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Muros fronteiriços contemporâneos. Hungria, o bastião da Europa

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Resumo:Nunca antes na história se tinha verificado, como hoje, a construção de tantos muros fronteiriços, por um número tão elevado de estados. Apesar do triunfo do liberalismo no mundo do pós-Guerra Fria, hoje, cerca de um terço ergueu barreiras físicas contra estados vizinhos, a pretexto da proteção do seu território, da transgressão por parte de atores transnacionais indesejados como imigrantes ilegais, traficantes e terroristas. Na Europa, o derrubamento do Muro de Berlim em 1989, contrastou com a edificação de 16 novos muros fronteiriços no continente, desde aquela data, até ao presente. As fronteiras europeias foram fortificadas no contexto de uma Crise Migratória, de refugiados vindos de África e do Médio Oriente, que começavam a afluir à Europa, pelo Sul, mais expressivamente a partir de 2011. Em 2015, três acontecimentos-chave viriam a transformar o debate político europeu: o pico da chegada de refugiados ao continente (mais de um milhão nesse ano), os ataques terroristas de Paris em janeiro e novembro e a construção de um muro fronteiriço na Hungria contra os seus vizinhos Sérvia e Croácia. Após a sua eleição em 2010, o governo húngaro veio desenvolvendo um discurso nacionalista, cujo tema das fronteiras foi protagonista. Viktor Orbán, o corajoso jovem que em 1989 se tinha insurgido contra o comunismo a favor da democracia, transformava-se no rosto da nova Hungria iliberal, nacionalista e xenófoba. O primeiro-ministro húngaro, veio estabelecendo uma estratégia de enfraquecimento dos seus rivais domésticos, com o objetivo de reforçar o seu poder, traduzido no alargamento da sua base de apoio e na capacidade de agir externamente, sem constrangimentos internos significativos. Essa estratégia visou a criação de uma narrativa que promovia ideologias nacionalistas e instigava ao medo dos refugiados, junto da população. Parte fulcral dessa estratégia, foi a criação de um discurso em torno do papel histórico da Hungria, enquanto Bastião da Europa, que lhe conferia a responsabilidade de defender o continente dos povos invasores, islâmicos ou ortodoxos, do Sul. A construção de muros fronteiriços com a Sérvia e a Croácia esteve entre as políticas mais simbólicas e efetivas tomadas pelo governo húngaro, para concretizar a sua estratégia de reforço das fronteiriças Sul. Através da análise do processo de construção da narrativa dominante, decorrente do diálogo entre os vários atores domésticos, pretendemos mostrar, não só, como é que a construção de muros sociais, em torno da demonização dos refugiados, originou a construção de muros físicos, mas também, como é que os muros fronteiriços, enquanto culminar da agenda nacionalista de Orbán, poderão ter sido um recurso de política externa como forma de reforço do seu poder interno.
Autores principais:Sousa, José Maria Passanha De Muller e
Assunto:Hungria União Europeia Fronteiras Muros Fronteiriços Muros Fronteiriços Contemporâneos Muros Europeus Migrações Refugiados Terrorismo Política Externa Realismo Neoclássico Border Walls Contemporary Border Walls European Walls Hungary Migrations Refugees Terrorism Foreign Policy Neoclassical Realism
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:Nunca antes na história se tinha verificado, como hoje, a construção de tantos muros fronteiriços, por um número tão elevado de estados. Apesar do triunfo do liberalismo no mundo do pós-Guerra Fria, hoje, cerca de um terço ergueu barreiras físicas contra estados vizinhos, a pretexto da proteção do seu território, da transgressão por parte de atores transnacionais indesejados como imigrantes ilegais, traficantes e terroristas. Na Europa, o derrubamento do Muro de Berlim em 1989, contrastou com a edificação de 16 novos muros fronteiriços no continente, desde aquela data, até ao presente. As fronteiras europeias foram fortificadas no contexto de uma Crise Migratória, de refugiados vindos de África e do Médio Oriente, que começavam a afluir à Europa, pelo Sul, mais expressivamente a partir de 2011. Em 2015, três acontecimentos-chave viriam a transformar o debate político europeu: o pico da chegada de refugiados ao continente (mais de um milhão nesse ano), os ataques terroristas de Paris em janeiro e novembro e a construção de um muro fronteiriço na Hungria contra os seus vizinhos Sérvia e Croácia. Após a sua eleição em 2010, o governo húngaro veio desenvolvendo um discurso nacionalista, cujo tema das fronteiras foi protagonista. Viktor Orbán, o corajoso jovem que em 1989 se tinha insurgido contra o comunismo a favor da democracia, transformava-se no rosto da nova Hungria iliberal, nacionalista e xenófoba. O primeiro-ministro húngaro, veio estabelecendo uma estratégia de enfraquecimento dos seus rivais domésticos, com o objetivo de reforçar o seu poder, traduzido no alargamento da sua base de apoio e na capacidade de agir externamente, sem constrangimentos internos significativos. Essa estratégia visou a criação de uma narrativa que promovia ideologias nacionalistas e instigava ao medo dos refugiados, junto da população. Parte fulcral dessa estratégia, foi a criação de um discurso em torno do papel histórico da Hungria, enquanto Bastião da Europa, que lhe conferia a responsabilidade de defender o continente dos povos invasores, islâmicos ou ortodoxos, do Sul. A construção de muros fronteiriços com a Sérvia e a Croácia esteve entre as políticas mais simbólicas e efetivas tomadas pelo governo húngaro, para concretizar a sua estratégia de reforço das fronteiriças Sul. Através da análise do processo de construção da narrativa dominante, decorrente do diálogo entre os vários atores domésticos, pretendemos mostrar, não só, como é que a construção de muros sociais, em torno da demonização dos refugiados, originou a construção de muros físicos, mas também, como é que os muros fronteiriços, enquanto culminar da agenda nacionalista de Orbán, poderão ter sido um recurso de política externa como forma de reforço do seu poder interno.