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Imagem (de) Arquivo e Tempo Mnemotécnico: para um projecto de "Arquiviologia" na História da Arte

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Summary:Este trabalho constrói uma proposta para pensar o arquivo na sua relação com a fotografia e o cinema. No seu confronto com estes meios, o arquivo descerra uma ontologia e uma pragmática, adquirindo o valor de um evento: o arquivo intima o passado, um real que se encontra já separado e distante, mas inclui igualmente a possibilidade de retorno do referente como impressão-afecção, arruinando o modelo da representação mimética e a cronologia do antes e do depois. Oferece-se assim uma saída para o impasse das teorias positivistas e pós-modernas, incapazes ambas de dar conta da complexidade histórica e temporal da imagem (de) arquivo, i.e. a sua propensão para captar o desejo e firmar os jogos de sobreposição entre aquilo que é registado, lembrado e ficcionado. Inspirado pelos influentes textos de Jacques Derrida sobre o arquivo, assim como pelo redimensionamento da noção de arquivo no campo da arte, este trabalho sustenta que o arquivo é um material activo sujeito a transformações, releituras e sobrevivências: o material de arquivo constitui um ponto de partida criativo e não um documento associado ao fechamento das taxonomias racionais e descritivas, possibilitando ao sujeito entrar numa relação subjectiva com o passado e a história. Mas para perceber esta transformação é necessário pensar um movimento que designa um para lá do arquivo, uma zona de exterioridade por relação com o arquivo. Argumenta-se que tal movimento concerne à passagem do arquivo ao atlas. É o atlas que fornece ao passado a configuração heterogénea, díspar e vertical associada ao modelo de tempo e de pensamento mnemotécnico, noção que interessa examinar na sua componente técnica, mas, sobretudo, imaginativa e inventiva. É também o atlas que permite colocar em prática a exigência derrideana de um projecto de arquiviologia - tantas vezes comentado, mas raramente concretizado - susceptível de mapear as possibilidades e os limites do arquivo na sua contaminação com as áreas do conhecimento que, sendo por vezes estranhas à Historia da Arte, colocam em comum problemas do tempo e da imagem: Freud e a cena da escritura em Derrida; Foucault e as taxonomias borgesianas; Walter Benjamin e a telescopagem histórica; Georges Didi-Huberman e a imagem-sobrevivente, rumo a uma sistematização do conhecimento por montagem em Aby Warburg. Aby Warburg acaba por adquirir uma relevância particular por via desse projecto incontornável da história da arte que é o atlas Mnemosyne, permitindo interrogar as possibilidades de intersecção do atlas (pensado enquanto nova arquitectura para o arquivo) e o cinema. No cinema de ficção documental de realizadores como J.-L.Godard, Chris Marker e Hans-Jürgen Syberberg, o atlas permite escrever a história de uma outra forma, numa exigência que decorre da necessidade em dar conta do impensável do acontecimento traumático do passado - nesse instante de bloqueio, algo se subtrai à capacidade em recordar… e se inarquiva.
Main Authors:Duarte, Miguel Nuno Mesquita
Subject:Arquivo Atlas Tempo Historiografia Fotografia Cinema Archive Photography Time Historiography
Year:2016
Country:Portugal
Document type:doctoral thesis
Access type:open access
Associated institution:Universidade Nova de Lisboa
Language:Portuguese
Origin:Repositório Institucional da UNL
Description
Summary:Este trabalho constrói uma proposta para pensar o arquivo na sua relação com a fotografia e o cinema. No seu confronto com estes meios, o arquivo descerra uma ontologia e uma pragmática, adquirindo o valor de um evento: o arquivo intima o passado, um real que se encontra já separado e distante, mas inclui igualmente a possibilidade de retorno do referente como impressão-afecção, arruinando o modelo da representação mimética e a cronologia do antes e do depois. Oferece-se assim uma saída para o impasse das teorias positivistas e pós-modernas, incapazes ambas de dar conta da complexidade histórica e temporal da imagem (de) arquivo, i.e. a sua propensão para captar o desejo e firmar os jogos de sobreposição entre aquilo que é registado, lembrado e ficcionado. Inspirado pelos influentes textos de Jacques Derrida sobre o arquivo, assim como pelo redimensionamento da noção de arquivo no campo da arte, este trabalho sustenta que o arquivo é um material activo sujeito a transformações, releituras e sobrevivências: o material de arquivo constitui um ponto de partida criativo e não um documento associado ao fechamento das taxonomias racionais e descritivas, possibilitando ao sujeito entrar numa relação subjectiva com o passado e a história. Mas para perceber esta transformação é necessário pensar um movimento que designa um para lá do arquivo, uma zona de exterioridade por relação com o arquivo. Argumenta-se que tal movimento concerne à passagem do arquivo ao atlas. É o atlas que fornece ao passado a configuração heterogénea, díspar e vertical associada ao modelo de tempo e de pensamento mnemotécnico, noção que interessa examinar na sua componente técnica, mas, sobretudo, imaginativa e inventiva. É também o atlas que permite colocar em prática a exigência derrideana de um projecto de arquiviologia - tantas vezes comentado, mas raramente concretizado - susceptível de mapear as possibilidades e os limites do arquivo na sua contaminação com as áreas do conhecimento que, sendo por vezes estranhas à Historia da Arte, colocam em comum problemas do tempo e da imagem: Freud e a cena da escritura em Derrida; Foucault e as taxonomias borgesianas; Walter Benjamin e a telescopagem histórica; Georges Didi-Huberman e a imagem-sobrevivente, rumo a uma sistematização do conhecimento por montagem em Aby Warburg. Aby Warburg acaba por adquirir uma relevância particular por via desse projecto incontornável da história da arte que é o atlas Mnemosyne, permitindo interrogar as possibilidades de intersecção do atlas (pensado enquanto nova arquitectura para o arquivo) e o cinema. No cinema de ficção documental de realizadores como J.-L.Godard, Chris Marker e Hans-Jürgen Syberberg, o atlas permite escrever a história de uma outra forma, numa exigência que decorre da necessidade em dar conta do impensável do acontecimento traumático do passado - nesse instante de bloqueio, algo se subtrai à capacidade em recordar… e se inarquiva.