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Reservoirs of zoonotic leishmaniosis: the role played by domestic cats

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Resumo:A leishmaniose zoonótica causada por Leishmania infantum é um problema grave de saúde pública e veterinária. Contrariamente aos cães, universalmente considerados como principais hospedeiros reservatórios de L. infantum, os gatos domésticos (Felis catus) foram apontados durante anos como hospedeiros acidentais, cuja relevância para a manutenção e transmissão do parasita seria nula. No entanto, o acumular de evidências contrárias mudou o paradigma ao ponto de estes felídeos serem, atualmente, considerados como possíveis hospedeiros reservatórios de L. infantum. Neste contexto, este projeto doutoral teve como objetivo clarificar o papel dos gatos na epidemiologia da leishmaniose zoonótica através da (i) avaliação da exposição dos gatos aos vetores de L. infantum; (ii) determinação da proporção de gatos infetados em focos endémicos; (iii) caracterização da infeção por Leishmania em gatos através de acompanhamento clínico e parasitológico; (iv) realização de tipagem molecular dos parasitas isolados de gatos; e (v) avaliação do comportamento in vitro e infecciosidade ex vivo de estirpes felinas. Anticorpos contra a saliva de Phlebotomus perniciosus foram identificados em 47,7 % (167/350) dos gatos testados, sendo significativamente mais frequente em animais mais velhos e em amostras obtidas durante a época de transmissão (maio a outubro). A presença de anticorpos contra a saliva de P. perniciosus foi associada à infeção por Leishmania em gatos. O ácido desoxirribonucleico (DNA) de Leishmania e/ou anticorpos contra o parasita foram identificados em 7,4 % dos gatos que vivem em focos endémicos. Não foram identificados quaisquer fatores de risco associados à infeção felina. Diagnosticou-se leishmaniose clínica num gato com infeção retroviral (vírus da leucemia felina) concomitante, apresentando sinais clínicos incomuns. A infeção seguiu um padrão crónico e insidioso, sendo refratária à monoterapia com alopurinol. A remissão dos sinais clínicos apenas foi conseguida após tratamento combinado com antimoniato de meglumina. A análise de sequências parciais de citocromo b, glucose-6-fosfato desidrogenase, proteína de choque térmico 70 e espaços intergénicos do DNA ribossomal, revelou que as estirpes isoladas de gatos são geneticamente idênticas a estirpes de L. infantum isoladas de cães, humanos e vetores. Além disso, o DNA de L. major e de parasitas híbridos L. major/L. donovani sensu lato foi detetado em dois gatos de diferentes regiões de Portugal Continental. As estirpes felinas apresentaram um perfil de crescimento in vitro, reposta adaptativa a condições de stress e suscetibilidade a compostos leishmanicidas e leishmaniostáticos, semelhante à de estirpes de L. infantum isoladas de cães e humanos. Os macrófagos de origem felina foram permissivos à infeção ex vivo com parasitas isolados de gatos, cães e humanos, que por sua vez apresentaram semelhante capacidade de infeção de macrófagos felinos, caninos e humanos. Em adição, um algoritmo de diagnóstico para suporte de decisão clínica e um conjunto de orientações para evitar a infeção por Leishmania em gatos, são propostos. Pela interceção dos dados epidemiológicos, moleculares, clínicos e experimentais obtidos no decorrer do presente projeto doutoral, pode-se concluir que Felis catus cumpre todos os critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde para ser reconhecida como uma espécie hospedeira reservatória de L. infantum.
Autores principais:PEREIRA, André Duarte Belchior
Assunto:Parasitologia Gatos Felis catus Leishmania infantum, leishmaniose zoonótica
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:A leishmaniose zoonótica causada por Leishmania infantum é um problema grave de saúde pública e veterinária. Contrariamente aos cães, universalmente considerados como principais hospedeiros reservatórios de L. infantum, os gatos domésticos (Felis catus) foram apontados durante anos como hospedeiros acidentais, cuja relevância para a manutenção e transmissão do parasita seria nula. No entanto, o acumular de evidências contrárias mudou o paradigma ao ponto de estes felídeos serem, atualmente, considerados como possíveis hospedeiros reservatórios de L. infantum. Neste contexto, este projeto doutoral teve como objetivo clarificar o papel dos gatos na epidemiologia da leishmaniose zoonótica através da (i) avaliação da exposição dos gatos aos vetores de L. infantum; (ii) determinação da proporção de gatos infetados em focos endémicos; (iii) caracterização da infeção por Leishmania em gatos através de acompanhamento clínico e parasitológico; (iv) realização de tipagem molecular dos parasitas isolados de gatos; e (v) avaliação do comportamento in vitro e infecciosidade ex vivo de estirpes felinas. Anticorpos contra a saliva de Phlebotomus perniciosus foram identificados em 47,7 % (167/350) dos gatos testados, sendo significativamente mais frequente em animais mais velhos e em amostras obtidas durante a época de transmissão (maio a outubro). A presença de anticorpos contra a saliva de P. perniciosus foi associada à infeção por Leishmania em gatos. O ácido desoxirribonucleico (DNA) de Leishmania e/ou anticorpos contra o parasita foram identificados em 7,4 % dos gatos que vivem em focos endémicos. Não foram identificados quaisquer fatores de risco associados à infeção felina. Diagnosticou-se leishmaniose clínica num gato com infeção retroviral (vírus da leucemia felina) concomitante, apresentando sinais clínicos incomuns. A infeção seguiu um padrão crónico e insidioso, sendo refratária à monoterapia com alopurinol. A remissão dos sinais clínicos apenas foi conseguida após tratamento combinado com antimoniato de meglumina. A análise de sequências parciais de citocromo b, glucose-6-fosfato desidrogenase, proteína de choque térmico 70 e espaços intergénicos do DNA ribossomal, revelou que as estirpes isoladas de gatos são geneticamente idênticas a estirpes de L. infantum isoladas de cães, humanos e vetores. Além disso, o DNA de L. major e de parasitas híbridos L. major/L. donovani sensu lato foi detetado em dois gatos de diferentes regiões de Portugal Continental. As estirpes felinas apresentaram um perfil de crescimento in vitro, reposta adaptativa a condições de stress e suscetibilidade a compostos leishmanicidas e leishmaniostáticos, semelhante à de estirpes de L. infantum isoladas de cães e humanos. Os macrófagos de origem felina foram permissivos à infeção ex vivo com parasitas isolados de gatos, cães e humanos, que por sua vez apresentaram semelhante capacidade de infeção de macrófagos felinos, caninos e humanos. Em adição, um algoritmo de diagnóstico para suporte de decisão clínica e um conjunto de orientações para evitar a infeção por Leishmania em gatos, são propostos. Pela interceção dos dados epidemiológicos, moleculares, clínicos e experimentais obtidos no decorrer do presente projeto doutoral, pode-se concluir que Felis catus cumpre todos os critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde para ser reconhecida como uma espécie hospedeira reservatória de L. infantum.