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Entre a adaptação e a (trans)formação: uma análise crítica da noção de prática reflexiva associada ao modelo das competências na formação de professores

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Resumo:Neste capítulo desenvolvo uma abordagem crítica dos conceitos de “reflexão” e de “prática reflexiva”, que se tornaram estruturantes na formação de professores, sobretudo a partir dos anos 1980, mas que têm vindo a revelar algumas ambiguidades, sobretudo as que decorrem, por um lado, da tendencial transformação daqueles conceitos em meros slogans e, por outro, na sua difusão mais num registo normativo e prescritivo do que num registo crítico e emancipatório. Argumento que a noção de “reflexão” se tem aproximado mais do modelo das competências, de inspiração gerencialista e com uma forte associação à noção de empregabilidade, do que de uma perspetiva que valorize uma análise crítica da educação que possa contribuir para a justiça social e a democratização das escolas e da própria formação. A minha hipótese de trabalho é a seguinte: nas instituições de ensino superior que formam professores a abordagem prescritiva continua a sobrepor-se à abordagem reflexiva, desqualificando, assim, uma conceção de professor como intelectual crítico transformador. Esta conceção valoriza a reflexão coletiva, colegial e democrática, e é indissociável das dimensões política, cultural e ética da profissionalidade docente. Por isso, defendo uma maior ligação da formação de professores, quer inicial quer contínua, às escolas e aos seus quotidianos, não na perspetiva de “ensinar” aos professores modelos e técnicas de natureza meramente adaptativa e implementativa – implementação de políticas, programas e outros tipos de orientações ou recomendações da administração central – mas numa perspetiva emancipatória de apoio à formação de comunidades de prática. Enquanto atores sociais, os professores são decisores políticos e não meros implementadores de políticas definidas por outros e das quais tendem a ficar reféns. As comunidades de prática podem assumir, nesta aceção, um poder decisório e não apenas o poder gestionário que é dominante nas escolas. As entidades formadoras, especialmente os Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE), exercem um papel importante, podendo ainda reforçá-lo, de incentivo, dinamização e apoio a essas comunidades de prática reflexiva e investigativa envolvendo os professores dos territórios que abrangem, mas valorizando não apenas os princípios e critérios de pendor administrativo-formal, mas sobretudo as vontades, afinidades e disposições dos professores para construírem a sua profissionalidade numa relação de aprendizagem com os alunos.
Autores principais:Ferreira, Fernando Ilídio
Assunto:Formação contínua de professores Centros de Formação de Associação de Escolas CFAE Prática reflexiva Modelo de competências Ciências Sociais::Ciências da Educação Educação de qualidade
Ano:2018
País:Portugal
Tipo de documento:capítulo de livro
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Neste capítulo desenvolvo uma abordagem crítica dos conceitos de “reflexão” e de “prática reflexiva”, que se tornaram estruturantes na formação de professores, sobretudo a partir dos anos 1980, mas que têm vindo a revelar algumas ambiguidades, sobretudo as que decorrem, por um lado, da tendencial transformação daqueles conceitos em meros slogans e, por outro, na sua difusão mais num registo normativo e prescritivo do que num registo crítico e emancipatório. Argumento que a noção de “reflexão” se tem aproximado mais do modelo das competências, de inspiração gerencialista e com uma forte associação à noção de empregabilidade, do que de uma perspetiva que valorize uma análise crítica da educação que possa contribuir para a justiça social e a democratização das escolas e da própria formação. A minha hipótese de trabalho é a seguinte: nas instituições de ensino superior que formam professores a abordagem prescritiva continua a sobrepor-se à abordagem reflexiva, desqualificando, assim, uma conceção de professor como intelectual crítico transformador. Esta conceção valoriza a reflexão coletiva, colegial e democrática, e é indissociável das dimensões política, cultural e ética da profissionalidade docente. Por isso, defendo uma maior ligação da formação de professores, quer inicial quer contínua, às escolas e aos seus quotidianos, não na perspetiva de “ensinar” aos professores modelos e técnicas de natureza meramente adaptativa e implementativa – implementação de políticas, programas e outros tipos de orientações ou recomendações da administração central – mas numa perspetiva emancipatória de apoio à formação de comunidades de prática. Enquanto atores sociais, os professores são decisores políticos e não meros implementadores de políticas definidas por outros e das quais tendem a ficar reféns. As comunidades de prática podem assumir, nesta aceção, um poder decisório e não apenas o poder gestionário que é dominante nas escolas. As entidades formadoras, especialmente os Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE), exercem um papel importante, podendo ainda reforçá-lo, de incentivo, dinamização e apoio a essas comunidades de prática reflexiva e investigativa envolvendo os professores dos territórios que abrangem, mas valorizando não apenas os princípios e critérios de pendor administrativo-formal, mas sobretudo as vontades, afinidades e disposições dos professores para construírem a sua profissionalidade numa relação de aprendizagem com os alunos.