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A viralidade em Saramago e Ionesco

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Resumo:A viralidade, conceito hodierno e proteiforme comum a várias áreas do conhecimento, constitui um bom pretexto, sob o nosso ponto de vista, para a leitura transdisciplinar e para a análise comparatista da obra de José Saramago e de Eugène Ionesco. Esta nova ‘ecologia’ viral ou ‘viral turn’ – que amplifica o mecanismo de autorreplicação, para além do plano biológico, ao envolver a noosfera, a economia, a psicologia e a comunicação – configura um horizonte de sedução ficcional patente em várias obras de José Saramago e de Eugène Ionesco. Assim sendo, a viroecologia (passe o neologismo) torna manifesto um complexo temático obsessor na obra dos Autores supracitados, incidindo sobre a replicação parasitária a nível somático (alterações dramáticas do corpo), a nível memético (a replicação noosférica), a nível metafísico (a morte como fenómeno contagioso pela ausência) e a nível digital (a replicação de imagens que aniquilam a corpórea consistência fenomenológica). Ao realçarmos o potencial tecnológico responsável pela germinação de um novo tipo de replicadores, os memes e os temes, salientámos a artificialização biológica (através da clonagem, da reprodução artificial e da criação de cyborgs), a artificialização psicológica (através da propaganda e da imersão no mundo da imagética digital) e a artificialização transcendental (através da ‘manipulação’ tecnológica da morte). Tendo em vista a ‘corrupção’ universal de qualquer tipo de informação, bem como da fonte energética que a viralidade pressupõe, ao complexificar o perfil epistemológico e ao fragilizar o sistema axiológico vigente na civilização humana, optámos por uma orientação teórica alicerçada no princípio de consiliência, proposto por E. O.Wilson e pelas novas tendências da crítica evolucionista (“Darwinian literary studies”). No âmbito deste quadro teorético, construímos uma plataforma interdisciplinar, recorrendo à Literatura Comparada, e nomeadamente, aos Estudos Culturais, suscetível de congraçar perspetivas recentes sobre a evolução universal: a memética e a(s) teoria(s) da singularidade tecnológica. Neste sentido, destacámos o caráter ‘visionário’ das obras em exegese, porquanto os seus Autores desenvolveram pistas ficcionais tendendo para uma compreensão aprofundada do modo de vida contemporâneo. Assim sendo, enfatizámos as mundividências e as mundivivências inéditas, patentes em representações literárias que funcionam como um dispositivo ficcional visando a adaptação da mente aos novos desafios evolutivos. Ao contrapor estes tópicos a uma breve perspetiva diacrónica da peste, que é, talvez, a praga mais explorada pelo imaginário literário, tentámos demonstrar o contributo inovador dos dois Homens de Letras no tocante ao paradigma das representações ficcionais, ‘alinhadas’ pelas tendências atuais de replicação parasitária em todas as vertentes/dimensões da realidade. Quedando-nos nestes aspetos de alteração viral, que repassam a obra de José Saramago e de Eugène Ionesco, e dilucidando-os pela via de vários contributos conceptuais, nomeadamente os de Deleuze e de Guattari, de Sloterdijk e de Michel Serres, enfatizámos novos horizontes ficcionais no que respeita à sintomatologia avassaladora dos ‘germes’, propagadores não apenas de doenças biológicas, mas, sobretudo, da ubiquidade de patterns autorreplicativos. Neste lógica fractal, que substitui as relações de contiguidade das pragas ‘clássicas’ pelas leis da autossimilaridade, a viralidade, na retentiva dos Autores escolhidos, configura a ‘patografia’ de uma época, cujo perfil imunológico já não se relaciona com questões mitológicas, nem com soluções médicas e/ou justificações fisiológicas. Afinal, o polissemantismo virótico abarca um potencial tóxico universal ou, então, uma germinação infinita de várias categorias de replicadores, que vão constantemente redefinindo o horizonte de adaptação humana.
Autores principais:Vermeire, Simona
Assunto:Viralidade Contágio Epidemia Replicação Teoria da singularidade Consiliência Memética Soma Resistência Virality Contagious Epidemic Replication Theory of singularity Consilience Memetic Resistence
Ano:2015
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:A viralidade, conceito hodierno e proteiforme comum a várias áreas do conhecimento, constitui um bom pretexto, sob o nosso ponto de vista, para a leitura transdisciplinar e para a análise comparatista da obra de José Saramago e de Eugène Ionesco. Esta nova ‘ecologia’ viral ou ‘viral turn’ – que amplifica o mecanismo de autorreplicação, para além do plano biológico, ao envolver a noosfera, a economia, a psicologia e a comunicação – configura um horizonte de sedução ficcional patente em várias obras de José Saramago e de Eugène Ionesco. Assim sendo, a viroecologia (passe o neologismo) torna manifesto um complexo temático obsessor na obra dos Autores supracitados, incidindo sobre a replicação parasitária a nível somático (alterações dramáticas do corpo), a nível memético (a replicação noosférica), a nível metafísico (a morte como fenómeno contagioso pela ausência) e a nível digital (a replicação de imagens que aniquilam a corpórea consistência fenomenológica). Ao realçarmos o potencial tecnológico responsável pela germinação de um novo tipo de replicadores, os memes e os temes, salientámos a artificialização biológica (através da clonagem, da reprodução artificial e da criação de cyborgs), a artificialização psicológica (através da propaganda e da imersão no mundo da imagética digital) e a artificialização transcendental (através da ‘manipulação’ tecnológica da morte). Tendo em vista a ‘corrupção’ universal de qualquer tipo de informação, bem como da fonte energética que a viralidade pressupõe, ao complexificar o perfil epistemológico e ao fragilizar o sistema axiológico vigente na civilização humana, optámos por uma orientação teórica alicerçada no princípio de consiliência, proposto por E. O.Wilson e pelas novas tendências da crítica evolucionista (“Darwinian literary studies”). No âmbito deste quadro teorético, construímos uma plataforma interdisciplinar, recorrendo à Literatura Comparada, e nomeadamente, aos Estudos Culturais, suscetível de congraçar perspetivas recentes sobre a evolução universal: a memética e a(s) teoria(s) da singularidade tecnológica. Neste sentido, destacámos o caráter ‘visionário’ das obras em exegese, porquanto os seus Autores desenvolveram pistas ficcionais tendendo para uma compreensão aprofundada do modo de vida contemporâneo. Assim sendo, enfatizámos as mundividências e as mundivivências inéditas, patentes em representações literárias que funcionam como um dispositivo ficcional visando a adaptação da mente aos novos desafios evolutivos. Ao contrapor estes tópicos a uma breve perspetiva diacrónica da peste, que é, talvez, a praga mais explorada pelo imaginário literário, tentámos demonstrar o contributo inovador dos dois Homens de Letras no tocante ao paradigma das representações ficcionais, ‘alinhadas’ pelas tendências atuais de replicação parasitária em todas as vertentes/dimensões da realidade. Quedando-nos nestes aspetos de alteração viral, que repassam a obra de José Saramago e de Eugène Ionesco, e dilucidando-os pela via de vários contributos conceptuais, nomeadamente os de Deleuze e de Guattari, de Sloterdijk e de Michel Serres, enfatizámos novos horizontes ficcionais no que respeita à sintomatologia avassaladora dos ‘germes’, propagadores não apenas de doenças biológicas, mas, sobretudo, da ubiquidade de patterns autorreplicativos. Neste lógica fractal, que substitui as relações de contiguidade das pragas ‘clássicas’ pelas leis da autossimilaridade, a viralidade, na retentiva dos Autores escolhidos, configura a ‘patografia’ de uma época, cujo perfil imunológico já não se relaciona com questões mitológicas, nem com soluções médicas e/ou justificações fisiológicas. Afinal, o polissemantismo virótico abarca um potencial tóxico universal ou, então, uma germinação infinita de várias categorias de replicadores, que vão constantemente redefinindo o horizonte de adaptação humana.