Publicação

A ilusão do desenvolvimento: gestão da água e (in)sustentabilidade do modelo extrativista

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Nos últimos anos os países mediterrânicos, e particularmente o sul de Portugal e Espanha, encontram-se em seca extrema. Devido às alterações climáticas, o ciclo regular da precipitação, com inversos chuvosos e verões secos, tem sido alterado em anos sucessivos. Nalgumas regiões praticamente não choveu nos últimos anos, o que levou ao esvaziamento das barragens a níveis nunca antes observados. Em março de 2024, duas barragens do Algarve encontravam-se a 14% da sua capacidade e os aquíferos subterrâneos desta região começam a apresentar níveis preocupantes de salinidade. A Andaluzia e a Catalunha enfrentam problemas semelhantes e já começaram a reduzir o consumo privado de água. Os períodos de seca sempre foram uma caraterística da região mediterrânica, mas a falta de água cresceu exponencialmente desde que o modelo de agricultura intensiva foi introduzido no sul de Espanha e de Portugal. Estufas cobertas de plásticos para frutos e legumes estendem-se por milhares de hectares em Almeria e podem ser vistos do espaço. A mesma prática está em crescimento no sudoeste alentejano, em pleno Parque Natural da Costa Vicentina, ignorando as leis que o defendem. Mesmo com a chuva deste inverno de 2023/2024, as barragens que irrigam essas culturas estão apenas a 30% da sua capacidade. E continuam a ser construídos empreendimentos turísticos na mesma região com campos de golfe que consomem ainda mais água. No interior do Alentejo, olivais superintensivos continuam a ser regados, além de usarem químicos e trabalhadores vindos da Ásia, ilegais e precários. Este tipo de agricultura insere-se numa tendência internacional baseada em investimentos em larga escala por parte de empresas de capital intensivo que praticam o extrativismo. Inspirando-se numa ilusão do desenvolvimento, acreditam que este só se verifica com produção intensiva. Este modelo socio-territorial foi posto em prática no sul global com monoculturas intensivas, que eliminam todas as outras produções, prejudicam as economias locais e contribuem para o despovoamento (Svampa, 2019). Nos sistemas de monocultura, a água e a terra são exclusivamente mobilizadas para um só produto, causando erosão dos solos. Quem é responsável pelos danos causados ao território e às pessoas que nele vivem e trabalham? Como é que os governos centrais e o poder local estão a gerir o problema da falta de água? Quais as propostas e soluções? Várias associações e ONGs têm feito um trabalho importante de divulgação para a consciencialização das autoridades. Em simultâneo fazem-se planos para abastecer de água estas regiões em seca crónica e severa, sem ter em conta o problema que está na sua origem: a agricultura intensiva que consome 70% da água. Com uma investigação sobre a legislação, tratados internacionais de gestão da água e das negociações em curso, além da análise da imprensa e das redes sociais das associações envolvidas, esta comunicação identifica e descreve os principais problemas em discussão em Portugal e Espanha, onde este novo tipo de uso das áreas rurais, baseado na agricultura intensiva e no turismo, colocam desafios graves ao ambiente.
Autores principais:Almeida, Maria Antónia Figueiredo Pires
Assunto:Água Seca Barragens Agricultura superintensiva Sul Turismo
Ano:2024
País:Portugal
Tipo de documento:outro
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Nos últimos anos os países mediterrânicos, e particularmente o sul de Portugal e Espanha, encontram-se em seca extrema. Devido às alterações climáticas, o ciclo regular da precipitação, com inversos chuvosos e verões secos, tem sido alterado em anos sucessivos. Nalgumas regiões praticamente não choveu nos últimos anos, o que levou ao esvaziamento das barragens a níveis nunca antes observados. Em março de 2024, duas barragens do Algarve encontravam-se a 14% da sua capacidade e os aquíferos subterrâneos desta região começam a apresentar níveis preocupantes de salinidade. A Andaluzia e a Catalunha enfrentam problemas semelhantes e já começaram a reduzir o consumo privado de água. Os períodos de seca sempre foram uma caraterística da região mediterrânica, mas a falta de água cresceu exponencialmente desde que o modelo de agricultura intensiva foi introduzido no sul de Espanha e de Portugal. Estufas cobertas de plásticos para frutos e legumes estendem-se por milhares de hectares em Almeria e podem ser vistos do espaço. A mesma prática está em crescimento no sudoeste alentejano, em pleno Parque Natural da Costa Vicentina, ignorando as leis que o defendem. Mesmo com a chuva deste inverno de 2023/2024, as barragens que irrigam essas culturas estão apenas a 30% da sua capacidade. E continuam a ser construídos empreendimentos turísticos na mesma região com campos de golfe que consomem ainda mais água. No interior do Alentejo, olivais superintensivos continuam a ser regados, além de usarem químicos e trabalhadores vindos da Ásia, ilegais e precários. Este tipo de agricultura insere-se numa tendência internacional baseada em investimentos em larga escala por parte de empresas de capital intensivo que praticam o extrativismo. Inspirando-se numa ilusão do desenvolvimento, acreditam que este só se verifica com produção intensiva. Este modelo socio-territorial foi posto em prática no sul global com monoculturas intensivas, que eliminam todas as outras produções, prejudicam as economias locais e contribuem para o despovoamento (Svampa, 2019). Nos sistemas de monocultura, a água e a terra são exclusivamente mobilizadas para um só produto, causando erosão dos solos. Quem é responsável pelos danos causados ao território e às pessoas que nele vivem e trabalham? Como é que os governos centrais e o poder local estão a gerir o problema da falta de água? Quais as propostas e soluções? Várias associações e ONGs têm feito um trabalho importante de divulgação para a consciencialização das autoridades. Em simultâneo fazem-se planos para abastecer de água estas regiões em seca crónica e severa, sem ter em conta o problema que está na sua origem: a agricultura intensiva que consome 70% da água. Com uma investigação sobre a legislação, tratados internacionais de gestão da água e das negociações em curso, além da análise da imprensa e das redes sociais das associações envolvidas, esta comunicação identifica e descreve os principais problemas em discussão em Portugal e Espanha, onde este novo tipo de uso das áreas rurais, baseado na agricultura intensiva e no turismo, colocam desafios graves ao ambiente.