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Nas redes do instituído e das transgressões: crianças tecendo seu quotidiano em vivências lúdicas e bullying nos tempos e espaços escolares

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Detalhes bibliográficos
Resumo:O presente estudo estrutura-se a partir de uma investigação realizada em uma escola pública portuguesa, com três turmas: pré-escolar, primeiro e terceiro anos do 1º Ciclo de Educação Básica, através de grupos focais com crianças, observações do quotidiano escolar e entrevistas individuais à educadora, professores, assistentes e auxiliares. Constitui-se como abordagem que prioriza a voz e o fazer da criança, sem perder de vista as suas particularidades e regularidades. Articula e confronta esses aspetos com a voz e o fazer do adulto, no contexto das relações intra e intergeracionais. A análise crítica e propositiva, que se quer ampla, profunda e atenta à complexidade, interroga o modelo vigente de escolarização da infância, explicitado numa instituição esquecida de que a sua legitimidade como matriz socializadora, e de afirmação de direitos das crianças, renova-se cotidianamente pelo diálogo entre gerações. Numa perspetiva que referencia o campo de investigação como representativo de uma determinada tendência de educação formal da infância - portanto não construída como crítica a uma escola desse sistema -, desvela-se uma instituição, da sua arquitetura à organização e gestão dos tempos e espaços, desconhecedora das crianças que a habitam. Confirmam esse carácter aspetos como: prioridade ao trabalho individual, silencioso e sedentário em aula; ocupação dos espaços da sala de acordo com o desempenho escolar, com clara estratificação acadêmica e social; restrições ao convívio entre crianças de idades diferentes em nome de propósitos protetivos; conservação de preconceitos e estereótipos étnicos e de gênero; severa limitação de contato com o meio natural; desinteresse às formas de jogar e brincar e às produções lúdicas das crianças nas culturas de pares; intervenções disciplinares não construídas com os protagonistas dos tempos livres; rotinas tensas de almoço; processos incipientes de reflexão pedagógica colegiada etc. Esses condicionantes da cultura de pares permitem liberdade e invisibilidade aos atos de bullying, constatados nas três turmas. Particularidades do fenómeno, como formas diferenciadas de jogar e de brincar das crianças vitimizadas e das agressoras, ou ainda uma liderança nem sempre explícita - mobilizadora de múltiplas formas de violências contra os pares -, não são levadas em consideração no planeamento escolar. O continuísmo desse modelo responde satisfatoriamente ao imperativo numérico de universalização do acesso à educação formal; entretanto, descuida da dimensão qualitativa, e ainda permite que sejam naturalizadas restrições ao bem estar, às especificidades culturais sociais geracionais e à ação influente das crianças. Entre referências a um modelo centralizado que não concede autonomia, e de resignação a essa estrutura, o discurso docente também revela desejo de transformação do contexto. Permanece como um desafio a percepção da criança concreta, incansável ao apresentar-se como um sujeito pleno, de interlocução e de disposição, para participar ativamente nas decisões do quotidiano escolar. Dizem-nos de diversas formas os sujeitos da infância, da sua capacidade para conciliar ofícios, da sua natureza lúdica, facilitadora, complementar e não opositiva aos aprendizados curriculares. Também revelam, por meios próprios, uma leitura profunda, precisa e propositiva do contexto institucional.
Autores principais:Farenzena, Rosana Coronetti
Assunto:Ciências Sociais::Ciências da Educação
Ano:2017
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:O presente estudo estrutura-se a partir de uma investigação realizada em uma escola pública portuguesa, com três turmas: pré-escolar, primeiro e terceiro anos do 1º Ciclo de Educação Básica, através de grupos focais com crianças, observações do quotidiano escolar e entrevistas individuais à educadora, professores, assistentes e auxiliares. Constitui-se como abordagem que prioriza a voz e o fazer da criança, sem perder de vista as suas particularidades e regularidades. Articula e confronta esses aspetos com a voz e o fazer do adulto, no contexto das relações intra e intergeracionais. A análise crítica e propositiva, que se quer ampla, profunda e atenta à complexidade, interroga o modelo vigente de escolarização da infância, explicitado numa instituição esquecida de que a sua legitimidade como matriz socializadora, e de afirmação de direitos das crianças, renova-se cotidianamente pelo diálogo entre gerações. Numa perspetiva que referencia o campo de investigação como representativo de uma determinada tendência de educação formal da infância - portanto não construída como crítica a uma escola desse sistema -, desvela-se uma instituição, da sua arquitetura à organização e gestão dos tempos e espaços, desconhecedora das crianças que a habitam. Confirmam esse carácter aspetos como: prioridade ao trabalho individual, silencioso e sedentário em aula; ocupação dos espaços da sala de acordo com o desempenho escolar, com clara estratificação acadêmica e social; restrições ao convívio entre crianças de idades diferentes em nome de propósitos protetivos; conservação de preconceitos e estereótipos étnicos e de gênero; severa limitação de contato com o meio natural; desinteresse às formas de jogar e brincar e às produções lúdicas das crianças nas culturas de pares; intervenções disciplinares não construídas com os protagonistas dos tempos livres; rotinas tensas de almoço; processos incipientes de reflexão pedagógica colegiada etc. Esses condicionantes da cultura de pares permitem liberdade e invisibilidade aos atos de bullying, constatados nas três turmas. Particularidades do fenómeno, como formas diferenciadas de jogar e de brincar das crianças vitimizadas e das agressoras, ou ainda uma liderança nem sempre explícita - mobilizadora de múltiplas formas de violências contra os pares -, não são levadas em consideração no planeamento escolar. O continuísmo desse modelo responde satisfatoriamente ao imperativo numérico de universalização do acesso à educação formal; entretanto, descuida da dimensão qualitativa, e ainda permite que sejam naturalizadas restrições ao bem estar, às especificidades culturais sociais geracionais e à ação influente das crianças. Entre referências a um modelo centralizado que não concede autonomia, e de resignação a essa estrutura, o discurso docente também revela desejo de transformação do contexto. Permanece como um desafio a percepção da criança concreta, incansável ao apresentar-se como um sujeito pleno, de interlocução e de disposição, para participar ativamente nas decisões do quotidiano escolar. Dizem-nos de diversas formas os sujeitos da infância, da sua capacidade para conciliar ofícios, da sua natureza lúdica, facilitadora, complementar e não opositiva aos aprendizados curriculares. Também revelam, por meios próprios, uma leitura profunda, precisa e propositiva do contexto institucional.