Publicação
A Idade do Bronze na bacia do Rio Ave (Noroeste de Portugal)
| Resumo: | Esta tese tem como principal objetivo aumentar o conhecimento sobre a Idade do Bronze da bacia do rio Ave, no Noroeste de Portugal. Através da articulação sincrónica e diacrónica dos dados nos seus contextos físico e cultural e à luz de novas premissas teóricas estudou-se este período de uma forma holística. Tal visa interpretar o modo como as comunidades se estruturaram no meio onde estavam imersas ou incorporadas e como interagiram com ele. Privilegiando a contextualização dos dados, nomeadamente os diferentes lugares construídos e frequentados pelas populações da Idade do Bronze, o estudo foi direcionado segundo três eixos temáticas, a saber: o povoamento, os contextos e as práticas funerárias e a metalurgia e as deposições metálicas. Foram, também, interpretados certos lugares “naturais”, cujas materialidades arqueológicas denunciavam ampla diacronia de frequência, traduzindo a sua importância na estruturação e na perceção do espaço por parte das populações da Idade do Bronze. No que respeita ao povoamento, apesar da ausência de dados para o Bronze Inicial, o Bronze Médio pauta-se pela ocupação multivariada do espaço. Prevalecem os sítios abrigados, de baixa altitude, com acesso a vales de eventual potencialidade agrícola e a corredores naturais de circulação, alguns deles relativos a ocupações frustres, enquanto outros são de maior dimensão, correspondendo, talvez, a ocupações mais duradouras. Nas regiões montanhosas os povoados sobre áreas abrigadas de planaltos estão perto de cursos de água e em locais de fácil circulação, sendo rara a ocupação do topo de montes. Para o Bronze Final, a par da variada ocupação do terreno, acentua-se o povoamento em altitude, com boas condições de visualização sobre zonas agro-pastoris de montanha mais próximas, sobre terras férteis no fundo dos vales e sobre as principais vias naturais de circulação, quer de cumeada quer de vale – pontos estratégicos de encruzilhada entre diferentes bacias ou rios. Embora a ocupação dos vales facilitasse a circulação, o povoamento em altura materializaria o domínio real e simbólico do território e dos seus recursos e permitiria consolidar e estabelecer fronteiras simbólicas entre diferentes territórios, nos quais atuariam diferentes influências. Nota-se que alguns destes povoados ocuparam montes já simbolicamente ativos desde o Neo-Calcolítico e materializados por gravuras rupestres, o que poderá ter sido importante na escolha do lugar de residência. Em termos de lógica de povoamento também se crê que certos povoados ocuparam intencionalmente locais com visibilidade para determinadas orografias de grande significação coletiva. No conjunto, as múltiplas opções de povoamento transparecem desempenhos e sentidos distintos, no âmbito de uma rede de lugares e de significados interconectados em regime de complementaridade. Em relação aos contextos e práticas funerárias desconhecem-se dados para o Bronze Final. Durante o Bronze Inicial, a presença de objetos metálicos e de alguns túmulos de grande investimento construtivo, nas áreas de vale, permite pensar que existiram personagens extremamente significantes para as comunidades, os quais seriam recordados e celebrados. Nas áreas montanhosas o facto de os monumentos sob tumuli serem, neste período, de maior envergadura do que nos seguintes, indicia, ainda, a importância do papel social da morte visível e da preservação da memória dos antepassados. No Bronze Médio os diferentes tipos de arquiteturas funerárias conectadas, respetivamente, com áreas de montanha ou de vale, parecem corresponder a populações com modos de vida e conceções distintas da morte. Para as comunidades serranas a morte, como marco no espaço, e o culto aos antepassados, ainda parece importante. Nos vales predomina a morte invisível e a perda da importância do cadáver como referência coletiva e referência espacial. Há variedade no tratamento dos cadáveres, com indícios de inumação e de cremação em urna ou in situ. As oferendas tornam-se mais simples e à base de determinadas formas cerâmicas, quando não estão ausentes de todo, tendo desaparecido os objetos metálicos, os quais parecem ser agora canalizados para outros cenários. Não raramente, as práticas funerárias implementaram-se em lugares liminares ou de passagem, entre o vale e o topo do monte ou nas imediações ou nas linhas de cumeada, entre a terra e o céu, o que se pensa ser propositado e relacionar-se com a morte percecionada como um momento de passagem entre dois estádios. Em relação a algumas estruturas funerárias, como as sepulturas planas, observam-se hipotéticas relações com a orientação das águas ou os ciclos solares ou lunares, como que associando a morte a um ciclo ou a uma viajem. Há, ainda, lugares onde a convergência de práticas mortuárias e de outras ações de difícil interpretação, denunciando larga diacronia de frequência cíclica, pelo menos desde o Bronze Inicial ao Final, revelam biografias sem paralelo. Parecem ser lugares de memória e de grande significado coletivo associados a ancestrais ciclicamente celebrados, quer através de outros enterramentos quer de deposições várias. Na bacia do Ave os indícios irrefutáveis de metalurgia. A par dos objetos associados à produção, os parcos objetos metálicos encontrados nos locais de produção, nos denominados povoados, apontam para a sua manipulação noutros contextos. A significativa quantidade destes objetos, avulsos, ou em depósitos, associada a informações contextuais, deixam transparecer a sua amortização em associação com certas caraterísticas “naturais” (como montes, vales e bacias de receção, além de poderem associar-se a afloramentos, a nascentes e ao subsolo). Tais factos, pela frequência de ocorrência, não terão sido aleatórios, notando-se padrões normativas de foro cultural. É neste cenário que ganham especial destaque, enquanto elementos estruturantes da paisagem da Idade do Bronze, o Monte da Saia (em Barcelos) e o Monte da Penha (em Guimarães). A sua excecionalidade manifesta-se pela frequência cíclica que denotam, conforme atestado pela concentração anómala de diferentes materialidades metálicas, no primeiro caso, e cerâmicas e metálicas no segundo. Essas materialidades corroboram a ampla diacronia biográfica destes lugares que, entre diversas manifestações, a partir do Bronze Médio mas, em especial, do Bronze Final, é reforçada pela deposição de objetos metálicos. Perceber o Monta da Saia e o Monte da Penha como sítios habitacionais da Idade do Bronze é redutor e, até à data, facto não comprovado. Em contrapartida, ambos integrariam uma rede de lugares da Idade do Bronze na qual as populações viveram e se movimentaram, materializando uma paisagem eivada de diferentes sentidos, significados e memórias. Saliente-se, contudo, que durante o Bronze Final há outras orografias que parecem ter sido significantes, como o Monte do Sino, o Monte de S. Romão, o Alto do Livramento ou o Monte S. Miguel o Anjo, com os quais se associam objetos metálicos. O mesmo se pode dizer dos vales do rio Este e do ribeiro da Abelheira, ótimos corredores de circulação onde depósitos de “utensílios” monotipológicos, sempre no subsolo, todos diferentes e efetuados em diversos moldes, levam a equacionar a hipótese de terem sido amortizados como atos celebrativos comunais visando a concretização de pactos ou acordos entre membros de diferentes comunidades, que usufruíam de pontos de confluência e de passagem comuns conhecidos, muito provavelmente, desde longa data. |
|---|---|
| Autores principais: | Sampaio, Hugo Aluai |
| Assunto: | Idade do Bronze Noroeste português Bacia do Ave Povoamento Contextos e práticas funerárias Metalurgia e depósitos Espaços naturais Paisagem pontuada por diferentes lugares significantes interligados em rede Bronze Age Portuguese northwest Rriver Ave’s basin Settlement Funerary contexts and practices Metallurgy and deposits Natural places Landscape punctuated by a network of interrelated significant places |
| Ano: | 2014 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | Esta tese tem como principal objetivo aumentar o conhecimento sobre a Idade do Bronze da bacia do rio Ave, no Noroeste de Portugal. Através da articulação sincrónica e diacrónica dos dados nos seus contextos físico e cultural e à luz de novas premissas teóricas estudou-se este período de uma forma holística. Tal visa interpretar o modo como as comunidades se estruturaram no meio onde estavam imersas ou incorporadas e como interagiram com ele. Privilegiando a contextualização dos dados, nomeadamente os diferentes lugares construídos e frequentados pelas populações da Idade do Bronze, o estudo foi direcionado segundo três eixos temáticas, a saber: o povoamento, os contextos e as práticas funerárias e a metalurgia e as deposições metálicas. Foram, também, interpretados certos lugares “naturais”, cujas materialidades arqueológicas denunciavam ampla diacronia de frequência, traduzindo a sua importância na estruturação e na perceção do espaço por parte das populações da Idade do Bronze. No que respeita ao povoamento, apesar da ausência de dados para o Bronze Inicial, o Bronze Médio pauta-se pela ocupação multivariada do espaço. Prevalecem os sítios abrigados, de baixa altitude, com acesso a vales de eventual potencialidade agrícola e a corredores naturais de circulação, alguns deles relativos a ocupações frustres, enquanto outros são de maior dimensão, correspondendo, talvez, a ocupações mais duradouras. Nas regiões montanhosas os povoados sobre áreas abrigadas de planaltos estão perto de cursos de água e em locais de fácil circulação, sendo rara a ocupação do topo de montes. Para o Bronze Final, a par da variada ocupação do terreno, acentua-se o povoamento em altitude, com boas condições de visualização sobre zonas agro-pastoris de montanha mais próximas, sobre terras férteis no fundo dos vales e sobre as principais vias naturais de circulação, quer de cumeada quer de vale – pontos estratégicos de encruzilhada entre diferentes bacias ou rios. Embora a ocupação dos vales facilitasse a circulação, o povoamento em altura materializaria o domínio real e simbólico do território e dos seus recursos e permitiria consolidar e estabelecer fronteiras simbólicas entre diferentes territórios, nos quais atuariam diferentes influências. Nota-se que alguns destes povoados ocuparam montes já simbolicamente ativos desde o Neo-Calcolítico e materializados por gravuras rupestres, o que poderá ter sido importante na escolha do lugar de residência. Em termos de lógica de povoamento também se crê que certos povoados ocuparam intencionalmente locais com visibilidade para determinadas orografias de grande significação coletiva. No conjunto, as múltiplas opções de povoamento transparecem desempenhos e sentidos distintos, no âmbito de uma rede de lugares e de significados interconectados em regime de complementaridade. Em relação aos contextos e práticas funerárias desconhecem-se dados para o Bronze Final. Durante o Bronze Inicial, a presença de objetos metálicos e de alguns túmulos de grande investimento construtivo, nas áreas de vale, permite pensar que existiram personagens extremamente significantes para as comunidades, os quais seriam recordados e celebrados. Nas áreas montanhosas o facto de os monumentos sob tumuli serem, neste período, de maior envergadura do que nos seguintes, indicia, ainda, a importância do papel social da morte visível e da preservação da memória dos antepassados. No Bronze Médio os diferentes tipos de arquiteturas funerárias conectadas, respetivamente, com áreas de montanha ou de vale, parecem corresponder a populações com modos de vida e conceções distintas da morte. Para as comunidades serranas a morte, como marco no espaço, e o culto aos antepassados, ainda parece importante. Nos vales predomina a morte invisível e a perda da importância do cadáver como referência coletiva e referência espacial. Há variedade no tratamento dos cadáveres, com indícios de inumação e de cremação em urna ou in situ. As oferendas tornam-se mais simples e à base de determinadas formas cerâmicas, quando não estão ausentes de todo, tendo desaparecido os objetos metálicos, os quais parecem ser agora canalizados para outros cenários. Não raramente, as práticas funerárias implementaram-se em lugares liminares ou de passagem, entre o vale e o topo do monte ou nas imediações ou nas linhas de cumeada, entre a terra e o céu, o que se pensa ser propositado e relacionar-se com a morte percecionada como um momento de passagem entre dois estádios. Em relação a algumas estruturas funerárias, como as sepulturas planas, observam-se hipotéticas relações com a orientação das águas ou os ciclos solares ou lunares, como que associando a morte a um ciclo ou a uma viajem. Há, ainda, lugares onde a convergência de práticas mortuárias e de outras ações de difícil interpretação, denunciando larga diacronia de frequência cíclica, pelo menos desde o Bronze Inicial ao Final, revelam biografias sem paralelo. Parecem ser lugares de memória e de grande significado coletivo associados a ancestrais ciclicamente celebrados, quer através de outros enterramentos quer de deposições várias. Na bacia do Ave os indícios irrefutáveis de metalurgia. A par dos objetos associados à produção, os parcos objetos metálicos encontrados nos locais de produção, nos denominados povoados, apontam para a sua manipulação noutros contextos. A significativa quantidade destes objetos, avulsos, ou em depósitos, associada a informações contextuais, deixam transparecer a sua amortização em associação com certas caraterísticas “naturais” (como montes, vales e bacias de receção, além de poderem associar-se a afloramentos, a nascentes e ao subsolo). Tais factos, pela frequência de ocorrência, não terão sido aleatórios, notando-se padrões normativas de foro cultural. É neste cenário que ganham especial destaque, enquanto elementos estruturantes da paisagem da Idade do Bronze, o Monte da Saia (em Barcelos) e o Monte da Penha (em Guimarães). A sua excecionalidade manifesta-se pela frequência cíclica que denotam, conforme atestado pela concentração anómala de diferentes materialidades metálicas, no primeiro caso, e cerâmicas e metálicas no segundo. Essas materialidades corroboram a ampla diacronia biográfica destes lugares que, entre diversas manifestações, a partir do Bronze Médio mas, em especial, do Bronze Final, é reforçada pela deposição de objetos metálicos. Perceber o Monta da Saia e o Monte da Penha como sítios habitacionais da Idade do Bronze é redutor e, até à data, facto não comprovado. Em contrapartida, ambos integrariam uma rede de lugares da Idade do Bronze na qual as populações viveram e se movimentaram, materializando uma paisagem eivada de diferentes sentidos, significados e memórias. Saliente-se, contudo, que durante o Bronze Final há outras orografias que parecem ter sido significantes, como o Monte do Sino, o Monte de S. Romão, o Alto do Livramento ou o Monte S. Miguel o Anjo, com os quais se associam objetos metálicos. O mesmo se pode dizer dos vales do rio Este e do ribeiro da Abelheira, ótimos corredores de circulação onde depósitos de “utensílios” monotipológicos, sempre no subsolo, todos diferentes e efetuados em diversos moldes, levam a equacionar a hipótese de terem sido amortizados como atos celebrativos comunais visando a concretização de pactos ou acordos entre membros de diferentes comunidades, que usufruíam de pontos de confluência e de passagem comuns conhecidos, muito provavelmente, desde longa data. |
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