Publicação

O cinema como lugar de performance da angústia

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Há muitos conceitos em torno da Angústia, uma busca por um significado desse sentimento que não tem nada de trivial, parece ser dotada de uma certa nobreza em seu sentido, não é um sentimento como a tristeza, o medo, a dor, que são sentimentos mais óbvios, sempre ligados diretamente a um objeto. Tristeza por algo, medo de alguma coisa e dor por algum motivo. Ainda que a Angústia possa abarcar em si a tristeza, a dor e o medo, não são eles que a definem. A Angústia é uma condição constitutiva da existência, surge com o próprio nascer humano. Incontornável, ela é referenciada nesta dissertação por alguns filósofos como Jean- Paul Sartre, Soren Kierkegaard e Martin Heidegger, escolhendo como melhor definição a ideia de nada. “Aquilo com que a angústia se angustia é o “nada” que não se revela “em parte alguma” (Heidegger 2005, 250). O sentido da palavra “nada” para denominar Angústia não se refere a coisa nenhuma. De tão complexo, o nada vem com a contingência de uma totalidade inominável. Quando falamos que tudo está presente, é uma medida que traz nomeação a partir da presença das coisas, quando falamos sobre o nada aparece a impossibilidade de nomeação, o que não quer dizer sobre o desguarnecido ou coisa oca. Esse nada traz a ideia de que é a falta em si de uma coisa, ou seja, a ausência de uma presença. Uma lacuna e não uma inexistência, assim como a falta aparente de um livro em uma estante. Essa denominação é escolhida por conta da afinidade com o conceito de Angústia para Jacques Lacan, que é o encontro com o Real. O Real em Lacan é o que não podemos ter dúvida, é o que volta sempre ao mesmo lugar, ainda que não tenha simbolização, não tenha imagem, por se colocar no nível do traumático. Assim sendo, ao entrarmos em contato com o Real, que não é falta e sim privação, nós entramos em condição de Angústia. Apesar da Angústia ser sempre pela presença da ausência de um objeto, é da própria Angústia o caráter de não preenchimento desse objeto em falta, por ser o Real traumático e irrepresentável: não pode ser ocupado, é desconhecido pelo sujeito, pertence a esfera do inconsciente. O ser humano sempre buscou a arte para mediar sua relação com o mundo, desde a préhistória até a contemporaneidade, pois é através dela que damos conta dessa necessidade de procurarmos formas simbólicas e imaginárias para reconhecermos nossa interação com os acontecimentos da vida. Imprimir o que vemos e sentimos para revê-las e ressenti-las (aqui aparecendo em função positiva) para reconhecer a realidade, pensá-la e entendê-la. Entretanto, para Lacan, o que está no nível do traumático não tem símbolo e nem imagem. Por isso a falta de representação, torna o traumático irreconhecível ainda que existente, impossibilitando uma interação para produzir uma elucidação sobre o trauma, mantendo o Real ao nível do inconsciente. É o cinema, que tem essa aparência de sonho, que vai dialogar com o inconsciente tornando possível uma performance para a Angústia. Assim como os sonhos são representações de um sujeito castrado, o cinema pode, nessa posição de luz projetora da nossa realidade, dar conta da Angústia. Se o nada é o lugar filosófico que a Angústia se situa, no cinema esse lugar será também o nada, representado pelo silêncio e o vazio. Já que não há imagem e nem símbolo que deem conta da representação, o tempo cria essa possibilidade através dos “espaços vazios”. Gilles Deleuze vai falar sobre esse vazio que surge a partir das imagens óticas-sonoras puras, tendo como recurso a banalidade cotidiana, o tempo alargado, a quietude e a ausência. A partir de três filmes, exemplifico o vazio cinematográfico que performa a Angústia, são eles: Jeanne Dielman, de Chantal Akerman; Solaris, de Andrei Tarkovski e O eclipse, de Michelangelo Antonioni. Chegando à conclusão que ao viabilizar o cinema, nós possamos entrar em contato com a nossa Angústia, possamos perceber que ela é inerente e significante da vida é o que nos torna sujeitos, reincidindo assim da sua da negação, pois é a recusa à Angústia que nos leva cada vez mais a ter uma vida alienada, sem agenciamento, subserviente a estrutura neoliberalista. Ao reconhecer nossa Angústia podemos dar o devido valor à vida tornando-nos seres autónomos e livres para idealizar uma realidade potente.
Autores principais:Pacheco, Graziela Dias
Assunto:Cinema Psicanálise Angústia Lacan Vazio Real Anti-capitalista Trauma Deleuze Mágica Irrepresentável História da arte Solaris Chantal Antonioni Psychoanalysis Anguish Void Anti-capitalist Magic Unrepresentable Art history
Ano:2024
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:Há muitos conceitos em torno da Angústia, uma busca por um significado desse sentimento que não tem nada de trivial, parece ser dotada de uma certa nobreza em seu sentido, não é um sentimento como a tristeza, o medo, a dor, que são sentimentos mais óbvios, sempre ligados diretamente a um objeto. Tristeza por algo, medo de alguma coisa e dor por algum motivo. Ainda que a Angústia possa abarcar em si a tristeza, a dor e o medo, não são eles que a definem. A Angústia é uma condição constitutiva da existência, surge com o próprio nascer humano. Incontornável, ela é referenciada nesta dissertação por alguns filósofos como Jean- Paul Sartre, Soren Kierkegaard e Martin Heidegger, escolhendo como melhor definição a ideia de nada. “Aquilo com que a angústia se angustia é o “nada” que não se revela “em parte alguma” (Heidegger 2005, 250). O sentido da palavra “nada” para denominar Angústia não se refere a coisa nenhuma. De tão complexo, o nada vem com a contingência de uma totalidade inominável. Quando falamos que tudo está presente, é uma medida que traz nomeação a partir da presença das coisas, quando falamos sobre o nada aparece a impossibilidade de nomeação, o que não quer dizer sobre o desguarnecido ou coisa oca. Esse nada traz a ideia de que é a falta em si de uma coisa, ou seja, a ausência de uma presença. Uma lacuna e não uma inexistência, assim como a falta aparente de um livro em uma estante. Essa denominação é escolhida por conta da afinidade com o conceito de Angústia para Jacques Lacan, que é o encontro com o Real. O Real em Lacan é o que não podemos ter dúvida, é o que volta sempre ao mesmo lugar, ainda que não tenha simbolização, não tenha imagem, por se colocar no nível do traumático. Assim sendo, ao entrarmos em contato com o Real, que não é falta e sim privação, nós entramos em condição de Angústia. Apesar da Angústia ser sempre pela presença da ausência de um objeto, é da própria Angústia o caráter de não preenchimento desse objeto em falta, por ser o Real traumático e irrepresentável: não pode ser ocupado, é desconhecido pelo sujeito, pertence a esfera do inconsciente. O ser humano sempre buscou a arte para mediar sua relação com o mundo, desde a préhistória até a contemporaneidade, pois é através dela que damos conta dessa necessidade de procurarmos formas simbólicas e imaginárias para reconhecermos nossa interação com os acontecimentos da vida. Imprimir o que vemos e sentimos para revê-las e ressenti-las (aqui aparecendo em função positiva) para reconhecer a realidade, pensá-la e entendê-la. Entretanto, para Lacan, o que está no nível do traumático não tem símbolo e nem imagem. Por isso a falta de representação, torna o traumático irreconhecível ainda que existente, impossibilitando uma interação para produzir uma elucidação sobre o trauma, mantendo o Real ao nível do inconsciente. É o cinema, que tem essa aparência de sonho, que vai dialogar com o inconsciente tornando possível uma performance para a Angústia. Assim como os sonhos são representações de um sujeito castrado, o cinema pode, nessa posição de luz projetora da nossa realidade, dar conta da Angústia. Se o nada é o lugar filosófico que a Angústia se situa, no cinema esse lugar será também o nada, representado pelo silêncio e o vazio. Já que não há imagem e nem símbolo que deem conta da representação, o tempo cria essa possibilidade através dos “espaços vazios”. Gilles Deleuze vai falar sobre esse vazio que surge a partir das imagens óticas-sonoras puras, tendo como recurso a banalidade cotidiana, o tempo alargado, a quietude e a ausência. A partir de três filmes, exemplifico o vazio cinematográfico que performa a Angústia, são eles: Jeanne Dielman, de Chantal Akerman; Solaris, de Andrei Tarkovski e O eclipse, de Michelangelo Antonioni. Chegando à conclusão que ao viabilizar o cinema, nós possamos entrar em contato com a nossa Angústia, possamos perceber que ela é inerente e significante da vida é o que nos torna sujeitos, reincidindo assim da sua da negação, pois é a recusa à Angústia que nos leva cada vez mais a ter uma vida alienada, sem agenciamento, subserviente a estrutura neoliberalista. Ao reconhecer nossa Angústia podemos dar o devido valor à vida tornando-nos seres autónomos e livres para idealizar uma realidade potente.