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Dos escândalos financeiros à sustentabilidade: desafios para a auditoria e perceção dos auditores

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Resumo:Os sucessivos escândalos financeiros, que desde o final do século XX têm marcado profundamente a prática da auditoria, geraram impactos económicos e sociais significativos, expondo também os aspetos morais inerentes à auditoria. Apesar do abalo de confiança sofrido, a auditoria continua a ter um papel crucial na credibilização quer da informação financeira quer da informação não financeira. No contexto da Agenda 2030 e dos 17 ODS, governos, sociedade civil e organizações têm sido chamados a comprometer-se na construção de um mundo melhor. São cada vez mais as organizações que publicam relatórios de sustentabilidade. A Diretiva (UE) 2022/2464 veio estabelecer requisitos mais exigentes para o relato de sustentabilidade das empresas, considerando a elaboração de normas de elevada qualidade que contribuam para o bem público europeu e satisfaçam as necessidades das empresas e dos utilizadores da informação. Foi também destacado o papel do auditor/revisor oficial de contas. Assim, o objetivo deste estudo é analisar como os auditores percecionam o papel da auditoria e o exercício da sua profissão na sociedade em geral nas últimas décadas, tendo em conta o seu propósito, os abalos dos escândalos financeiros e os desafios da sustentabilidade. Seguindo a filosofia de investigação intrepretativista, este estudo qualitativo usa os conceitos de purification de Latour (1987) e de contabilidade de Carnegie et al. (2021) como lente teórica. A recolha de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, efetuadas a 17 auditores financeiros. Os resultados obtidos estão alinhados com a definição de contabilidade apresentada, levando a uma reflexão não apenas sobre “como se faz” e “que convenções determinam o que a auditoria não faz” (isto é, como prática técnica), mas essencialmente sobre “o que a auditoria faz” e “quais os seus impactos no mundo” (ou seja, como prática social), e sobre “o que a auditoria deve fazer e não deve fazer” (ou seja, como prática moral), com a missão de servir o interesse público (Carnegie et al., 2024). Por se tratar de uma prática na sua essência percebida como sendo objetiva, imparcial e técnica, a auditoria pode ser vista como um agente de purificação da informação que é divulgada pelas organizações (ver Latour, 1987). No entanto, os resultados sugerem também que não é fácil criar uma separação entre a esfera científica e a esfera ‘política’, pois a prática da auditoria está articulada com atores sociais, políticos, económicos e morais. Isso significa que a auditoria participa na construção de uma realidade que envolve múltiplos atores e interesses, o que pode tanto gerar controvérsias como aumentar o seu valor, ao legitimar a informação divulgada pelas organizações.
Autores principais:Ribeiro, Maria Margarida Alves
Assunto:Auditoria Escândalos financeiros Prática social e moral Purificação Sustentabilidade Auditing Financial scandals Purification Social and moral practice Sustainability
Ano:2024
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Os sucessivos escândalos financeiros, que desde o final do século XX têm marcado profundamente a prática da auditoria, geraram impactos económicos e sociais significativos, expondo também os aspetos morais inerentes à auditoria. Apesar do abalo de confiança sofrido, a auditoria continua a ter um papel crucial na credibilização quer da informação financeira quer da informação não financeira. No contexto da Agenda 2030 e dos 17 ODS, governos, sociedade civil e organizações têm sido chamados a comprometer-se na construção de um mundo melhor. São cada vez mais as organizações que publicam relatórios de sustentabilidade. A Diretiva (UE) 2022/2464 veio estabelecer requisitos mais exigentes para o relato de sustentabilidade das empresas, considerando a elaboração de normas de elevada qualidade que contribuam para o bem público europeu e satisfaçam as necessidades das empresas e dos utilizadores da informação. Foi também destacado o papel do auditor/revisor oficial de contas. Assim, o objetivo deste estudo é analisar como os auditores percecionam o papel da auditoria e o exercício da sua profissão na sociedade em geral nas últimas décadas, tendo em conta o seu propósito, os abalos dos escândalos financeiros e os desafios da sustentabilidade. Seguindo a filosofia de investigação intrepretativista, este estudo qualitativo usa os conceitos de purification de Latour (1987) e de contabilidade de Carnegie et al. (2021) como lente teórica. A recolha de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, efetuadas a 17 auditores financeiros. Os resultados obtidos estão alinhados com a definição de contabilidade apresentada, levando a uma reflexão não apenas sobre “como se faz” e “que convenções determinam o que a auditoria não faz” (isto é, como prática técnica), mas essencialmente sobre “o que a auditoria faz” e “quais os seus impactos no mundo” (ou seja, como prática social), e sobre “o que a auditoria deve fazer e não deve fazer” (ou seja, como prática moral), com a missão de servir o interesse público (Carnegie et al., 2024). Por se tratar de uma prática na sua essência percebida como sendo objetiva, imparcial e técnica, a auditoria pode ser vista como um agente de purificação da informação que é divulgada pelas organizações (ver Latour, 1987). No entanto, os resultados sugerem também que não é fácil criar uma separação entre a esfera científica e a esfera ‘política’, pois a prática da auditoria está articulada com atores sociais, políticos, económicos e morais. Isso significa que a auditoria participa na construção de uma realidade que envolve múltiplos atores e interesses, o que pode tanto gerar controvérsias como aumentar o seu valor, ao legitimar a informação divulgada pelas organizações.