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A burocracia electrónica: um estudo sobre as plataformas electrónicas na administração escolar

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Detalhes bibliográficos
Resumo:A utilização dos meios electrónicos no quotidiano das organizações tem constituído um dos pilares para o desenvolvimento de teses que defendem a obsolescência dos princípios burocráticos de organização. Assim, os discursos políticos e legislativos, apoiados em abordagens emergentes de cariz gestionário, encontraram na informatização dos serviços um argumento para defender a superação do modelo burocrático. No entanto, a perspectiva da utilização crescente dos novos meios electrónicos como expressão da pós-burocracia parece assentar em bases empíricas pouco consistentes e numa insuficiente consideração dos princípios da burocracia weberiana. O presente estudo procura compreender, de forma aprofundada e fundamentada em dados empíricos, de que modo as plataformas electrónicas contribuem para a superação, ou pelo contrário, para a intensificação das características burocráticas do sistema organizacional educativo. Para tal, procedeu-se a um estudo de caso centrado numa organização escolar, com recurso a métodos e técnicas próprios para trabalhar com um material empírico novo e complexo, composto por documentos dinâmicos assentes em mecanismos electrónicos interactivos. O quadro teórico-conceptual desenvolvido procurou produzir uma grelha de leitura do fenómeno das plataformas electrónicas e perceber os seus efeitos na reconfiguração da burocracia weberiana, analisando as variações em algumas das suas dimensões centrais. Possibilitou, ainda, verificar de que forma as plataformas electrónicas são usadas pelos actores organizacionais para fazer avançar as suas próprias estratégias com reflexos no redesenho do próprio sistema burocrático. Constatamos, contrariamente ao que defendem as abordagens pós-burocráticas, que a desmaterialização dos processos organizacionais não conduziu à superação do paradigma burocrático de organização, mas ao exagero ou radicalização de algumas dimensões da burocracia weberiana. Assim, verificamos que as formas aparentemente desburocratizadas de agir próprias das novas propostas gestionárias, como a focalização nos resultados e nos objectivos elaborados com base em indicadores quantificados e precisos, a medição e a capacidade de cálculo, constituem pressupostos de algumas das mais centrais dimensões da burocracia racional. A pesquisa permitiu-nos apurar que não só não foi superada a lógica burocrática de funcionamento segundo regras gerais e impessoais, como se verificou a sua multiplicação de forma a articular e traduzir electronicamente os processos organizacionais e os procedimentos administrativos. Por outro lado, o estudo revela que as plataformas electrónicas intensificam a preocupação com a correcção formal dos procedimentos e normas, constituindo um mecanismo formatado para permitir apenas as acções previamente programadas como formalmente correctas. Nesse sentido, a administração educativa tende a tornar-se numa máquina austeramente racional que deixa o administrado sem um interlocutor concreto, desamparado perante uma administração anónima e impessoal. O exercício de direitos torna-se, por isso, mais difícil, pois as intervenções administrativas apresentam-se como operações técnicas de configuração jurídica fluída e de mais difícil impugnabilidade. Decorre do estudo que a administração electrónica apresenta os atributos de uma burocracia mais amadurecida e dotada de melhores meios, onde coexistem dimensões intensificadas da burocracia weberiana com outras dimensões mais fluídas. As plataformas electrónicas proporcionam à Administração a possibilidade de novas formas de controlo, a aceleração das tarefas administrativas, o aumento exponencial das capacidades de cálculo e o exagero do registo minucioso, automático e retrospectivo. A investigação veio comprovar que na administração por via electrónica assumem especial importância os pequenos actos de gestão baseados nos conhecimentos especializados de carácter tecnológico que proporcionam à cúpula da burocracia electrónica o poder de condicionar esferas cada vez mais relevantes do funcionamento quotidiano do sistema organizacional. Dessa forma, a administração burocrática expande as suas competências condicionando a operacionalidade e viabilidade das decisões políticas, através de intervenções imperceptíveis, inscritas nas funcionalidades das plataformas electrónicas. O processo de tomada de decisão tende a individualizar-se e a deslocar-se para os níveis superiores da Administração, dependendo cada vez mais das intervenções técnicas de um número restrito de especialistas da tecnoestrutura que inibem a participação dos não especialistas no processo democrático de tomada de decisões. Daí, a diminuição da importância da hierarquia formal e a sua comutação por novas formas assimétricas de poder onde domina uma nova elite heterogénea que exerce funções de elevado status organizacional. A proximidade entre as burocracias privadas e públicas dá origem a um sistema de organização mais indiferenciado e mais forte no seu grau de racionalização funcional. Deste modo, a burocracia electrónica, como expressão desse processo de racionalização, constitui uma reconfiguração intensificada da burocracia weberiana, uma manifestação compatível com o processo de hiperburocratização das organizações.
Autores principais:Meira, Manuel do Vale Fernandes
Assunto:Administração educacional Burocracia electrónica Plataformas electrónicas Hiperburocracia Educational administration Electronic bureaucracy Electronic platforms Hyperbureaucracy
Ano:2017
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:A utilização dos meios electrónicos no quotidiano das organizações tem constituído um dos pilares para o desenvolvimento de teses que defendem a obsolescência dos princípios burocráticos de organização. Assim, os discursos políticos e legislativos, apoiados em abordagens emergentes de cariz gestionário, encontraram na informatização dos serviços um argumento para defender a superação do modelo burocrático. No entanto, a perspectiva da utilização crescente dos novos meios electrónicos como expressão da pós-burocracia parece assentar em bases empíricas pouco consistentes e numa insuficiente consideração dos princípios da burocracia weberiana. O presente estudo procura compreender, de forma aprofundada e fundamentada em dados empíricos, de que modo as plataformas electrónicas contribuem para a superação, ou pelo contrário, para a intensificação das características burocráticas do sistema organizacional educativo. Para tal, procedeu-se a um estudo de caso centrado numa organização escolar, com recurso a métodos e técnicas próprios para trabalhar com um material empírico novo e complexo, composto por documentos dinâmicos assentes em mecanismos electrónicos interactivos. O quadro teórico-conceptual desenvolvido procurou produzir uma grelha de leitura do fenómeno das plataformas electrónicas e perceber os seus efeitos na reconfiguração da burocracia weberiana, analisando as variações em algumas das suas dimensões centrais. Possibilitou, ainda, verificar de que forma as plataformas electrónicas são usadas pelos actores organizacionais para fazer avançar as suas próprias estratégias com reflexos no redesenho do próprio sistema burocrático. Constatamos, contrariamente ao que defendem as abordagens pós-burocráticas, que a desmaterialização dos processos organizacionais não conduziu à superação do paradigma burocrático de organização, mas ao exagero ou radicalização de algumas dimensões da burocracia weberiana. Assim, verificamos que as formas aparentemente desburocratizadas de agir próprias das novas propostas gestionárias, como a focalização nos resultados e nos objectivos elaborados com base em indicadores quantificados e precisos, a medição e a capacidade de cálculo, constituem pressupostos de algumas das mais centrais dimensões da burocracia racional. A pesquisa permitiu-nos apurar que não só não foi superada a lógica burocrática de funcionamento segundo regras gerais e impessoais, como se verificou a sua multiplicação de forma a articular e traduzir electronicamente os processos organizacionais e os procedimentos administrativos. Por outro lado, o estudo revela que as plataformas electrónicas intensificam a preocupação com a correcção formal dos procedimentos e normas, constituindo um mecanismo formatado para permitir apenas as acções previamente programadas como formalmente correctas. Nesse sentido, a administração educativa tende a tornar-se numa máquina austeramente racional que deixa o administrado sem um interlocutor concreto, desamparado perante uma administração anónima e impessoal. O exercício de direitos torna-se, por isso, mais difícil, pois as intervenções administrativas apresentam-se como operações técnicas de configuração jurídica fluída e de mais difícil impugnabilidade. Decorre do estudo que a administração electrónica apresenta os atributos de uma burocracia mais amadurecida e dotada de melhores meios, onde coexistem dimensões intensificadas da burocracia weberiana com outras dimensões mais fluídas. As plataformas electrónicas proporcionam à Administração a possibilidade de novas formas de controlo, a aceleração das tarefas administrativas, o aumento exponencial das capacidades de cálculo e o exagero do registo minucioso, automático e retrospectivo. A investigação veio comprovar que na administração por via electrónica assumem especial importância os pequenos actos de gestão baseados nos conhecimentos especializados de carácter tecnológico que proporcionam à cúpula da burocracia electrónica o poder de condicionar esferas cada vez mais relevantes do funcionamento quotidiano do sistema organizacional. Dessa forma, a administração burocrática expande as suas competências condicionando a operacionalidade e viabilidade das decisões políticas, através de intervenções imperceptíveis, inscritas nas funcionalidades das plataformas electrónicas. O processo de tomada de decisão tende a individualizar-se e a deslocar-se para os níveis superiores da Administração, dependendo cada vez mais das intervenções técnicas de um número restrito de especialistas da tecnoestrutura que inibem a participação dos não especialistas no processo democrático de tomada de decisões. Daí, a diminuição da importância da hierarquia formal e a sua comutação por novas formas assimétricas de poder onde domina uma nova elite heterogénea que exerce funções de elevado status organizacional. A proximidade entre as burocracias privadas e públicas dá origem a um sistema de organização mais indiferenciado e mais forte no seu grau de racionalização funcional. Deste modo, a burocracia electrónica, como expressão desse processo de racionalização, constitui uma reconfiguração intensificada da burocracia weberiana, uma manifestação compatível com o processo de hiperburocratização das organizações.