Publicação

A construção do preconceito contra o povo do Nordeste: jornalismo, estereótipos sociais e escrevivências

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:O preconceito contra o povo do Nordeste do Brasil segue presente e se manifesta tanto em abordagens sutis quanto em gestos escancarados. Essa discriminação é permeada por estereótipos antigos que são acessados com ou sem consciência, e que contribuem com a inferiorização dessa população. De comentários aparente mente inofensivos sobre uma suposta fisionomia comum aos nordestinos à negação de oportunidades acadêmicas e de trabalho, sua ocorrência se dá em diferentes contextos, mas sempre provocando danos. Algumas perguntas, porém, ainda permaneciam sem respostas para muitas vítimas dessa discriminação: quando e como começou esse preconceito? E mais: a quais interesses atendeu? Este trabalho se debruçou sobre o tema, revisitando a história do Brasil até o início do século XX, quando um pedaço do “Norte”, por força da seca, passou a ser chamado de Nordeste, e fazendo uma varredura na produção jornalística desse período com relatos sobre o “novo” espaço geográfico que se firmava e a sua população. A partir da análise temática de conteúdo dos artigos das séries “Impressões do Nordeste”, “Impressões de São Paulo”, “Joaseiro do Padre Cícero” e “O banditismo no Nordeste”, publicadas entre 1923 e 1927 pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi possível entender a origem de caracterizações físicas e comporta mentais atribuídas aos nordestinos, que perduram até hoje. A contribuição da imprensa na criação e disseminação desses estereótipos foi motivada por disputas de poder político e econômico, em meio à difusão de pensamentos eugenistas e à depreciação da mão de obra migrante. Esse contexto contribuiu para o silenciamento da população afetada, evidenciado pelo Complexo de Macabéa. Para tanto, além da revisão histórica, o estudo foi embasado por teorias acerca dos seguintes temas: estereótipos, pertencimento, identidade e comparações sociais, além de conceitos ligados ao fazer jornalístico, como linha editorial e critérios de noticiabilidade, e ao jornalismo como construtor da realidade social. Também se avançou pelos discursos políticos e pela produção cultural do século XX para identificar as camadas depositadas sobre essas primeiras impressões. Por meio de questionário submetido a pessoas nordestinas, foi possível identificar como esse preconceito se manifesta atualmente, traçando linhas de continuidade com os artigos de 1920, permitindo a compreensão sobre a gênese de uma rejeição que além de xenofóbica revelou-se, ao longo da pesquisa, fundamentalmente racista.
Autores principais:Neto, Octávio Santiago
Assunto:Estereótipos sociais Jornalismo Nordestinos Preconceito Journalism Northeasterners Prejudice Social stereotypes
Ano:2024
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade do Minho
Idioma:português
Origem:RepositóriUM - Universidade do Minho
Descrição
Resumo:O preconceito contra o povo do Nordeste do Brasil segue presente e se manifesta tanto em abordagens sutis quanto em gestos escancarados. Essa discriminação é permeada por estereótipos antigos que são acessados com ou sem consciência, e que contribuem com a inferiorização dessa população. De comentários aparente mente inofensivos sobre uma suposta fisionomia comum aos nordestinos à negação de oportunidades acadêmicas e de trabalho, sua ocorrência se dá em diferentes contextos, mas sempre provocando danos. Algumas perguntas, porém, ainda permaneciam sem respostas para muitas vítimas dessa discriminação: quando e como começou esse preconceito? E mais: a quais interesses atendeu? Este trabalho se debruçou sobre o tema, revisitando a história do Brasil até o início do século XX, quando um pedaço do “Norte”, por força da seca, passou a ser chamado de Nordeste, e fazendo uma varredura na produção jornalística desse período com relatos sobre o “novo” espaço geográfico que se firmava e a sua população. A partir da análise temática de conteúdo dos artigos das séries “Impressões do Nordeste”, “Impressões de São Paulo”, “Joaseiro do Padre Cícero” e “O banditismo no Nordeste”, publicadas entre 1923 e 1927 pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi possível entender a origem de caracterizações físicas e comporta mentais atribuídas aos nordestinos, que perduram até hoje. A contribuição da imprensa na criação e disseminação desses estereótipos foi motivada por disputas de poder político e econômico, em meio à difusão de pensamentos eugenistas e à depreciação da mão de obra migrante. Esse contexto contribuiu para o silenciamento da população afetada, evidenciado pelo Complexo de Macabéa. Para tanto, além da revisão histórica, o estudo foi embasado por teorias acerca dos seguintes temas: estereótipos, pertencimento, identidade e comparações sociais, além de conceitos ligados ao fazer jornalístico, como linha editorial e critérios de noticiabilidade, e ao jornalismo como construtor da realidade social. Também se avançou pelos discursos políticos e pela produção cultural do século XX para identificar as camadas depositadas sobre essas primeiras impressões. Por meio de questionário submetido a pessoas nordestinas, foi possível identificar como esse preconceito se manifesta atualmente, traçando linhas de continuidade com os artigos de 1920, permitindo a compreensão sobre a gênese de uma rejeição que além de xenofóbica revelou-se, ao longo da pesquisa, fundamentalmente racista.