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La Mettrie: o projeto da recondução da alma à matéria

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Resumo:Julien Offray de La Mettrie foi um iluminista francês, médico e filósofo do século XVIII. A obra em que apresenta o seu pensamento filosófico estruturado é a Histoire naturelle de l’âme, mas é em l’Homme machine que procura explicar toda a operatividade humana através da matéria. A filosofia de La Mettrie enquadra-se no materialismo e pretende fornecer uma explicação unificada do ser humano em continuidade com aquilo que podemos conhecer da natureza corpórea. La Mettrie pretende reconduzir a alma à matéria provando que o princípio que coloca em movimento um corpo humano é o mesmo que explica as sensações e a complexidade do pensamento intelectual; dessa forma, e por consequência, ficará provado que a alma não é nem a matéria nem os corpos, mas apenas um ente de razão. Para La Mettrie, o estudo da alma humana só pode ser realizado através dos seus efeitos, ou seja, através das propriedades manifestadas nos corpos, e os guias para esse estudo são apenas os sentidos, pois só por eles temos acesso às manifestações da alma nos corpos. O autor afirma que a matéria deverá ser considerada quer como um princípio ativo, possuindo dentro de si mesma a força de se mover e de ser a causa imediata de todas as leis do movimento; quer como um princípio passivo, por possuir em si em potência todas as formas que poderá vir a adquirir. Para o autor, não existe distinção entre a alma racional e a sensível; nem entre a alma e a matéria ou ainda entre a alma e o corpo que ela habita: todas essas realidades são a mesma coisa. A observação da natureza conduz a afirmar que existe uma gradação suave na complexificação da matéria, que a essa complexificação corresponde um aumento de necessidades e que a menos instinto corresponde mais inteligência. O homem é semelhante ao animal: assim o atesta a anatomia comparada dos nossos órgãos. O que nos distingue são essencialmente duas coisas: o maior número de necessidades a satisfazer, resultante de uma maior organização da matéria, e a nossa menor dotação instintiva. A natureza colmata esta dificuldade dotando o homem de pensamento. Assim, constituindo a organização da matéria uma primeira vantagem do homem, a segunda é a instrução. Há, assim, uma proporcionalidade direta entre necessidades e pensamento ao mesmo tempo que existe uma proporcionalidade inversa entre instinto e pensamento. O que complexifica a matéria é a organização e a funcionalidade dos órgãos. As necessidades do organismo são, portanto, efeito dessa complexificação, dessa auto-organização da matéria. Quanto mais necessidades tem o organismo mais meios requer para as satisfazer, sendo o meio por excelência o instinto. Ao ser humano, paradoxalmente com muitas necessidades e pouco instinto, a natureza dotou-o de pensamento que substitui o instinto. Esta é, no entender de La Mettrie, a sua maior descoberta, a saber: aquilo que produz o pensamento é o aumento das necessidades de um organismo e uma simultânea diminuição do instinto.
Autores principais:Costa, Flora Adelaide Abreu Teixeira e
Assunto:Alma Homem Homem-máquina La Mettrie Matéria Man Machine man Matter Soul
Ano:2022
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:Julien Offray de La Mettrie foi um iluminista francês, médico e filósofo do século XVIII. A obra em que apresenta o seu pensamento filosófico estruturado é a Histoire naturelle de l’âme, mas é em l’Homme machine que procura explicar toda a operatividade humana através da matéria. A filosofia de La Mettrie enquadra-se no materialismo e pretende fornecer uma explicação unificada do ser humano em continuidade com aquilo que podemos conhecer da natureza corpórea. La Mettrie pretende reconduzir a alma à matéria provando que o princípio que coloca em movimento um corpo humano é o mesmo que explica as sensações e a complexidade do pensamento intelectual; dessa forma, e por consequência, ficará provado que a alma não é nem a matéria nem os corpos, mas apenas um ente de razão. Para La Mettrie, o estudo da alma humana só pode ser realizado através dos seus efeitos, ou seja, através das propriedades manifestadas nos corpos, e os guias para esse estudo são apenas os sentidos, pois só por eles temos acesso às manifestações da alma nos corpos. O autor afirma que a matéria deverá ser considerada quer como um princípio ativo, possuindo dentro de si mesma a força de se mover e de ser a causa imediata de todas as leis do movimento; quer como um princípio passivo, por possuir em si em potência todas as formas que poderá vir a adquirir. Para o autor, não existe distinção entre a alma racional e a sensível; nem entre a alma e a matéria ou ainda entre a alma e o corpo que ela habita: todas essas realidades são a mesma coisa. A observação da natureza conduz a afirmar que existe uma gradação suave na complexificação da matéria, que a essa complexificação corresponde um aumento de necessidades e que a menos instinto corresponde mais inteligência. O homem é semelhante ao animal: assim o atesta a anatomia comparada dos nossos órgãos. O que nos distingue são essencialmente duas coisas: o maior número de necessidades a satisfazer, resultante de uma maior organização da matéria, e a nossa menor dotação instintiva. A natureza colmata esta dificuldade dotando o homem de pensamento. Assim, constituindo a organização da matéria uma primeira vantagem do homem, a segunda é a instrução. Há, assim, uma proporcionalidade direta entre necessidades e pensamento ao mesmo tempo que existe uma proporcionalidade inversa entre instinto e pensamento. O que complexifica a matéria é a organização e a funcionalidade dos órgãos. As necessidades do organismo são, portanto, efeito dessa complexificação, dessa auto-organização da matéria. Quanto mais necessidades tem o organismo mais meios requer para as satisfazer, sendo o meio por excelência o instinto. Ao ser humano, paradoxalmente com muitas necessidades e pouco instinto, a natureza dotou-o de pensamento que substitui o instinto. Esta é, no entender de La Mettrie, a sua maior descoberta, a saber: aquilo que produz o pensamento é o aumento das necessidades de um organismo e uma simultânea diminuição do instinto.