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Casa para Viver: a coletivização do protesto contra o governo e pelo direito à habitação em Portugal

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Resumo:A dissertação propõe-se analisar de forma crítica a comunicação estratégica do movimento social Casa para Viver, que se afirmou no espaço público português em resposta à intensificação da crise habitacional. O estudo parte de uma abordagem qualitativa, ancorada na Análise Crítica do Discurso e na Argumentação Multimodal, para compreender como o movimento constrói um discurso capaz de coletivizar experiências individuais de vulnerabilidade, mobilizar e criar contra-narrativas. A investigação organiza-se em torno de três eixos complementares: o manifesto fundacional, enquanto matriz ideológica e política; a comunicação digital, com destaque para o Instagram, enquanto espaço de performance visual, afetiva e retórica; e o posicionamento do movimento no campo político. O corpus é analisado com recurso a categorias retóricas, estratégias de enquadramento e dispositivos multimodais. Os resultados revelam um discurso densamente estruturado, onde se cruzam ethos coletivo, pathos mobilizador e logos propositivo. A linguagem do movimento, para além de denunciar desigualdades estruturais, propõe alternativas discursivas e simbólicas que ressignificam a habitação como direito, a cidade como bem comum e a comunicação como ferramenta de emancipação. O uso reiterado de fórmulas inclusivas articula uma identidade interseccional de base cidadã, enquanto os elementos visuais e textuais convergem para a construção de um “nós” político ativo, ético e performativo. Apesar de formalmente apartidário, o movimento revela afinidades ideológicas com discursos tipicamente da esquerda partidária e práticas próprias dos novos movimentos sociais. O Casa para Viver mobiliza uma estratégia comunicacional coerente e eficaz, cuja força reside na capacidade de transformar linguagem em ação política. A análise empírica demonstra que o movimento ativa mecanismos discursivos de denúncia, responsabilização e de inter-issue manoeuvring, recorrendo a estratégias como subdiscussões, discussões simultâneas ou recontextualizações. Estes elementos confirmam a sofisticação do discurso do Casa para Viver e a sua capacidade de produzir inteligibilidade política sobre fenómenos complexos. O estudo evidencia ainda que o movimento atua como um sujeito comunicante coletivo, com identidade autónoma, legitimidade social e presença crescente no debate público. Esta dissertação propõe, assim, um contributo teórico e metodológico para o estudo da comunicação em contextos de mobilização social, e afirma a centralidade da linguagem enquanto espaço de disputa simbólica e construção coletiva de futuro.
Autores principais:Alexandre, Leila Isabel Inácio
Assunto:Comunicação estratégica Strategic communication Análise Crítica do Discurso Critical Discourse Analysis Argumentação Multimodal Multimodal argumentation Social movements Movimentos sociais Protest collectivisation Multimodalidade Multimodality Coletivização do protesto
Ano:2025
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:A dissertação propõe-se analisar de forma crítica a comunicação estratégica do movimento social Casa para Viver, que se afirmou no espaço público português em resposta à intensificação da crise habitacional. O estudo parte de uma abordagem qualitativa, ancorada na Análise Crítica do Discurso e na Argumentação Multimodal, para compreender como o movimento constrói um discurso capaz de coletivizar experiências individuais de vulnerabilidade, mobilizar e criar contra-narrativas. A investigação organiza-se em torno de três eixos complementares: o manifesto fundacional, enquanto matriz ideológica e política; a comunicação digital, com destaque para o Instagram, enquanto espaço de performance visual, afetiva e retórica; e o posicionamento do movimento no campo político. O corpus é analisado com recurso a categorias retóricas, estratégias de enquadramento e dispositivos multimodais. Os resultados revelam um discurso densamente estruturado, onde se cruzam ethos coletivo, pathos mobilizador e logos propositivo. A linguagem do movimento, para além de denunciar desigualdades estruturais, propõe alternativas discursivas e simbólicas que ressignificam a habitação como direito, a cidade como bem comum e a comunicação como ferramenta de emancipação. O uso reiterado de fórmulas inclusivas articula uma identidade interseccional de base cidadã, enquanto os elementos visuais e textuais convergem para a construção de um “nós” político ativo, ético e performativo. Apesar de formalmente apartidário, o movimento revela afinidades ideológicas com discursos tipicamente da esquerda partidária e práticas próprias dos novos movimentos sociais. O Casa para Viver mobiliza uma estratégia comunicacional coerente e eficaz, cuja força reside na capacidade de transformar linguagem em ação política. A análise empírica demonstra que o movimento ativa mecanismos discursivos de denúncia, responsabilização e de inter-issue manoeuvring, recorrendo a estratégias como subdiscussões, discussões simultâneas ou recontextualizações. Estes elementos confirmam a sofisticação do discurso do Casa para Viver e a sua capacidade de produzir inteligibilidade política sobre fenómenos complexos. O estudo evidencia ainda que o movimento atua como um sujeito comunicante coletivo, com identidade autónoma, legitimidade social e presença crescente no debate público. Esta dissertação propõe, assim, um contributo teórico e metodológico para o estudo da comunicação em contextos de mobilização social, e afirma a centralidade da linguagem enquanto espaço de disputa simbólica e construção coletiva de futuro.