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Está aqui um grito

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Resumo:O ensaio propõe, a partir de “Exortação à entrada do poeta em abril” e “Incitação lírica ao crime legítimo” de Maria Velho da Costa, abordar a temática da voz que, de silenciada, reage a um corpo condicionado pela “censura e ditadura” (Censorship and Dictatorship). Estes textos-corpo(s), escritos no limiar, fazem-nos refletir sobre o indivíduo, que se sabe numa frágil e incerta dimensão entre-tempos. O abismo agudiza-se no testemunho de Português, trabalhador, doente mental (da mesma autora) e encontra analogia na distorção da figura humana de Francis Bacon, acentuando a necessidade de regresso ao grito primordial — ponderação sobre a violência íntima, a sublinhar o valor e a redefinir a noção de liberdade enquanto ideia de libertação. Confrontar o texto de Maria Velho da Costa com a imagem de Francis Bacon — análise suportada teoricamente por Didi-Huberman e Barthes — permite conceptualizá-lo como imagem de um corpo, primeiro, em sofrimento, depois, em fruição de um prazer enquanto traço distintivo de uma mudança assinalada por experimentalismos que se plenificam numa sem-forma. O seu poder anímico provocará um efeito de Verfremdung que nos levará a pensar a deformidade como um processo censório feito de fora para dentro, pois distorcer o corpo-língua é uma forma de censurar a ditadura e denunciar a censura. Pela audácia de expor o medo e a culpa, Maria Velho da Costa constrói um corpo que, alheio a uma ideia normativa e desvestido do “colete imposto à sintaxe”, articula-se numa anatomia diferente, que não dite, mas igualmente não guarde. Sendo o texto-corpo-imagem desmembrado, refletiremos sobre a relevância e o ressignificado da ideia de fragmento, como repercutente potencial de uma voz até então silenciada.
Autores principais:Vieira, Susana
Assunto:Maria Velho da Costa Ditadura Francis Bacon SDG 16 - Peace, Justice and Strong Institutions
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:artigo
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade Nova de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório Institucional da UNL
Descrição
Resumo:O ensaio propõe, a partir de “Exortação à entrada do poeta em abril” e “Incitação lírica ao crime legítimo” de Maria Velho da Costa, abordar a temática da voz que, de silenciada, reage a um corpo condicionado pela “censura e ditadura” (Censorship and Dictatorship). Estes textos-corpo(s), escritos no limiar, fazem-nos refletir sobre o indivíduo, que se sabe numa frágil e incerta dimensão entre-tempos. O abismo agudiza-se no testemunho de Português, trabalhador, doente mental (da mesma autora) e encontra analogia na distorção da figura humana de Francis Bacon, acentuando a necessidade de regresso ao grito primordial — ponderação sobre a violência íntima, a sublinhar o valor e a redefinir a noção de liberdade enquanto ideia de libertação. Confrontar o texto de Maria Velho da Costa com a imagem de Francis Bacon — análise suportada teoricamente por Didi-Huberman e Barthes — permite conceptualizá-lo como imagem de um corpo, primeiro, em sofrimento, depois, em fruição de um prazer enquanto traço distintivo de uma mudança assinalada por experimentalismos que se plenificam numa sem-forma. O seu poder anímico provocará um efeito de Verfremdung que nos levará a pensar a deformidade como um processo censório feito de fora para dentro, pois distorcer o corpo-língua é uma forma de censurar a ditadura e denunciar a censura. Pela audácia de expor o medo e a culpa, Maria Velho da Costa constrói um corpo que, alheio a uma ideia normativa e desvestido do “colete imposto à sintaxe”, articula-se numa anatomia diferente, que não dite, mas igualmente não guarde. Sendo o texto-corpo-imagem desmembrado, refletiremos sobre a relevância e o ressignificado da ideia de fragmento, como repercutente potencial de uma voz até então silenciada.