Publicação
Entre os montes e as águas : ensaio sobre a percepção dos limites na Pré-história da faixa costeira entre o Minho e o Lima (NW português)
| Resumo: | A plataforma litoral é relativamente estreita e delimitada por uma Arriba Fóssil com vertentes de pendor acentuado, sensivelmente paralela ao mar, sendo interrompida apenas no promontório de Montedor. Todas estas características provocam um efeito cénico e visual de profundo isolamento em relação ao relevo interior, apenas quebrado pelas fozes dos rios Minho, Âncora e Lima. Foi neste cenário com características impressivas entre o mar – a oeste (desconhecido e perigoso), a arriba fóssil – a este (de difícil acessibilidade e nos limites da terra e do céu) e o estuário dos rios (porta de entrada ou de saída para mundos insuspeitados) que as comunidades pré-históricas desenvolveram uma série de acções que culminaram na gravação de afloramentos com motivos de carácter zoomórfico ou circulares, designadas por “arte atlântica”, entre outras. A partir do inventário dessas gravuras, se bem que preliminar, da sua contextualização física e ambiental, assim como da maior ou menor complexidade dos motivos inscritos nas rochas e partindo do princípio de que elas materializam, em parte, o modo como as comunidades se implicaram e percepcionaram o mundo, esboçámos algumas hipóteses de trabalho que necessitam de uma maior base empírica para a sua futura confirmação. Em primeiro lugar considerámos que a “arte atlântica” e as acções que lhes são inerentes se parecem relacionar com o movimento das águas fluviais (desde as suas nascentes até à foz) e dos mares, e com os lugares liminares entre as águas, a terra e o céu, numa cosmovisão que daria especial relevo ao encontro destes diferentes elementos. Nesta perspectiva presumimos que as fozes e os estuários dos rios Minho e Lima teriam sido lugares de significação simbólica de grande importância colectiva por serem, simultaneamente, locais onde se encontram as águas dos mares com as dos rios e as águas com a terra. Considerámos, também, que todo a fachada litoral entre os rios Lima e Minho, terá sido um cenário igualmente relevante no universo simbólico das populações pré-históricas, tendo em conta a altitude dos maciços graníticos aí existentes e o facto de, nos seus cumes, existirem inúmeras nascentes que alimentam um grande número de linhas de águas que correm nas suas vertentes de forte pendente. De salientar que toda esta área é um lugar liminar de encontro entre a terra e o mar bastante estreito e isolado.Uma terceira hipótese equacionada foi a de que as gravuras no topo dos montes materializariam a importância cosmológica destes lugares, simultaneamente de nascentes e de limite entre a terra e o céu, talvez mais interditos em termos sociais do que os cenários com maior número de gravuras e localizados nas plataformas baixas e médias das vertentes. Estes representariam lugares de maior sociabilização, ritualização e celebração do mundo. Por fim, admitimos, na senda de R. Bradley, de que as comunidades que gravaram estes motivos seriam portadores de uma certa mobilidade, o que se adequaria bem com uma cosmovisão que parece privilegiar o percurso das águas e os diferentes lugares liminares no seio de uma região relativamente restrita, o que está de acordo com o que conhecemos para o Neolítico e o Calcolítico regional. |
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| Autores principais: | Bettencourt, Ana M. S. |
| Assunto: | Noroeste de Portugal Fachada litoral entre o Lima e o Minho Arte atlântica Simbolismo dos “lugares de limite” Northwest of Portugal Coastal facade between Lima and Minho “Atlantic rock art” Symbolism of the liminal places |
| Ano: | 2010 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | capítulo de livro |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | A plataforma litoral é relativamente estreita e delimitada por uma Arriba Fóssil com vertentes de pendor acentuado, sensivelmente paralela ao mar, sendo interrompida apenas no promontório de Montedor. Todas estas características provocam um efeito cénico e visual de profundo isolamento em relação ao relevo interior, apenas quebrado pelas fozes dos rios Minho, Âncora e Lima. Foi neste cenário com características impressivas entre o mar – a oeste (desconhecido e perigoso), a arriba fóssil – a este (de difícil acessibilidade e nos limites da terra e do céu) e o estuário dos rios (porta de entrada ou de saída para mundos insuspeitados) que as comunidades pré-históricas desenvolveram uma série de acções que culminaram na gravação de afloramentos com motivos de carácter zoomórfico ou circulares, designadas por “arte atlântica”, entre outras. A partir do inventário dessas gravuras, se bem que preliminar, da sua contextualização física e ambiental, assim como da maior ou menor complexidade dos motivos inscritos nas rochas e partindo do princípio de que elas materializam, em parte, o modo como as comunidades se implicaram e percepcionaram o mundo, esboçámos algumas hipóteses de trabalho que necessitam de uma maior base empírica para a sua futura confirmação. Em primeiro lugar considerámos que a “arte atlântica” e as acções que lhes são inerentes se parecem relacionar com o movimento das águas fluviais (desde as suas nascentes até à foz) e dos mares, e com os lugares liminares entre as águas, a terra e o céu, numa cosmovisão que daria especial relevo ao encontro destes diferentes elementos. Nesta perspectiva presumimos que as fozes e os estuários dos rios Minho e Lima teriam sido lugares de significação simbólica de grande importância colectiva por serem, simultaneamente, locais onde se encontram as águas dos mares com as dos rios e as águas com a terra. Considerámos, também, que todo a fachada litoral entre os rios Lima e Minho, terá sido um cenário igualmente relevante no universo simbólico das populações pré-históricas, tendo em conta a altitude dos maciços graníticos aí existentes e o facto de, nos seus cumes, existirem inúmeras nascentes que alimentam um grande número de linhas de águas que correm nas suas vertentes de forte pendente. De salientar que toda esta área é um lugar liminar de encontro entre a terra e o mar bastante estreito e isolado.Uma terceira hipótese equacionada foi a de que as gravuras no topo dos montes materializariam a importância cosmológica destes lugares, simultaneamente de nascentes e de limite entre a terra e o céu, talvez mais interditos em termos sociais do que os cenários com maior número de gravuras e localizados nas plataformas baixas e médias das vertentes. Estes representariam lugares de maior sociabilização, ritualização e celebração do mundo. Por fim, admitimos, na senda de R. Bradley, de que as comunidades que gravaram estes motivos seriam portadores de uma certa mobilidade, o que se adequaria bem com uma cosmovisão que parece privilegiar o percurso das águas e os diferentes lugares liminares no seio de uma região relativamente restrita, o que está de acordo com o que conhecemos para o Neolítico e o Calcolítico regional. |
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