo de envelhecimento, assim como dos seus cuidadores (informais e formais), de forma a identificar os seus problemas, dificuldades e necessidades. A partir desta análise, procuramos alertar para a necessidade de rever as práticas, valores e representações sobre o processo de envelhecimento dos indivíduos com DID, de modo a criar ferramentas que permitam melhorar a capacitação de instituições, profissionais, famílias e dos próprios adultos com DID, visando a promoção de um envelhecimento bem-sucedido. Método. No presente estudo, qualitativo de natureza fenomenológica, participam cinco díades, cuidador formal-cuidador informal, de um adulto com DID com mais de 30 anos de idade. Os cuidadores formais são maioritariamente do sexo feminino com idades entre os 34 e os 59 anos. Os cuidadores informais são maioritariamente do sexo masculino com idades compreendidas entre os 60 e 91 anos. A recolha de dados foi efetuada com recurso a entrevista semiestruturada construída especificamente para o estudo. As entrevistas gravadas em áudio foram depois transcritas e o seu conteúdo sujeito à análise de conteúdo (Creswell, 2013). Resultados. A análise de conteúdo das entrevistas permitiu identificar dois domínios comuns às entrevistas de cuidadores formais e informais: (1) Ser adulto com DID e (2) Envelhecimento precoce. O domínio Ser adulto com DID integra informação acerca da vivência social quotidiana das pessoas com DID em processo de envelhecimento. Os relatos dos cuidadores mostram que a vivência quotidiana, assim como a rede relacional dos adultos com DID são bastante limitadas, centrando-se apenas na rotina diária casa-instituição. Do ponto de vista da autonomia, revelam dependência dos cuidadores ao nível instrumental, mas relativa autonomia em termos das atividades básicas. O domínio Envelhecimento Precoce reúne informações sobre o processo de envelhecimento dos adultos com DID, sendo notória uma clara perceção de diminuição de capacidades à medida que a idade avança, acentuando situações de dependência, reflexo de um processo de envelhecimento antecipatório face á idade cronológica. Para além disso, realçam-se as preocupações dos cuidadores sobre o envelhecimento precoce dos adultos com DID, em que por um lado, os cuidadores formais preocupam-se com o que acontecerá no futuro na instituição face a falta de informação e formação específica sobre o processo de envelhecimento dos adultos com DID; e os cuidadores informais, por outro lado, preocupam-se com o facto de quem irá cuidar do filho, dado também estarem a envelhecer. Conclusão. Ser idoso com DID não é de todo um constructo social, é um facto real, inquestionável e incontornável que exige uma reflexão urgente sobre o modelo que tem vindo a ser aplicado e que é claramente insuficiente quando pensamos que as intervenções têm forçosamente de ser multidisciplinares e articuladas fundamentalmente entre a área social e da saúde. É impossível garantir a qualidade da resposta e da intervenção se não forem viabilizados novos métodos de organização do trabalho e de prestação de cuidados que assentem numa estratégia nacional de resposta a esta população. |
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| Autores principais: | Chavarria, Nathalie de Jésus Ramos Dias |
| Assunto: | Envelhecimento Gerontologia Social Dificuldades intelectuais e desenvolvimentais Trajetórias de vida Cuidadores Envelhecimento precoce Aging Social Gerontology Intellectual and developmental difficulties Life trajectories Caregivers Early aging |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Instituto Politécnico de Viana do Castelo |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório Científico IPVC |
| Resumo: | Contexto e objetivo. O envelhecimento é um processo universal e individual que se refere a uma mudança progressiva, dinâmica e complexa que, para além de se situar na esfera biológica e psicológica, é cultural e socialmente construído, ocorrendo ao longo de toda a vida. Apesar de ser uma realidade pouco estudada em Portugal, a verdade é que existem cada vez mais indivíduos com Dificuldades Intelectuais e Desenvolvimentais (DID) que enfrentam o processo de envelhecimento devido ao aumento de esperança média de vida decorrente das melhorias das condições de vida em geral. Este facto levanta grandes desafios à sociedade, aos políticos, às famílias e às instituições, os quais devem estar preparados com políticas, respostas e serviços. Tendo em conta a literatura no domínio, o conhecimento sobre a inexistência de diretrizes específicas para os adultos com DID em processo de envelhecimento e a respetiva falta de orientações estratégicas nacionais de médio e longo prazo que promovam a melhoria da qualidade de vida desta população, fundamentaram a necessidade de desenvolver o presente estudo. A presente investigação, qualitativa de natureza fenomenológica (Creswell, 2013), procura compreender o processo de envelhecimento de adultos com DID na perspetiva dos seus cuidadores (informais e formais). Assim, pretende-se com esta investigação contribuir para conhecer melhor a realidade do adulto com DID em processo de envelhecimento, assim como dos seus cuidadores (informais e formais), de forma a identificar os seus problemas, dificuldades e necessidades. A partir desta análise, procuramos alertar para a necessidade de rever as práticas, valores e representações sobre o processo de envelhecimento dos indivíduos com DID, de modo a criar ferramentas que permitam melhorar a capacitação de instituições, profissionais, famílias e dos próprios adultos com DID, visando a promoção de um envelhecimento bem-sucedido. Método. No presente estudo, qualitativo de natureza fenomenológica, participam cinco díades, cuidador formal-cuidador informal, de um adulto com DID com mais de 30 anos de idade. Os cuidadores formais são maioritariamente do sexo feminino com idades entre os 34 e os 59 anos. Os cuidadores informais são maioritariamente do sexo masculino com idades compreendidas entre os 60 e 91 anos. A recolha de dados foi efetuada com recurso a entrevista semiestruturada construída especificamente para o estudo. As entrevistas gravadas em áudio foram depois transcritas e o seu conteúdo sujeito à análise de conteúdo (Creswell, 2013). Resultados. A análise de conteúdo das entrevistas permitiu identificar dois domínios comuns às entrevistas de cuidadores formais e informais: (1) Ser adulto com DID e (2) Envelhecimento precoce. O domínio Ser adulto com DID integra informação acerca da vivência social quotidiana das pessoas com DID em processo de envelhecimento. Os relatos dos cuidadores mostram que a vivência quotidiana, assim como a rede relacional dos adultos com DID são bastante limitadas, centrando-se apenas na rotina diária casa-instituição. Do ponto de vista da autonomia, revelam dependência dos cuidadores ao nível instrumental, mas relativa autonomia em termos das atividades básicas. O domínio Envelhecimento Precoce reúne informações sobre o processo de envelhecimento dos adultos com DID, sendo notória uma clara perceção de diminuição de capacidades à medida que a idade avança, acentuando situações de dependência, reflexo de um processo de envelhecimento antecipatório face á idade cronológica. Para além disso, realçam-se as preocupações dos cuidadores sobre o envelhecimento precoce dos adultos com DID, em que por um lado, os cuidadores formais preocupam-se com o que acontecerá no futuro na instituição face a falta de informação e formação específica sobre o processo de envelhecimento dos adultos com DID; e os cuidadores informais, por outro lado, preocupam-se com o facto de quem irá cuidar do filho, dado também estarem a envelhecer. Conclusão. Ser idoso com DID não é de todo um constructo social, é um facto real, inquestionável e incontornável que exige uma reflexão urgente sobre o modelo que tem vindo a ser aplicado e que é claramente insuficiente quando pensamos que as intervenções têm forçosamente de ser multidisciplinares e articuladas fundamentalmente entre a área social e da saúde. É impossível garantir a qualidade da resposta e da intervenção se não forem viabilizados novos métodos de organização do trabalho e de prestação de cuidados que assentem numa estratégia nacional de resposta a esta população. |
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