Publicação
Abrindo os seus corações: emoções e sentimentos das orfãs candidatas a dotes de casamento nas misericórdias portuguesas (séculos XVII-XVIII)
| Resumo: | [Excerto] Introdução: Quando há décadas atrás se pensava que os pobres não tinham história ou não faziam parte dela, por integrarem uma massa da população que não era considerada suficientemente relevante para ter um lugar na História, desconsideração efetuada pela historiografia predominante, que não atendia a este tipo de sujeitos, não raramente por não terem deixado rastos documentais diretos, incorreu-se num erro que a produção historiográfica mais recente veio corrigir. A abertura da Escola dos Annales rasgou novos horizontes na História e configurou-a mais analítica, interpretativa e problematizadora. No que toca à pobreza, descobriu-se um mundo novo, até então completamente ignorado e obscurecido, demonstrando a presença dos pobres em muitos palcos quotidianos de atuação, que variavam, desde o mundo da mendicidade, do trabalho, da assistência, da religião, das sociabilidades, entre muitos outros. Criou-se ainda espaço para abordar vários tipos de pobres, desde logo os considerados verdadeiros e os falsos e foi possível ampliar as abordagens em termos de vagabundos, peregrinos, viajantes, órfãos, órfãs, viúvas, enjeitados, presos, cativos, doentes, defuntos… Com a abertura de novas linhas de investigação sobre as instituições de assistência em Portugal, de que as Misericórdias são o melhor exemplo, constatou-se que não somente as fontes abundavam, como possibilitavam múltiplas abordagens, indo da história social, à cultural, à institucional, à da pobreza e da assistência, à dos marginais, à dos poderes, à das mulheres, à da saúde, para ficarmos apenas nas vertentes mais estudadas até à atualidade. As Misericórdias nasceram em Portugal pela mão da Coroa, no início da Idade Moderna, em 1498, com a fundação da Santa Casa de Lisboa, e rapidamente se disseminaram pela metrópole e império, originando um movimento intenso destas instituições em todo o território sob o domínio português [1], mas não só, pois ultrapassou essas fronteiras. Estas confrarias leigas cumpriam o complexo programa das 14 obras de misericórdia: sete espirituais e igual número de corporais [2] e operavam com numerus clausus, dividido, de forma igual, entre nobres e oficiais, ou seja, eram compostas, em paridade, pelas elites locais [3]. Eram instituições masculinas [4], regidas pelo compromisso da Misericórdia da capital, que a Coroa enviava a todas que o solicitavam, ressalvando que se podia adequar ao meio de inserção e características de cada instituição. [...] |
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| Autores principais: | Araújo, Maria Marta Lobo de |
| Assunto: | Sentimentos Orfã Dote |
| Ano: | 2025 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | capítulo de livro |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | [Excerto] Introdução: Quando há décadas atrás se pensava que os pobres não tinham história ou não faziam parte dela, por integrarem uma massa da população que não era considerada suficientemente relevante para ter um lugar na História, desconsideração efetuada pela historiografia predominante, que não atendia a este tipo de sujeitos, não raramente por não terem deixado rastos documentais diretos, incorreu-se num erro que a produção historiográfica mais recente veio corrigir. A abertura da Escola dos Annales rasgou novos horizontes na História e configurou-a mais analítica, interpretativa e problematizadora. No que toca à pobreza, descobriu-se um mundo novo, até então completamente ignorado e obscurecido, demonstrando a presença dos pobres em muitos palcos quotidianos de atuação, que variavam, desde o mundo da mendicidade, do trabalho, da assistência, da religião, das sociabilidades, entre muitos outros. Criou-se ainda espaço para abordar vários tipos de pobres, desde logo os considerados verdadeiros e os falsos e foi possível ampliar as abordagens em termos de vagabundos, peregrinos, viajantes, órfãos, órfãs, viúvas, enjeitados, presos, cativos, doentes, defuntos… Com a abertura de novas linhas de investigação sobre as instituições de assistência em Portugal, de que as Misericórdias são o melhor exemplo, constatou-se que não somente as fontes abundavam, como possibilitavam múltiplas abordagens, indo da história social, à cultural, à institucional, à da pobreza e da assistência, à dos marginais, à dos poderes, à das mulheres, à da saúde, para ficarmos apenas nas vertentes mais estudadas até à atualidade. As Misericórdias nasceram em Portugal pela mão da Coroa, no início da Idade Moderna, em 1498, com a fundação da Santa Casa de Lisboa, e rapidamente se disseminaram pela metrópole e império, originando um movimento intenso destas instituições em todo o território sob o domínio português [1], mas não só, pois ultrapassou essas fronteiras. Estas confrarias leigas cumpriam o complexo programa das 14 obras de misericórdia: sete espirituais e igual número de corporais [2] e operavam com numerus clausus, dividido, de forma igual, entre nobres e oficiais, ou seja, eram compostas, em paridade, pelas elites locais [3]. Eram instituições masculinas [4], regidas pelo compromisso da Misericórdia da capital, que a Coroa enviava a todas que o solicitavam, ressalvando que se podia adequar ao meio de inserção e características de cada instituição. [...] |
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