Publicação
A potência do encontro: o impacto da intervenção dos Palhaços de Hospital em crianças e adolescentes submetidos a tratamento de quimioterapia
| Resumo: | Dados epidemiológicos sobre oncologia pediátrica revelam que o avanço científico nesta área aumentou consideravelmente as hipóteses de sobrevivência. Transcendendo a morte e o seu inequívoco carater fatal, o cancro na infância e na adolescência é atualmente perspetivado como uma doença crónica prolongada. Esta nova visão redimensionou os cuidados de saúde em torno de processos de cura, bem-estar e qualidade de vida, dando lugar ao paradigma holístico que preconiza uma visão da inter-relação e interdependência das dimensões do ser humano, da sua integralidade, da sua complexidade e da necessidade de uma abordagem multimodal para a obtenção de um equilíbrio dinâmico. Este paradigma defende a promoção de um ambiente de cuidados onde sejam possíveis experiências de hospitalização mais positivas e humanizadas por forma a minimizar o sofrimento e facilitar o confronto e a adaptação aos múltiplos (e significativos) stressores psicossociais associados à vivência da doença e do tratamento oncológico, reconhecidos como perturbadores do desenvolvimento na infância e na adolescência. A ação dos Palhaços de Hospital (PH) inscreve-se neste novo paradigma. Embora recente, e com um curto passado em termos de investigação sobre os seus contributos para, entre outros, a humanização hospitalar, os estudos desenvolvidos até à data têm revelado evidências da eficácia dos PH no bem-estar, recuperação e adesão terapêutica dos pacientes pediátricos em diferentes domínios e procedimentos médico-hospitalares. Desconhecem-se, no entanto, em termos nacionais e internacionais, estudos sobre os efeitos da intervenção destes artistas profissionais no contexto específico da oncologia pediátrica. Procurando contrariar este cenário, a presente Tese propôs-se analisar, em Portugal, os efeitos dos Doutores Palhaços (DP) da Operação Nariz Vermelho, na promoção do bem-estar das crianças/adolescentes durante a quimioterapia. Seguindo um desenho de investigação abarcando metodologias de caráter qualitativo e quantitativo, desenvolveram-se três estudos empíricos. Num primeiro - referenciado no olhar dos profissionais de oncologia pediátrica - exploraram-se as suas perceções sobre as principais dificuldades e necessidades vivenciadas pelas crianças e adolescentes em processo de tratamento. Num segundo estudo, exploraram-se – uma vez mais na ótica dos profissionais de oncologia - os contributos da intervenção dos DP na gestão da doença e do tratamento, assim como as principais reações das crianças/adolescentes à sua intervenção. O terceiro estudo, de desenho quaseexperimental, avaliou os efeitos da intervenção dos DP junto destes pacientes, considerando indicadores físicos e emocionais percecionados pelas próprias crianças/adolescentes nos momentos pré e pós quimioterapia. Os resultados demonstram a intensidade e diversidade de dificuldades e necessidades vivenciadas pelas crianças/adolescentes em processo quimioterapêutico, pontuadas por uma multiplicidade de experiências, sentimentos e reações que afetam não apenas o seu bem-estar físico mas, também, e de forma expressiva, outras dimensões do seu funcionamento psicossocial (e.g., emocional, socio-relacional, comportamental, académico). Destaca-se a premência de intervenções que facilitem, no contexto hospitalar, atividades promotoras da sua expressão, abstração, educação, ocupação e socialização. Em face deste cenário, verifica-se o reconhecimento, pelos profissionais de oncologia pediátrica, dos contributos da intervenção dos DP na promoção de estratégias de coping mais adaptativas (e.g. alegria, diversão, distração, riso, relaxamento) e no suporte à gestão do árduo processo de doença oncológica e seus tratamentos (e.g., hospitalizações e rotinas, administração de procedimentos invasivos e terapêuticos). No que se refere às perceções das crianças e adolescentes quanto à intervenção dos DP durante a sessão de quimioterapia, salientaram-se efeitos significativos da visita dos DP ao nível de respostas emocionais mais positivas (mais sentimentos de alegria [valência afetiva]), redução de emoções negativas (ansiedade/medo, tristeza e preocupação), e aumento do bemestar físico, expresso por menor perceção de cansaço e de reações de dor. Os resultados obtidos contribuem para uma compreensão mais ampla das repercussões psicossociais da doença oncológica em crianças/adolescentes assim como o contributo dos DP enquanto agentes que “emprestam” a sua arte para facilitar, promover, minorar e mediar alguns processos (físicos, emocionais, socio-relacionais) inerentes à doença oncológica e seu tratamento, que poderão concorrer para a recuperação, desenvolvimento e bem-estar destes pacientes, ressignificando a doença e incrementando, potencialmente, o sentido de esperança. |
|---|---|
| Autores principais: | Melo, Ana Sofia Marques |
| Assunto: | Oncologia pediátrica Quimioterapia Humanização hospitalar Palhaços de hospital Pediatric oncology Chemotherapy Hospital humanization Hospital clowns |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade do Minho |
| Idioma: | português |
| Origem: | RepositóriUM - Universidade do Minho |
| Resumo: | Dados epidemiológicos sobre oncologia pediátrica revelam que o avanço científico nesta área aumentou consideravelmente as hipóteses de sobrevivência. Transcendendo a morte e o seu inequívoco carater fatal, o cancro na infância e na adolescência é atualmente perspetivado como uma doença crónica prolongada. Esta nova visão redimensionou os cuidados de saúde em torno de processos de cura, bem-estar e qualidade de vida, dando lugar ao paradigma holístico que preconiza uma visão da inter-relação e interdependência das dimensões do ser humano, da sua integralidade, da sua complexidade e da necessidade de uma abordagem multimodal para a obtenção de um equilíbrio dinâmico. Este paradigma defende a promoção de um ambiente de cuidados onde sejam possíveis experiências de hospitalização mais positivas e humanizadas por forma a minimizar o sofrimento e facilitar o confronto e a adaptação aos múltiplos (e significativos) stressores psicossociais associados à vivência da doença e do tratamento oncológico, reconhecidos como perturbadores do desenvolvimento na infância e na adolescência. A ação dos Palhaços de Hospital (PH) inscreve-se neste novo paradigma. Embora recente, e com um curto passado em termos de investigação sobre os seus contributos para, entre outros, a humanização hospitalar, os estudos desenvolvidos até à data têm revelado evidências da eficácia dos PH no bem-estar, recuperação e adesão terapêutica dos pacientes pediátricos em diferentes domínios e procedimentos médico-hospitalares. Desconhecem-se, no entanto, em termos nacionais e internacionais, estudos sobre os efeitos da intervenção destes artistas profissionais no contexto específico da oncologia pediátrica. Procurando contrariar este cenário, a presente Tese propôs-se analisar, em Portugal, os efeitos dos Doutores Palhaços (DP) da Operação Nariz Vermelho, na promoção do bem-estar das crianças/adolescentes durante a quimioterapia. Seguindo um desenho de investigação abarcando metodologias de caráter qualitativo e quantitativo, desenvolveram-se três estudos empíricos. Num primeiro - referenciado no olhar dos profissionais de oncologia pediátrica - exploraram-se as suas perceções sobre as principais dificuldades e necessidades vivenciadas pelas crianças e adolescentes em processo de tratamento. Num segundo estudo, exploraram-se – uma vez mais na ótica dos profissionais de oncologia - os contributos da intervenção dos DP na gestão da doença e do tratamento, assim como as principais reações das crianças/adolescentes à sua intervenção. O terceiro estudo, de desenho quaseexperimental, avaliou os efeitos da intervenção dos DP junto destes pacientes, considerando indicadores físicos e emocionais percecionados pelas próprias crianças/adolescentes nos momentos pré e pós quimioterapia. Os resultados demonstram a intensidade e diversidade de dificuldades e necessidades vivenciadas pelas crianças/adolescentes em processo quimioterapêutico, pontuadas por uma multiplicidade de experiências, sentimentos e reações que afetam não apenas o seu bem-estar físico mas, também, e de forma expressiva, outras dimensões do seu funcionamento psicossocial (e.g., emocional, socio-relacional, comportamental, académico). Destaca-se a premência de intervenções que facilitem, no contexto hospitalar, atividades promotoras da sua expressão, abstração, educação, ocupação e socialização. Em face deste cenário, verifica-se o reconhecimento, pelos profissionais de oncologia pediátrica, dos contributos da intervenção dos DP na promoção de estratégias de coping mais adaptativas (e.g. alegria, diversão, distração, riso, relaxamento) e no suporte à gestão do árduo processo de doença oncológica e seus tratamentos (e.g., hospitalizações e rotinas, administração de procedimentos invasivos e terapêuticos). No que se refere às perceções das crianças e adolescentes quanto à intervenção dos DP durante a sessão de quimioterapia, salientaram-se efeitos significativos da visita dos DP ao nível de respostas emocionais mais positivas (mais sentimentos de alegria [valência afetiva]), redução de emoções negativas (ansiedade/medo, tristeza e preocupação), e aumento do bemestar físico, expresso por menor perceção de cansaço e de reações de dor. Os resultados obtidos contribuem para uma compreensão mais ampla das repercussões psicossociais da doença oncológica em crianças/adolescentes assim como o contributo dos DP enquanto agentes que “emprestam” a sua arte para facilitar, promover, minorar e mediar alguns processos (físicos, emocionais, socio-relacionais) inerentes à doença oncológica e seu tratamento, que poderão concorrer para a recuperação, desenvolvimento e bem-estar destes pacientes, ressignificando a doença e incrementando, potencialmente, o sentido de esperança. |
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