Publicação
The greener grass: da autorrepresentação em Alanis Morissette
| Resumo: | The greener grass: da autorrepresentação em Alanis Morissette constitui um trabalho de investigação centrado nas canções da artista canadiana, com o objetivo de explorar possíveis trajetos hermenêuticos abertos pela autorrepresentação contemporânea (nomeadamente, no domínio difuso da pop culture, ainda razoavelmente marginal aos estudos académicos e à teorização literária e/ou humanística), questionando as linguagens, os contactos transdisciplinares e os subtextos ideológicos em que esse âmago autorrepresentacional se move, se descentra e, simultaneamente, se obscurece e se visibiliza. Sendo as lyrics morissetteanas reconhecidas pela sua exacerbada filiação autobiográfica, importa questionar de que maneiras consegue o self realizar-se minimamente na e pela escrita de caráter íntimo, quando o que melhor caracteriza a intimidade é, em termos agambenianos, a sua pura singularidade como experiência e, portanto, o facto de ser absolutamente intraduzível ou irrepresentável. A tensão intrínseca ao acontecer autobiográfico (entre verdade textual e verdade empírica; o apelo a uma entidade física ou paratextual que assina o texto) diz mais sobre o ruído e a inquietação despertados por um género considerado menor (a autobiografia), num contexto atual cada vez mais dominado por tecnologias de exacerbamento mediático e eretismo narcísico, do que sobre as condições liminares, materiais e imateriais, que desenham e consubstanciam as diferentes realizações sob o signo da autorrepresentação (como o diário e o autorretrato, entre outros). A questão é, assim, não tanto o porquê de se escolher as canções, os vídeos e as performances morissetteanas como foco de atenção académica, mas como é que essas canções, vídeos e performances manejam o seu intuito autorrepresentacional: por outras palavras, como é que a artista recupera uma tradição de longa data (com cânones estabelecidos numa cultura forte, como é a cultura escrita, que inclui autores como Plutarco, Santo Agostinho e Montaigne) e a transforma, singularizando-a, repetindo-a sem cristalizar numa anamnese do mesmo mas, pelo contrário, inscrevendo um sentido e uma fenomenologia reconhecíveis como os da sua voz, do seu estilo técnico-compositivo e da sua presença em palco. Alanis Morissette designa cada um dos seus álbuns como uma snapshot, uma espécie de instantâneo fotográfico. A designação, longe de esgotar a sua heurística num uso meramente circunstancial, determina algumas das condições da própria matéria verbal constitutiva das suas lyrics: por um lado, a interseção entre imagem e música (dado que a promoção comercial depende, em boa parte, dos videoclipes e da medialidade que estes ajudaram a fundar); por outro, a um nível semiótico mais profundo (infra-semiótico ou até trans-semiótico), o instantâneo ilumina certas modalidades expressivas que fazem de Alanis uma artista sui generis no caos mediático das sensologias musicais contemporâneas. A força do instante prende-se menos com a captura de um momento (como se a fotografia pudesse, miticamente, preservar um fragmento do tempo) do que com a efervescência de uma intensidade, uma sensação desafetada de uma consciência soberana (um sujeito histórico, delineado por coordenadas personológicas) e, por isso, emergindo na sua qualidade de energia em bruto. Uma parte considerável das canções em estudo gravita em torno desta pulsão préindividual da instantaneidade, que se manifesta no despojamento de uma intenção figurativa-narrativa (que seria a imagem mais prototípica da digressão autobiográfica), ao dispor as letras das canções como listas (o estilo morissetteano): repetindo serialmente padrões rítmicos e construções anafóricas, a lista abre-se a uma dispersão do eu, uma sensação de vertigem, ampliando os seus limites fenomenológicos e fazendo do eu um ser entre outros, uma coisa entre outras coisas, sem rígidos posicionamentos e limites ontológicos (que estariam filiados ao humanismo como ideologia). Alie-se a estas tópicos a implicada performatividade das canções: o facto de constituírem textos deflagrados em palco, com o corpo in actu, realizando gestos e movimentos irrepetíveis inseparáveis da epifania do acontecer musical. A artista em estudo, longe de reivindicar um vedetismo presencial (que seria expectável, em certa medida, por integrar um contexto mainstream), atua segundo um modo próprio de traçar o seu plano de imanência (em sentido deleuziano): um devir-impercetível ou, segundo a própria, uma transparência, inseparavelmente artística e existencial, em nome da qual lyrics e performances se consagram na responsabilidade (poiética e política) de inscrever no real a positividade agenciadora da nossa condição vulnerável. Neste sentido, a partir das suas canções, pretende-se atualizar o conceito de identidade e compreender de que formas esse conceito se pode materializar e imaterializar para se inscrever no mundo, sem sucumbir a uma crescente e radical pulverização esquizofrénica (ao sabor do espírito da globalização) nem a estratégias redutoras de fixação e enquistamento hegemónicos. A autorrepresentação em Alanis Morissette testa os próprios limites da autorrepresentação, no sentido de salvaguardar uma ética do ser, anterior a toda e qualquer forma de modelização artística (ou estética, em geral). |
|---|---|
| Autores principais: | Martins, Diogo André Barbosa |
| Assunto: | Humanidades::Línguas e Literaturas |
| Ano: | 2015 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | The greener grass: da autorrepresentação em Alanis Morissette constitui um trabalho de investigação centrado nas canções da artista canadiana, com o objetivo de explorar possíveis trajetos hermenêuticos abertos pela autorrepresentação contemporânea (nomeadamente, no domínio difuso da pop culture, ainda razoavelmente marginal aos estudos académicos e à teorização literária e/ou humanística), questionando as linguagens, os contactos transdisciplinares e os subtextos ideológicos em que esse âmago autorrepresentacional se move, se descentra e, simultaneamente, se obscurece e se visibiliza. Sendo as lyrics morissetteanas reconhecidas pela sua exacerbada filiação autobiográfica, importa questionar de que maneiras consegue o self realizar-se minimamente na e pela escrita de caráter íntimo, quando o que melhor caracteriza a intimidade é, em termos agambenianos, a sua pura singularidade como experiência e, portanto, o facto de ser absolutamente intraduzível ou irrepresentável. A tensão intrínseca ao acontecer autobiográfico (entre verdade textual e verdade empírica; o apelo a uma entidade física ou paratextual que assina o texto) diz mais sobre o ruído e a inquietação despertados por um género considerado menor (a autobiografia), num contexto atual cada vez mais dominado por tecnologias de exacerbamento mediático e eretismo narcísico, do que sobre as condições liminares, materiais e imateriais, que desenham e consubstanciam as diferentes realizações sob o signo da autorrepresentação (como o diário e o autorretrato, entre outros). A questão é, assim, não tanto o porquê de se escolher as canções, os vídeos e as performances morissetteanas como foco de atenção académica, mas como é que essas canções, vídeos e performances manejam o seu intuito autorrepresentacional: por outras palavras, como é que a artista recupera uma tradição de longa data (com cânones estabelecidos numa cultura forte, como é a cultura escrita, que inclui autores como Plutarco, Santo Agostinho e Montaigne) e a transforma, singularizando-a, repetindo-a sem cristalizar numa anamnese do mesmo mas, pelo contrário, inscrevendo um sentido e uma fenomenologia reconhecíveis como os da sua voz, do seu estilo técnico-compositivo e da sua presença em palco. Alanis Morissette designa cada um dos seus álbuns como uma snapshot, uma espécie de instantâneo fotográfico. A designação, longe de esgotar a sua heurística num uso meramente circunstancial, determina algumas das condições da própria matéria verbal constitutiva das suas lyrics: por um lado, a interseção entre imagem e música (dado que a promoção comercial depende, em boa parte, dos videoclipes e da medialidade que estes ajudaram a fundar); por outro, a um nível semiótico mais profundo (infra-semiótico ou até trans-semiótico), o instantâneo ilumina certas modalidades expressivas que fazem de Alanis uma artista sui generis no caos mediático das sensologias musicais contemporâneas. A força do instante prende-se menos com a captura de um momento (como se a fotografia pudesse, miticamente, preservar um fragmento do tempo) do que com a efervescência de uma intensidade, uma sensação desafetada de uma consciência soberana (um sujeito histórico, delineado por coordenadas personológicas) e, por isso, emergindo na sua qualidade de energia em bruto. Uma parte considerável das canções em estudo gravita em torno desta pulsão préindividual da instantaneidade, que se manifesta no despojamento de uma intenção figurativa-narrativa (que seria a imagem mais prototípica da digressão autobiográfica), ao dispor as letras das canções como listas (o estilo morissetteano): repetindo serialmente padrões rítmicos e construções anafóricas, a lista abre-se a uma dispersão do eu, uma sensação de vertigem, ampliando os seus limites fenomenológicos e fazendo do eu um ser entre outros, uma coisa entre outras coisas, sem rígidos posicionamentos e limites ontológicos (que estariam filiados ao humanismo como ideologia). Alie-se a estas tópicos a implicada performatividade das canções: o facto de constituírem textos deflagrados em palco, com o corpo in actu, realizando gestos e movimentos irrepetíveis inseparáveis da epifania do acontecer musical. A artista em estudo, longe de reivindicar um vedetismo presencial (que seria expectável, em certa medida, por integrar um contexto mainstream), atua segundo um modo próprio de traçar o seu plano de imanência (em sentido deleuziano): um devir-impercetível ou, segundo a própria, uma transparência, inseparavelmente artística e existencial, em nome da qual lyrics e performances se consagram na responsabilidade (poiética e política) de inscrever no real a positividade agenciadora da nossa condição vulnerável. Neste sentido, a partir das suas canções, pretende-se atualizar o conceito de identidade e compreender de que formas esse conceito se pode materializar e imaterializar para se inscrever no mundo, sem sucumbir a uma crescente e radical pulverização esquizofrénica (ao sabor do espírito da globalização) nem a estratégias redutoras de fixação e enquistamento hegemónicos. A autorrepresentação em Alanis Morissette testa os próprios limites da autorrepresentação, no sentido de salvaguardar uma ética do ser, anterior a toda e qualquer forma de modelização artística (ou estética, em geral). |
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