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Outra Margem: A escrita como cuidado, caminho e cura no seio da família

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Summary:Este trabalho de projecto partiu do desenvolvimento de uma ópera de câmara, intitulada Outra Margem, nascida no seio da European Network of Opera Academies. Enquanto libretista, assumi o papel de criar uma narrativa inspirada no Mito de Orfeu, mas, para além dessa premissa, acabei por escrever um libreto inspirado também na história da minha família, assombrada pela esquizofrenia. Este trabalho divide-se em duas grandes partes: a escrita do libreto da ópera, por um lado, e a reflexão acerca dessa mesma escrita e as suas motivações, por outro. Esta reflexão torna-se indissociável do papel que as narrativas desempenham na vida humana, uma vez que estas actuam na forma como o sujeito percepciona a realidade, estrutura o pensamento e, em suma, se constitui. Atendamos que a própria vida se desenrola segundo uma estrutura narrativa. A família, por sua vez, é uma peça fundamental nesse contexto, pois permite ao indivíduo um enquadramento no seu tempo e nas circunstâncias em que está inserido. Escrever sobre a família torna-se, assim, um processo de autoconhecimento, que é desmontado ao longo deste trabalho. A escrita com base na experiência familiar e na memória partilhada torna-se ainda uma técnica de cuidado de si, e porventura de cura, neste tempo moderno, por via da meditação, do retorno a si mesmo e da catarse que a narrativa proporciona ao autor e a quem o lê ou observa. Ao longo de todo este percurso, a alteridade é a corrente que tudo envolve e permite avançar, comportando dimensões que se ligam com a vida fora do palco e dentro dele, com as pessoas reais e as personagens fictícias, com a minha voz enquanto sobrinha e enquanto autora, com o olhar do indivíduo externo à doença psiquiátrica e totalmente mergulhado nela. Todas estas camadas da relação do eu com o outro ficam expressas nas várias componentes criativas do espectáculo (libreto, música e encenação), revelando que, em suma, história e vida se fundem, co-habitando no mesmo habitat, tornando-se água comum do mesmo rio.
Main Authors:Fernandes, Rita Isabel dos Reis Garcia
Subject:Escrita Família Alteridade Cuidado Escrita Esquizofrenia Família Ópera Otherness Care Writing Schizophrenia Family Opera
Year:2021
Country:Portugal
Document type:master thesis
Access type:open access
Associated institution:Universidade Nova de Lisboa
Language:Portuguese
Origin:Repositório Institucional da UNL
Description
Summary:Este trabalho de projecto partiu do desenvolvimento de uma ópera de câmara, intitulada Outra Margem, nascida no seio da European Network of Opera Academies. Enquanto libretista, assumi o papel de criar uma narrativa inspirada no Mito de Orfeu, mas, para além dessa premissa, acabei por escrever um libreto inspirado também na história da minha família, assombrada pela esquizofrenia. Este trabalho divide-se em duas grandes partes: a escrita do libreto da ópera, por um lado, e a reflexão acerca dessa mesma escrita e as suas motivações, por outro. Esta reflexão torna-se indissociável do papel que as narrativas desempenham na vida humana, uma vez que estas actuam na forma como o sujeito percepciona a realidade, estrutura o pensamento e, em suma, se constitui. Atendamos que a própria vida se desenrola segundo uma estrutura narrativa. A família, por sua vez, é uma peça fundamental nesse contexto, pois permite ao indivíduo um enquadramento no seu tempo e nas circunstâncias em que está inserido. Escrever sobre a família torna-se, assim, um processo de autoconhecimento, que é desmontado ao longo deste trabalho. A escrita com base na experiência familiar e na memória partilhada torna-se ainda uma técnica de cuidado de si, e porventura de cura, neste tempo moderno, por via da meditação, do retorno a si mesmo e da catarse que a narrativa proporciona ao autor e a quem o lê ou observa. Ao longo de todo este percurso, a alteridade é a corrente que tudo envolve e permite avançar, comportando dimensões que se ligam com a vida fora do palco e dentro dele, com as pessoas reais e as personagens fictícias, com a minha voz enquanto sobrinha e enquanto autora, com o olhar do indivíduo externo à doença psiquiátrica e totalmente mergulhado nela. Todas estas camadas da relação do eu com o outro ficam expressas nas várias componentes criativas do espectáculo (libreto, música e encenação), revelando que, em suma, história e vida se fundem, co-habitando no mesmo habitat, tornando-se água comum do mesmo rio.