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Da excelência no ensino secundário à (ir)regularidade académica no ensino superior: (des)continuidades de percursos de alunos distinguidos na escola pública portuguesa

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Detalhes bibliográficos
Resumo:A escola pública portuguesa tem vindo a enfatizar uma conceção de excelência focada na inteligência cognitiva (Damásio, 2019) na sala de aula e nos processos clássicos de ensino-aprendizagem, tendencialmente reprodutores, acríticos e não reflexivos (L. L. Torres & Palhares, 2011), na lógica de uma excelência epistémica (MacAllister, Macleod, & Pirrie, 2013), que é sobretudo técnica, disciplinar, padronizada, mensurável, prescritiva, competitiva e classificatória (Bruno‐Jofré & Hills, 2011). A ênfase conferida à dimensão cognitiva da excelência, reforçada pela crescente ritualização da distinção do mérito escolar (L. L. Torres, 2014a; L. L. Torres, Palhares, & Borges, 2017), tem vindo a enformar os percursos estudantis, promovendo o aumento da competitividade escolar, sobretudo, entre aqueles que frequentam as áreas de estudo de acesso aos cursos mais prestigiados no ensino superior (A. N. Almeida & Vieira, 2008). Esta tese irá procurar compreender os efeitos e as tensões que este modelo de excelência, protagonizado pelos “alunos de excelência”, coloca ao nível do ensino superior, com o apoio do arquétipo analítico proposto para o efeito, intitulado: Modelo Circular Concêntrico de Análise dos Percursos Estudantis no Ensino Superior. Os principais objetivos são o de conhecer os percursos no ensino superior dos alunos de excelência do ensino secundário e identificar tipos de experiência estudantil. Neste sentido, ao nível do referencial teórico, elegemos a sociologia da experiência, em específico a noção de experiência social (Dubet, 1996, 2017; Dubet & Martuccelli, 1997), que enfatiza a capacidade do ator em refletir sobre a sua experiência, sem o desligar das diversas dimensões do sistema de que faz parte e que lhe fornecem os elementos para que possa agir do modo como age. Nesta abordagem teórica, a experiência estudantil na universidade de massas é baseada em três dimensões subjetivas ligadas aos elementos do sistema (o projeto, a integração e a vocação) que organizam a experiência dos indivíduos e definem o sentido subjetivo dos estudos. Cada um dos elementos pode ser identificado na subjetividade dos estudantes, únicos aptos a definir a utilidade dos estudos (projeto escolar, projeto profissional, ausência de projeto), a adesão às normas da universidade e ao contexto institucional e interacional (integração) e a realização intelectual nos estudos (vocação). Do ponto de vista empírico, a pesquisa explora as representações de mais de 400 estudantes (em inquérito por questionário, entrevista e diário de bordo), numa estratégia metodológica ancorada no método de estudo de casos, na vertente de estudo longitudinal (Greenwood, 1965), com a finalidade de encontrar o que de social comporta o estudante na sua singularidade (Lopes, 2015), recusando erigir juízos opinativos, avaliativos (L. L. Torres & Palhares, 2014a) e moralizadores (M. M. Vieira, 2016). Os resultados evidenciam que a generalidade dos estudantes reconhece ter vivenciado o secundário numa espécie de “bolha performática” (mobilização de diferentes capitais pela família, horas de estudo diárias, turmas homogéneas, explicações fora da escola, inflacionamento de notas) e reconhecem a falta de “treino” para lidar com o erro e a frustração. Destaca-se a prevalência de um cenário em que o ensino superior é vivenciado abaixo das expectativas, com desânimo, incerteza, numa ausência de afiliação institucional e intelectual à Universidade, observável em estudantes com dificuldades de colocação na 1.ª opção da candidatura e com problemas de adaptação à Universidade. Estudantes que tendem a mudar de curso ou a manifestar essa intenção, a viver em casa dos pais, a ter uma perceção negativa sobre o trabalho dos professores e o ritmo e intensidade do estudo no ensino superior, a não participar em atividades extracurriculares, ações de interesse social e comunitário e funções associativas, e a raramente ter encontros com colegas e amigos fora do estabelecimento de ensino. Na tipologia que elaboramos, de entre 10 modos de ser estudante do ensino superior, prevalecem neste cenário três perfis: O nostálgico, O vazio e O utilitário.
Autores principais:Borges, Germano José da Conceição Pinto
Assunto:Ensino Superior Excelência Académica Percursos Estudantis Sociologia da Educação Academic Excellence Higher Education Sociology of Education Student Paths
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:A escola pública portuguesa tem vindo a enfatizar uma conceção de excelência focada na inteligência cognitiva (Damásio, 2019) na sala de aula e nos processos clássicos de ensino-aprendizagem, tendencialmente reprodutores, acríticos e não reflexivos (L. L. Torres & Palhares, 2011), na lógica de uma excelência epistémica (MacAllister, Macleod, & Pirrie, 2013), que é sobretudo técnica, disciplinar, padronizada, mensurável, prescritiva, competitiva e classificatória (Bruno‐Jofré & Hills, 2011). A ênfase conferida à dimensão cognitiva da excelência, reforçada pela crescente ritualização da distinção do mérito escolar (L. L. Torres, 2014a; L. L. Torres, Palhares, & Borges, 2017), tem vindo a enformar os percursos estudantis, promovendo o aumento da competitividade escolar, sobretudo, entre aqueles que frequentam as áreas de estudo de acesso aos cursos mais prestigiados no ensino superior (A. N. Almeida & Vieira, 2008). Esta tese irá procurar compreender os efeitos e as tensões que este modelo de excelência, protagonizado pelos “alunos de excelência”, coloca ao nível do ensino superior, com o apoio do arquétipo analítico proposto para o efeito, intitulado: Modelo Circular Concêntrico de Análise dos Percursos Estudantis no Ensino Superior. Os principais objetivos são o de conhecer os percursos no ensino superior dos alunos de excelência do ensino secundário e identificar tipos de experiência estudantil. Neste sentido, ao nível do referencial teórico, elegemos a sociologia da experiência, em específico a noção de experiência social (Dubet, 1996, 2017; Dubet & Martuccelli, 1997), que enfatiza a capacidade do ator em refletir sobre a sua experiência, sem o desligar das diversas dimensões do sistema de que faz parte e que lhe fornecem os elementos para que possa agir do modo como age. Nesta abordagem teórica, a experiência estudantil na universidade de massas é baseada em três dimensões subjetivas ligadas aos elementos do sistema (o projeto, a integração e a vocação) que organizam a experiência dos indivíduos e definem o sentido subjetivo dos estudos. Cada um dos elementos pode ser identificado na subjetividade dos estudantes, únicos aptos a definir a utilidade dos estudos (projeto escolar, projeto profissional, ausência de projeto), a adesão às normas da universidade e ao contexto institucional e interacional (integração) e a realização intelectual nos estudos (vocação). Do ponto de vista empírico, a pesquisa explora as representações de mais de 400 estudantes (em inquérito por questionário, entrevista e diário de bordo), numa estratégia metodológica ancorada no método de estudo de casos, na vertente de estudo longitudinal (Greenwood, 1965), com a finalidade de encontrar o que de social comporta o estudante na sua singularidade (Lopes, 2015), recusando erigir juízos opinativos, avaliativos (L. L. Torres & Palhares, 2014a) e moralizadores (M. M. Vieira, 2016). Os resultados evidenciam que a generalidade dos estudantes reconhece ter vivenciado o secundário numa espécie de “bolha performática” (mobilização de diferentes capitais pela família, horas de estudo diárias, turmas homogéneas, explicações fora da escola, inflacionamento de notas) e reconhecem a falta de “treino” para lidar com o erro e a frustração. Destaca-se a prevalência de um cenário em que o ensino superior é vivenciado abaixo das expectativas, com desânimo, incerteza, numa ausência de afiliação institucional e intelectual à Universidade, observável em estudantes com dificuldades de colocação na 1.ª opção da candidatura e com problemas de adaptação à Universidade. Estudantes que tendem a mudar de curso ou a manifestar essa intenção, a viver em casa dos pais, a ter uma perceção negativa sobre o trabalho dos professores e o ritmo e intensidade do estudo no ensino superior, a não participar em atividades extracurriculares, ações de interesse social e comunitário e funções associativas, e a raramente ter encontros com colegas e amigos fora do estabelecimento de ensino. Na tipologia que elaboramos, de entre 10 modos de ser estudante do ensino superior, prevalecem neste cenário três perfis: O nostálgico, O vazio e O utilitário.