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Entre Predadores’: relações com a natureza a propósito da reintrodução do lince-ibérico

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Resumo:O presente estudo debruçou-se sobre as percepções sociais, representações e apropriações dos grandes predadores selvagens em Portugal aprofundando o caso da reintrodução do lince-ibérico. Uma recolha e análise de representações mostraram uma visibilidade particular do lobo-ibérico, nomeadamente na literatura portuguesa, por contraste com uma presença cultural discreta do lince ao longo da História desde a mitologia grega à medicina medieval. Estas espécies, historicamente consideradas como “nocivas”, revelaram ter tido também um carácter ambivalente e simbólico junto dos humanos. Configuram-se, nos contextos contemporâneos, como emblemas de conservação da natureza, sendo alvo de inúmeras apropriações de que o lince-ibérico é um particular exemplo como processo de objectivação da natureza mas também como elemento de nova construção identitária na comunidade rural. A partir de uma pesquisa etnográfica, desde 2012, em duas áreas do Alentejo que incluiu 94 entrevistas semi-estruturadas a actores chave residentes, foram obtidos dados sobre a memória, o conhecimento ecológico local e práticas associadas aos predadores. Analisaram-se percepções e valores face ao lince, às espécies selvagens e à natureza. Categorizações empíricas realizadas pelos informantes revelaram o modelo ocidental dualista de identificação da natureza, configurando humanos e não-humanos em diferentes domínios, mas onde se podem identificar elementos de outras ontologias e novas tendências na relação humanos-predadores. Associações de pureza, beleza, natural, domínio, controlo foram exploradas em torno do conceito de selvagem. A expressão “Entre predadores”, referindo-se também aos humanos como sendo predadores, sumariza uma perspectiva émica sobre o mundo natural, uma organização cosmológica e uma visão dos animais não-humanos como espelhos que permitem criar identidade pessoal e cultural. Face ao processo previsto de reintrodução de lince-ibérico no sul de Portugal, analisaram-se posicionamentos e opiniões que tornaram perceptível a contestação de actores locais e conferiram também visibilidade a expectativas sobre a coexistência com esta espécie selvagem. Os discursos, enquadrados nos debates contemporâneos da Antropologia, confirmam influências neoliberalistas globais em questões locais de conservação da natureza. Por outro lado, os actores locais exibem múltiplas orientações face à natureza e vida selvagem e consideram os factores não-económicos no regresso de uma espécie ameaçada de extinção. Espécies emblemáticas selvagens reúnem um consenso moral para a sua protecção. Críticas locais sobre as áreas protegidas e projectos revelam um modelo imposto de conservação da natureza em que é necessário um diálogo mais próximo entre actores e administração. Caracterizou-se um cenário etnoecológico de coexistência entre humanos e predadores e em que são expectáveis a apropriação da espécie pelos actores locais bem como a sua participação em matérias de conservação da natureza. Este caso de estudo reforça e exemplifica o papel da Antropologia aplicada, tendo aplicado uma abordagem etnográfica para conseguir um conhecimento aprofundado e descrição densa de uma trama da conservação da natureza, e integrado num projecto interdisciplinar.
Autores principais:Fernandes, Margarida Lopes
Assunto:Relações humanos/não-humano Percepções sociais Predador selvagem Conhecimento local Conservação da natureza Relations human/non-human Social perceptions Wild predator Local knowledge Nature conservation
Ano:2018
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:O presente estudo debruçou-se sobre as percepções sociais, representações e apropriações dos grandes predadores selvagens em Portugal aprofundando o caso da reintrodução do lince-ibérico. Uma recolha e análise de representações mostraram uma visibilidade particular do lobo-ibérico, nomeadamente na literatura portuguesa, por contraste com uma presença cultural discreta do lince ao longo da História desde a mitologia grega à medicina medieval. Estas espécies, historicamente consideradas como “nocivas”, revelaram ter tido também um carácter ambivalente e simbólico junto dos humanos. Configuram-se, nos contextos contemporâneos, como emblemas de conservação da natureza, sendo alvo de inúmeras apropriações de que o lince-ibérico é um particular exemplo como processo de objectivação da natureza mas também como elemento de nova construção identitária na comunidade rural. A partir de uma pesquisa etnográfica, desde 2012, em duas áreas do Alentejo que incluiu 94 entrevistas semi-estruturadas a actores chave residentes, foram obtidos dados sobre a memória, o conhecimento ecológico local e práticas associadas aos predadores. Analisaram-se percepções e valores face ao lince, às espécies selvagens e à natureza. Categorizações empíricas realizadas pelos informantes revelaram o modelo ocidental dualista de identificação da natureza, configurando humanos e não-humanos em diferentes domínios, mas onde se podem identificar elementos de outras ontologias e novas tendências na relação humanos-predadores. Associações de pureza, beleza, natural, domínio, controlo foram exploradas em torno do conceito de selvagem. A expressão “Entre predadores”, referindo-se também aos humanos como sendo predadores, sumariza uma perspectiva émica sobre o mundo natural, uma organização cosmológica e uma visão dos animais não-humanos como espelhos que permitem criar identidade pessoal e cultural. Face ao processo previsto de reintrodução de lince-ibérico no sul de Portugal, analisaram-se posicionamentos e opiniões que tornaram perceptível a contestação de actores locais e conferiram também visibilidade a expectativas sobre a coexistência com esta espécie selvagem. Os discursos, enquadrados nos debates contemporâneos da Antropologia, confirmam influências neoliberalistas globais em questões locais de conservação da natureza. Por outro lado, os actores locais exibem múltiplas orientações face à natureza e vida selvagem e consideram os factores não-económicos no regresso de uma espécie ameaçada de extinção. Espécies emblemáticas selvagens reúnem um consenso moral para a sua protecção. Críticas locais sobre as áreas protegidas e projectos revelam um modelo imposto de conservação da natureza em que é necessário um diálogo mais próximo entre actores e administração. Caracterizou-se um cenário etnoecológico de coexistência entre humanos e predadores e em que são expectáveis a apropriação da espécie pelos actores locais bem como a sua participação em matérias de conservação da natureza. Este caso de estudo reforça e exemplifica o papel da Antropologia aplicada, tendo aplicado uma abordagem etnográfica para conseguir um conhecimento aprofundado e descrição densa de uma trama da conservação da natureza, e integrado num projecto interdisciplinar.