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Regência dos verbos de movimento: um estudo comparativo entre o português de Angola e o português europeu

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Resumo:Em português europeu, os verbos de movimento como ir, vir, chegar, regem as preposições direcionais a e para, e a preposição em ocorre com verbos que indicam localização espacial estática (como estar, ou ficar). Porém, nas variedades africanas do português e no português do Brasil, a preposição em é frequentemente usada com verbos de movimento, alternando com a e para. A presente dissertação foca o português falado em Angola e procura determinar a frequência relativa de uso das diferentes preposições em combinação com verbos de movimento e a sua relação com a idade e o grau de escolaridade do falante. Efetuámos a transcrição de 18 entrevistas, com duração entre 40 a 60 minutos, feitas a falantes bilingues com L1 umbundu e L2 português. Trabalhámos com cinco grupos de informantes: 8 falantes com a 3.ª classe (4 com 8-9 anos e 4 com 40-55 anos); 8 falantes com a 6.ª classe (4 com 11-12 anos e 4 com 40-55 anos), e 2 licenciados (40-55 anos). As variáveis linguísticas estudadas foram os verbos de movimento e a preposição usada. Os resultados revelam a influência da variável idade na realização da preposição. Os falantes de menor idade (8-9 anos e 11-12 anos), independentemente do grau de escolaridade, combinam os verbos de movimento somente com a preposição em, sendo a ideia de direção/destino ou direção/origem expressa apenas por esta preposição. Em contraste, os falantes adultos variam de forma alternada entre as preposições em, a e para. Nos adultos, manifesta-se de forma muito clara o efeito da escolaridade. À medida que vai aumentando o nível de escolaridade decresce o uso da preposição em (81% nos adultos com a 3.ª classe; 43% nos adultos com a 6.ª classe e 15% na fala dos licenciados). Por outro lado, a preposição para ocorre de forma consistente apenas na fala dos licenciados. Estes dados podem ser explicados pelo efeito do contacto com a língua umbundu (ver Gonçalves 2010 sobre o português de Moçambique). Em umbundu, L1 dos informantes, usase um único morfema [ku] em combinação com verbos de movimento (seja com um valor pontual ou durativo) e para referenciar o locativo. Uma vez que as crianças têm menos tempo de contacto com o português do que os adultos, é natural que sejam mais permeáveis à influência da L1, o que explica o seu uso exclusivo da preposição em, em divergência com os adultos com o mesmo grau de escolaridade.
Autores principais:Afonso, Horácio João Fernando
Assunto:Português de Angola Português europeu Verbo de movimento Angolan portuguese European portuguese Verbs of motion
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Em português europeu, os verbos de movimento como ir, vir, chegar, regem as preposições direcionais a e para, e a preposição em ocorre com verbos que indicam localização espacial estática (como estar, ou ficar). Porém, nas variedades africanas do português e no português do Brasil, a preposição em é frequentemente usada com verbos de movimento, alternando com a e para. A presente dissertação foca o português falado em Angola e procura determinar a frequência relativa de uso das diferentes preposições em combinação com verbos de movimento e a sua relação com a idade e o grau de escolaridade do falante. Efetuámos a transcrição de 18 entrevistas, com duração entre 40 a 60 minutos, feitas a falantes bilingues com L1 umbundu e L2 português. Trabalhámos com cinco grupos de informantes: 8 falantes com a 3.ª classe (4 com 8-9 anos e 4 com 40-55 anos); 8 falantes com a 6.ª classe (4 com 11-12 anos e 4 com 40-55 anos), e 2 licenciados (40-55 anos). As variáveis linguísticas estudadas foram os verbos de movimento e a preposição usada. Os resultados revelam a influência da variável idade na realização da preposição. Os falantes de menor idade (8-9 anos e 11-12 anos), independentemente do grau de escolaridade, combinam os verbos de movimento somente com a preposição em, sendo a ideia de direção/destino ou direção/origem expressa apenas por esta preposição. Em contraste, os falantes adultos variam de forma alternada entre as preposições em, a e para. Nos adultos, manifesta-se de forma muito clara o efeito da escolaridade. À medida que vai aumentando o nível de escolaridade decresce o uso da preposição em (81% nos adultos com a 3.ª classe; 43% nos adultos com a 6.ª classe e 15% na fala dos licenciados). Por outro lado, a preposição para ocorre de forma consistente apenas na fala dos licenciados. Estes dados podem ser explicados pelo efeito do contacto com a língua umbundu (ver Gonçalves 2010 sobre o português de Moçambique). Em umbundu, L1 dos informantes, usase um único morfema [ku] em combinação com verbos de movimento (seja com um valor pontual ou durativo) e para referenciar o locativo. Uma vez que as crianças têm menos tempo de contacto com o português do que os adultos, é natural que sejam mais permeáveis à influência da L1, o que explica o seu uso exclusivo da preposição em, em divergência com os adultos com o mesmo grau de escolaridade.