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Portugal peninsular na evolução do pensamento geográfico português (1904-1939)

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Resumo:Este trabalho reporta-se à teorização do pensamento geográfico ibérico sobre a individualização da fronteira lusitano-castelhana nas primeiras décadas do século XX, pretendendo-se demonstrar à luz dos conceitos geopolíticos, que a Ibericidade foi, como ainda é, uma marca indelével em termos geográficos e uma necessidade em termos históricos para o conjunto dos dois países peninsulares. Evidentemente que essa percepção espacial da fronteira ibérica constitui figurativamente o território privilegiado para o geógrafo exercer a polimatia orlandiana, devido à sua própria complexidade paisagística, na medida que vai depender da própria cultura subjacente à população que habita essa área, cabendo-lhe opor-se a influências estranhas ou pelo contrário, aceitar a partilha do seu espaço com outras nacionalidades de cuja heterogeneidade nascerá um conceito de Nação diferente, que se afirmou a partir da Reconquista até pelo menos ao século XIV. A mesma que implicará uma estrutura organizacional do Estado mais complexa e eficiente, capaz de responder ao evoluir da sociedade e da economia. Podemos observar que na época cronológica a que se refere esta Dissertação, a distinção entre Geografia Política e Geopolítica é muito diversificada, dependendo da Escola de Geografia a que pertencem cada um dos seus autores, mas também das concepções político-ideológicas do foro pessoal bem como da respectiva nacionalidade. A Geografia Política refere-se essencialmente à descrição de fenómenos políticos enquadrados no território nacional, sendo este delimitado pelas suas fronteiras, enquanto a Geopolítica resulta das relações de forças centrífugas e centrípetas entre Estados limítrofes e que têm expressão espacial desde épocas recuadas até às primeiras décadas do século XX, época esta em que adquirem expressividade sob a forma de nacionalismos, muito vivos após o redesenhar das fronteiras europeias na sequência da Primeira Guerra Mundial que ensanguentou a Europa. Por essa razão, desenvolvem-se nessa mesma época os estudos teóricos sobre o conceito e funções da fronteira, seja ela natural ou zonal, opondo-se os geógrafos da Escola Alemã de cariz ratzeliano, como Otto Maull (1925) Hermann Lautensach (1924) - especialmente importante pelos minuciosos estudos consagrados à Península ibérica - ou Arthur Dix (1929), aos da Escola Francesa de âmbito regionalista, como Camille Vallaux (1908,1911 e 1933), Jean Brunhes (1921 e 1925) e Jacques Ancel (1936 e 1938). Considera-se que o traçado e fixação de uma fronteira é interdependente com o princípio das nacionalidades, assunto em voga, embora pouco respeitado e pretexto para inúmeras alterações fronteiriças no decorrer dos anos vinte e sobretudo nos anos trinta do século passado, resultante do progressivo avivar das tensões internacionais, cujo ponto mais sensível é sempre a fronteira política, bem patente no antagonismo entre regimes políticos demoliberais e totalitários como o nazi-fascismo. Estas fronteiras, especialmente na Europa Central tornaram-se «vivas» porque a tensão existente, muito dependente do valor do solo, do território e da densidade populacional, provocou modificações no seu traçado através de acordos diplomáticos, prelúdio do posterior conflito mundial que se inicia em 1939, data em que finaliza a cronologia da nossa investigação pela multiplicidade das transformações geopolíticas, fruto de uma mudança de mentalidades, de novas prioridades culturais e até de alteração de regimes políticos ocorridas nos anos subsequentes. Relativamente à delimitação das fronteiras existentes na Península ibérica, avultam em Espanha os nomes de Dantin Cereceda, Hernández-Pacheco; J.Vicens-Vives, A. Melón e M. Terán, partidários de uma diferenciação natural entre ambos os países peninsulares; excepto o último destes geógrafos que se aproxima mais da posição dos investigadores portugueses em que se destacam Orlando Ribeiro, Amorim Girão e Mendes Corrêa. Estes três geógrafos apresentam como denominador comum o facto de considerarem que a delimitação fronteiriça ibérica é (quase) sempre artificial, produto e obra da acção do Homem, mesmo quando apresenta como limites acidentes naturais. A prova mais cabal deste facto resulta de que quase todos os tratados jurídico-diplomáticos assinados entre Portugal e Castela-Leão foram efectuados já depois desses territórios estarem ou terem sido ocupados anteriormente pelas hostes portuguesas, ou ao invés, pelas forças castelhano-leonesas, estabelecendo as respectivas fronteiras comuns e definindo os limites e respectivas estratégias de actuação no que ficou conhecido por Reconquista cristã. Efectivamente, foram mais significativos os Tratados e Acordos que as desavenças sobrevindas entre os dois reinos ibéricos, o que permitiu a progressão das forças portuguesas e castelhano-leonesas em direcção ao extremo meridional do Algarve, que seria cedido a Portugal pelo Tratado de Badajoz em 1267 e ratificado posteriormente em Alcañices, no ano de 1279, com apenas algumas posteriores alterações pontuais no traçado da fronteira oriental. Pode por conseguinte afirmar-se que se a consolidação da fronteira luso-espanhola foi sancionada pelos acordos político–diplomáticos, também não é menos verdade que a sua delimitação zonal em termos espaciais se foi afirmando progressivamente à medida que se estabilizavam as fronteiras resultantes da progressão da Reconquista para locais mais meridionais. Assinale-se o facto de apesar de não existirem limites naturais significativos entre ambos os reinos, se formou uma delimitação tão estável que perdurou até aos dias de hoje. O relacionamento entre os Estados ibéricos ao longo da Idade Média até à dualidade peninsular ocorrida nos alvores do Renascimento, em que Quinhentos prefigura o «século de ouro» espanhol, com o breve intróito da unificação peninsular - fundamentada na geografia e na história comuns, mas que as alianças político-militares ditadas pelos interesses de países estranhos ao iberismo, como a Inglaterra, a Holanda e a França se encarregaram de destruir - pode-se aplicar nos séculos seguintes ao conjunto do espaço geopolítico ibérico. A este correspondem diversas nacionalidades, ou pelo menos nacionalismos ciclicamente emergentes, sempre subalternizados em termos políticos, que não económicos, em relação ao núcleo Castela-Leão, cuja tendência dominadora dentro de uma mesma área geográfica originou forças centrífugas de expansionismo e forças centrípetas de aglutinação e integracionismo, que conduziram à supressão gradual dos Estados ibéricos vizinhos com excepção de Portugal. Considera-se numa vertente histórico-geográfica que a fronteira luso-portuguesa no sentido clássico do termo, nunca existiu, foi antes uma criação imagética medievo-renascentista de cariz político-diplomático e militar, que aproveitou aos seus mentores, os políticos os diplomatas, os clérigos e os nobres, todos aqueles que de alguma forma estavam conotados com o Poder ou que dele se aproveitavam, seja este a nível nacional ou internacional. Com efeito, a separação de Portugal, deve-se mais à influência franco-inglesa em cumplicidade com os poderes políticos nacionais, especificamente a partir de oitocentos, do que às políticas dinásticas de antanho sempre executadas no sentido de uma aproximação quando não de uma união dos povos ibéricos. Aquela situação que ainda perdurava nas primeiras décadas do século XX, conduzia à construção de um discurso histórico–geográfico que procurava evidenciar senão mesmo deturpar os eventos da Reconquista Cristã e da formação das nacionalidades peninsulares a par de sobrepujar a autonomia de Portugal versus individualidade da sua fronteira como argumento para a construção do mito da portugalidade numa óptica nacionalista e integralista. Paradoxalmente, será a militarização e agressividade do franquismo que irá permitir uma normalização do relacionamento político–diplomático entre Portugal e Espanha, que tem o seu culminar na assinatura do Tratado de Não Agressão (1939 e 1940) e posteriormente designado por Pacto Ibérico (1942). Será por demais evidente que a ideologia dominante em cada um dos países ibéricos considerados, terá profundas repercussões no modo de (re)pensar a geopolítica ibérica e consequente levantar de interrogações sobre o papel e significado da fronteira peninsular.
Autores principais:Teles, Pedro Francisco Figueiredo Cabral
Assunto:Geografia Humana Paisagem Geografia Política Geopolítica Fronteira Municipalismo Integralismo Nacionalismo Nação Estado Iberismo Hispanidad Pacto Ibérico Salazarismo Franquismo Human Geography Landscape Geopolitics Political Geography Border Municipalism Integralism Nationalism Nation State Ibericity (ibericidade) Iberism (iberismo) Hispanicism (hispanidad) Iberian Pact Salazarism Francoism
Ano:2012
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:Este trabalho reporta-se à teorização do pensamento geográfico ibérico sobre a individualização da fronteira lusitano-castelhana nas primeiras décadas do século XX, pretendendo-se demonstrar à luz dos conceitos geopolíticos, que a Ibericidade foi, como ainda é, uma marca indelével em termos geográficos e uma necessidade em termos históricos para o conjunto dos dois países peninsulares. Evidentemente que essa percepção espacial da fronteira ibérica constitui figurativamente o território privilegiado para o geógrafo exercer a polimatia orlandiana, devido à sua própria complexidade paisagística, na medida que vai depender da própria cultura subjacente à população que habita essa área, cabendo-lhe opor-se a influências estranhas ou pelo contrário, aceitar a partilha do seu espaço com outras nacionalidades de cuja heterogeneidade nascerá um conceito de Nação diferente, que se afirmou a partir da Reconquista até pelo menos ao século XIV. A mesma que implicará uma estrutura organizacional do Estado mais complexa e eficiente, capaz de responder ao evoluir da sociedade e da economia. Podemos observar que na época cronológica a que se refere esta Dissertação, a distinção entre Geografia Política e Geopolítica é muito diversificada, dependendo da Escola de Geografia a que pertencem cada um dos seus autores, mas também das concepções político-ideológicas do foro pessoal bem como da respectiva nacionalidade. A Geografia Política refere-se essencialmente à descrição de fenómenos políticos enquadrados no território nacional, sendo este delimitado pelas suas fronteiras, enquanto a Geopolítica resulta das relações de forças centrífugas e centrípetas entre Estados limítrofes e que têm expressão espacial desde épocas recuadas até às primeiras décadas do século XX, época esta em que adquirem expressividade sob a forma de nacionalismos, muito vivos após o redesenhar das fronteiras europeias na sequência da Primeira Guerra Mundial que ensanguentou a Europa. Por essa razão, desenvolvem-se nessa mesma época os estudos teóricos sobre o conceito e funções da fronteira, seja ela natural ou zonal, opondo-se os geógrafos da Escola Alemã de cariz ratzeliano, como Otto Maull (1925) Hermann Lautensach (1924) - especialmente importante pelos minuciosos estudos consagrados à Península ibérica - ou Arthur Dix (1929), aos da Escola Francesa de âmbito regionalista, como Camille Vallaux (1908,1911 e 1933), Jean Brunhes (1921 e 1925) e Jacques Ancel (1936 e 1938). Considera-se que o traçado e fixação de uma fronteira é interdependente com o princípio das nacionalidades, assunto em voga, embora pouco respeitado e pretexto para inúmeras alterações fronteiriças no decorrer dos anos vinte e sobretudo nos anos trinta do século passado, resultante do progressivo avivar das tensões internacionais, cujo ponto mais sensível é sempre a fronteira política, bem patente no antagonismo entre regimes políticos demoliberais e totalitários como o nazi-fascismo. Estas fronteiras, especialmente na Europa Central tornaram-se «vivas» porque a tensão existente, muito dependente do valor do solo, do território e da densidade populacional, provocou modificações no seu traçado através de acordos diplomáticos, prelúdio do posterior conflito mundial que se inicia em 1939, data em que finaliza a cronologia da nossa investigação pela multiplicidade das transformações geopolíticas, fruto de uma mudança de mentalidades, de novas prioridades culturais e até de alteração de regimes políticos ocorridas nos anos subsequentes. Relativamente à delimitação das fronteiras existentes na Península ibérica, avultam em Espanha os nomes de Dantin Cereceda, Hernández-Pacheco; J.Vicens-Vives, A. Melón e M. Terán, partidários de uma diferenciação natural entre ambos os países peninsulares; excepto o último destes geógrafos que se aproxima mais da posição dos investigadores portugueses em que se destacam Orlando Ribeiro, Amorim Girão e Mendes Corrêa. Estes três geógrafos apresentam como denominador comum o facto de considerarem que a delimitação fronteiriça ibérica é (quase) sempre artificial, produto e obra da acção do Homem, mesmo quando apresenta como limites acidentes naturais. A prova mais cabal deste facto resulta de que quase todos os tratados jurídico-diplomáticos assinados entre Portugal e Castela-Leão foram efectuados já depois desses territórios estarem ou terem sido ocupados anteriormente pelas hostes portuguesas, ou ao invés, pelas forças castelhano-leonesas, estabelecendo as respectivas fronteiras comuns e definindo os limites e respectivas estratégias de actuação no que ficou conhecido por Reconquista cristã. Efectivamente, foram mais significativos os Tratados e Acordos que as desavenças sobrevindas entre os dois reinos ibéricos, o que permitiu a progressão das forças portuguesas e castelhano-leonesas em direcção ao extremo meridional do Algarve, que seria cedido a Portugal pelo Tratado de Badajoz em 1267 e ratificado posteriormente em Alcañices, no ano de 1279, com apenas algumas posteriores alterações pontuais no traçado da fronteira oriental. Pode por conseguinte afirmar-se que se a consolidação da fronteira luso-espanhola foi sancionada pelos acordos político–diplomáticos, também não é menos verdade que a sua delimitação zonal em termos espaciais se foi afirmando progressivamente à medida que se estabilizavam as fronteiras resultantes da progressão da Reconquista para locais mais meridionais. Assinale-se o facto de apesar de não existirem limites naturais significativos entre ambos os reinos, se formou uma delimitação tão estável que perdurou até aos dias de hoje. O relacionamento entre os Estados ibéricos ao longo da Idade Média até à dualidade peninsular ocorrida nos alvores do Renascimento, em que Quinhentos prefigura o «século de ouro» espanhol, com o breve intróito da unificação peninsular - fundamentada na geografia e na história comuns, mas que as alianças político-militares ditadas pelos interesses de países estranhos ao iberismo, como a Inglaterra, a Holanda e a França se encarregaram de destruir - pode-se aplicar nos séculos seguintes ao conjunto do espaço geopolítico ibérico. A este correspondem diversas nacionalidades, ou pelo menos nacionalismos ciclicamente emergentes, sempre subalternizados em termos políticos, que não económicos, em relação ao núcleo Castela-Leão, cuja tendência dominadora dentro de uma mesma área geográfica originou forças centrífugas de expansionismo e forças centrípetas de aglutinação e integracionismo, que conduziram à supressão gradual dos Estados ibéricos vizinhos com excepção de Portugal. Considera-se numa vertente histórico-geográfica que a fronteira luso-portuguesa no sentido clássico do termo, nunca existiu, foi antes uma criação imagética medievo-renascentista de cariz político-diplomático e militar, que aproveitou aos seus mentores, os políticos os diplomatas, os clérigos e os nobres, todos aqueles que de alguma forma estavam conotados com o Poder ou que dele se aproveitavam, seja este a nível nacional ou internacional. Com efeito, a separação de Portugal, deve-se mais à influência franco-inglesa em cumplicidade com os poderes políticos nacionais, especificamente a partir de oitocentos, do que às políticas dinásticas de antanho sempre executadas no sentido de uma aproximação quando não de uma união dos povos ibéricos. Aquela situação que ainda perdurava nas primeiras décadas do século XX, conduzia à construção de um discurso histórico–geográfico que procurava evidenciar senão mesmo deturpar os eventos da Reconquista Cristã e da formação das nacionalidades peninsulares a par de sobrepujar a autonomia de Portugal versus individualidade da sua fronteira como argumento para a construção do mito da portugalidade numa óptica nacionalista e integralista. Paradoxalmente, será a militarização e agressividade do franquismo que irá permitir uma normalização do relacionamento político–diplomático entre Portugal e Espanha, que tem o seu culminar na assinatura do Tratado de Não Agressão (1939 e 1940) e posteriormente designado por Pacto Ibérico (1942). Será por demais evidente que a ideologia dominante em cada um dos países ibéricos considerados, terá profundas repercussões no modo de (re)pensar a geopolítica ibérica e consequente levantar de interrogações sobre o papel e significado da fronteira peninsular.