Publicação
Olhar de animal, olhar de homem: Henrique Galvão e os seus Bichos do Mato
| Resumo: | A escrita para a infância de Henrique Galvão (Barreiro, 1895-S. Paulo, Brasil, 1970), conquanto de difusão restrita, ocupa um lugar relevante na historiografia literária. Nas décadas de 40 e 50 do século XX, o autor publicou três narrativas preferencialmente vocacionadas para o leitor infanto-juvenil. De considerável extensão, estas obras são merecedoras de uma análise que faça sobressair aquilo que de particular evidenciam quanto à ficcionalização da figura animal. Kurika (1944), Impala (1946) e Vagô (também designado O homem e o tigre) (1952), compondo a trilogia completa de «Romance dos Bichos do Mato», desvendam uma singular visão dos animais em cenário africano, distinguindo-se por figurações marcadamente originais. Anna Sewell (1820-1878), Rudyard Kipling (1865-1936), Jack London (1876-1916) ou Juan Ramón Jiménez (1881-1958) são nomes da literatura ocidental que vêm à memória quando se tenta esboçar uma possível genealogia literária das narrativas de protagonista animal produzidas por Galvão. O mesmo se poderá dizer relativamente a outras narrativas portuguesas do século XX que colocam animais no seu centro, tendência iniciada com O Romance da Raposa (1924), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), e continuada, por exemplo, com Bichos (1940), de Miguel Torga (1907-1995). A ficção de Kurika, de Impala e de Vagô desenvolve-se a partir da minuciosa descrição da galeria de animais que povoam a selva ou a savana angolana e, ainda que, em certos momentos, se note uma proximidade entre bichos e homens (com gestos antropomorfizados), por vezes, os animais são animais, bichos ferozes e livres e, sobre estes, deixa o autor registados apontamentos de teor científico. Todas ilustrados, com desenhos e fotografias, estas obras, cuja presença animal se afigura matricial e estruturante, são habitualmente catalogadas como pertencentes à literatura de influência colonial, a que não será alheio o contexto histórico-político da sua redacção, facto que tem também condicionado, de certa forma, a sua recepção. |
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| Autores principais: | Silva, Sara Raquel Reis da |
| Outros Autores: | Gomes, José António |
| Assunto: | Literatura para a infância e juventude Henrique Galvão Narrativa para a infância e juventude Representação do animal |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | capítulo de livro |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | A escrita para a infância de Henrique Galvão (Barreiro, 1895-S. Paulo, Brasil, 1970), conquanto de difusão restrita, ocupa um lugar relevante na historiografia literária. Nas décadas de 40 e 50 do século XX, o autor publicou três narrativas preferencialmente vocacionadas para o leitor infanto-juvenil. De considerável extensão, estas obras são merecedoras de uma análise que faça sobressair aquilo que de particular evidenciam quanto à ficcionalização da figura animal. Kurika (1944), Impala (1946) e Vagô (também designado O homem e o tigre) (1952), compondo a trilogia completa de «Romance dos Bichos do Mato», desvendam uma singular visão dos animais em cenário africano, distinguindo-se por figurações marcadamente originais. Anna Sewell (1820-1878), Rudyard Kipling (1865-1936), Jack London (1876-1916) ou Juan Ramón Jiménez (1881-1958) são nomes da literatura ocidental que vêm à memória quando se tenta esboçar uma possível genealogia literária das narrativas de protagonista animal produzidas por Galvão. O mesmo se poderá dizer relativamente a outras narrativas portuguesas do século XX que colocam animais no seu centro, tendência iniciada com O Romance da Raposa (1924), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), e continuada, por exemplo, com Bichos (1940), de Miguel Torga (1907-1995). A ficção de Kurika, de Impala e de Vagô desenvolve-se a partir da minuciosa descrição da galeria de animais que povoam a selva ou a savana angolana e, ainda que, em certos momentos, se note uma proximidade entre bichos e homens (com gestos antropomorfizados), por vezes, os animais são animais, bichos ferozes e livres e, sobre estes, deixa o autor registados apontamentos de teor científico. Todas ilustrados, com desenhos e fotografias, estas obras, cuja presença animal se afigura matricial e estruturante, são habitualmente catalogadas como pertencentes à literatura de influência colonial, a que não será alheio o contexto histórico-político da sua redacção, facto que tem também condicionado, de certa forma, a sua recepção. |
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