Publicação
DETERMINANTES DA CAPACIDADE DE TRABALHO NO DOENTE COM ESCLEROSE MÚLTIPLA E ESTRATÉGIAS DE ADAPTAÇÃO - UMA REVISÃO DA LITERATURA A PROPÓSITO DE UM CASO CLÍNICO
| Resumo: | RESUMO Introdução A esclerose múltipla é uma doença neurodegenerativa desmielinizante que acomete o sistema nervoso central. Manifesta-se tipicamente entre os 20 e 45 anos, coincidindo frequentemente com o início da idade ativa. O tempo médio entre os primeiros sintomas e a redução da capacidade de trabalho é de cerca de sete anos, estando associada a importante presenteísmo, absentismo e desemprego voluntário ou involuntário. Os sintomas mais comuns incluem dificuldade na marcha, disfunção neuropsicológica, alterações sensitivas, desequilíbrio, disfunção intestinal ou urinária, défice visual, intolerância ao calor e fadiga. O curso da doença é extremamente variável e imprevisível, incluindo-se no espectro desde surto-remissão até progressivo. Descrição do caso clínico Enfermeira de 32 anos a exercer funções no Hospital Dia na Pediatria. Antecedentes de esclerose múltipla surto-remissão desde os 19 anos. Último surto com envolvimento cerebeloso direito e consequente incapacidade para a marcha autónoma, tendo sido internada para realização de ciclo de corticoterapia, evidenciando melhoria do quadro clínico. Pelo surto incapacitante, iniciou terapêutica imunomoduladora com ocrelizumab. Avaliada em exame ocasional após doença, referindo episódios de tonturas e desequilíbrio sequelares. Apresentava força muscular nos membros inferiores G4. Referia dificuldade na mobilização de doentes e na realização de turnos longos por fadiga. Foi atribuída aptidão condicionada, com limitação na mobilização de cargas e doentes dependentes, redução da duração dos turnos de trabalho e isenção de trabalho noturno e reforço da utilização de equipamento de proteção individual contra agentes biológicos. Foi reavaliada em exame ocasional três meses após, tendo referido boa adaptação ao trabalho e melhor gestão da fadiga. Discussão/Conclusão A capacidade de trabalho do doente com esta patologia depende da interação de fatores pessoais, relacionados com a doença e com o trabalho. As principais dificuldades da enfermeira resultaram da disfunção da marcha e fadiga agravada pelo contexto laboral, caracterizado pela necessidade de realização de esforço físico, longas jornadas de trabalho e trabalho noturno. A limitação das cargas mobilizadas, redução da duração dos turnos e a isenção do trabalho noturno são medidas reconhecidas na melhoria da capacidade de trabalho. Fatores protetores, como a idade jovem, o nível de educação elevado e o apoio dos colegas, poderá ter potenciado a eficácia das medidas instituídas pelo médico do trabalho. Pela ausência de evidência científica do potencial carcinogénico do ocrelizumab, não foi necessária a restrição do contacto com agentes citotóxicos. O uso de equipamento de proteção individual foi reforçado devido ao aumento do risco de infeção associado. Fatores de mau prognóstico, como os sinais cerebelares e surtos precoces frequentes devem motivar uma vigilância regular da trabalhadora. O Serviço de Saúde Ocupacional deve identificar e gerir precocemente as características clínicas do trabalhador, para a implementação de medidas de prevenção e proteção individualizadas para fomentar a saúde e participação ativa no trabalho, proporcionando sentimentos de utilidade e autovalorização. |
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| Autores principais: | Teófilo,V |
| Outros Autores: | Matos,P; Moreira,S; Ribeiro,Rui; Pinelas,S; Miller,M; Azevedo,C; Silva,A; Pinho,P; Norton,P |
| Assunto: | Esclerose múltipla aptidão para o trabalho capacidade de trabalho medicina do trabalho enfermagem do trabalho segurança no trabalho |
| Ano: | 2025 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | relatório |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Fundação para a Ciência e Tecnologia |
| Idioma: | português |
| Origem: | SciELO Portugal |
| Resumo: | RESUMO Introdução A esclerose múltipla é uma doença neurodegenerativa desmielinizante que acomete o sistema nervoso central. Manifesta-se tipicamente entre os 20 e 45 anos, coincidindo frequentemente com o início da idade ativa. O tempo médio entre os primeiros sintomas e a redução da capacidade de trabalho é de cerca de sete anos, estando associada a importante presenteísmo, absentismo e desemprego voluntário ou involuntário. Os sintomas mais comuns incluem dificuldade na marcha, disfunção neuropsicológica, alterações sensitivas, desequilíbrio, disfunção intestinal ou urinária, défice visual, intolerância ao calor e fadiga. O curso da doença é extremamente variável e imprevisível, incluindo-se no espectro desde surto-remissão até progressivo. Descrição do caso clínico Enfermeira de 32 anos a exercer funções no Hospital Dia na Pediatria. Antecedentes de esclerose múltipla surto-remissão desde os 19 anos. Último surto com envolvimento cerebeloso direito e consequente incapacidade para a marcha autónoma, tendo sido internada para realização de ciclo de corticoterapia, evidenciando melhoria do quadro clínico. Pelo surto incapacitante, iniciou terapêutica imunomoduladora com ocrelizumab. Avaliada em exame ocasional após doença, referindo episódios de tonturas e desequilíbrio sequelares. Apresentava força muscular nos membros inferiores G4. Referia dificuldade na mobilização de doentes e na realização de turnos longos por fadiga. Foi atribuída aptidão condicionada, com limitação na mobilização de cargas e doentes dependentes, redução da duração dos turnos de trabalho e isenção de trabalho noturno e reforço da utilização de equipamento de proteção individual contra agentes biológicos. Foi reavaliada em exame ocasional três meses após, tendo referido boa adaptação ao trabalho e melhor gestão da fadiga. Discussão/Conclusão A capacidade de trabalho do doente com esta patologia depende da interação de fatores pessoais, relacionados com a doença e com o trabalho. As principais dificuldades da enfermeira resultaram da disfunção da marcha e fadiga agravada pelo contexto laboral, caracterizado pela necessidade de realização de esforço físico, longas jornadas de trabalho e trabalho noturno. A limitação das cargas mobilizadas, redução da duração dos turnos e a isenção do trabalho noturno são medidas reconhecidas na melhoria da capacidade de trabalho. Fatores protetores, como a idade jovem, o nível de educação elevado e o apoio dos colegas, poderá ter potenciado a eficácia das medidas instituídas pelo médico do trabalho. Pela ausência de evidência científica do potencial carcinogénico do ocrelizumab, não foi necessária a restrição do contacto com agentes citotóxicos. O uso de equipamento de proteção individual foi reforçado devido ao aumento do risco de infeção associado. Fatores de mau prognóstico, como os sinais cerebelares e surtos precoces frequentes devem motivar uma vigilância regular da trabalhadora. O Serviço de Saúde Ocupacional deve identificar e gerir precocemente as características clínicas do trabalhador, para a implementação de medidas de prevenção e proteção individualizadas para fomentar a saúde e participação ativa no trabalho, proporcionando sentimentos de utilidade e autovalorização. |
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