Publicação
Minding his-story : Dora Russell’s voice on the side of life against the backdrop of her peace mission in the 1950s
| Resumo: | A dissertação visa duas linhas de investigação: uma centra no pensamento da protagonista, Srª Dora Russell, segunda esposa do pensador Bertrand Russell, a outra num movimento de mulheres pela paz que ela mobilizou em resposta não só à ameaça nuclear nos anos 1950, mas também em reação às manifestações anti-nucleares que, segundo ela, não constituíram uma resposta construtiva. As duas linhas acabam por estar interligadas: a caravana das mulheres pela paz incorpora uma parte essencial da sua filosofia, que por sua vez é exemplificada à medida que o contexto histórico e sócio-cultural pós-guerra se desenrola numa narrativa de descoberta. O que sempre determinou o percurso da história humana, dizia a Srª Russell já nos anos 1920, foi a mente humana na sua interrelação com o corpo, o meio ambiente e o universo. Opunha-se à explicação corrente que considerava o homem inventor de instrumentos e / ou o homem económico responsável pelo percurso civilizacional. Tendo registado a visão dela como uma possível hipótese, prossegue-se fazendo um estudo do desenvolvimento político-social pós-guerra, recriando o pano de fundo contra o qual os movimentos pela paz se irão desenrolar. Ao analisar o projeto Manhattan que, devido à situação da Segunda Guerra Mundial, se desenvolveu sobre sigílio absoluto, mostra-se como o secretismo político-militar sobre a administração militar criou condições para facilitar a satisfação de certos grupos de interesse sem qualquer limitação. O sucesso da produção da bomba gerou uma narrativa heroica, envolvendo cientistas, militares e indústria, que encontraram o seu eco no meio político conservador nos Estados Unidos. A partir desta narrativa desencadeou-se todo um conjunto de apostas pelo poder, motivadas por interesses próprios - militares, económicos, políticos e científicos. Para justificar a corrida aos armamentos, mesmo depois de terminada a guerra, criou-se um discurso de justificação do injustificável: a produção, a custo elevado, de super-bombas, que de tão destruidoras, nunca poderão ser utilizadas. Simultaneamente fabricou-se um inimigo representado pela União Soviética, que por sua vez ripostou na mesma moeda. Esta evolução representa, a ver da Srª Russell, um processo gerado por um pensamento tipicamente masculino, caraterizado pela ambição pelo poder, pela sua indiferença perante o meio social, pela sua visão unilateral e desprezo total quanto às consequências das suas ações. De fato, as condições de uma nova guerra – fria precisamente por não se querer arriscar usar armas de fogo – eram ideais para estudos recentes sobre a guerra psicológica (recurso à propaganda, serviços secretos, manipulação da opinião pública) que restou aos poderosos – homens na sua maioria – para lutar contra o opositor. Estes estudos confirmaram as convicções da feminista, que no início da guerra fria estava a trabalhar num departamento de informação ultramar do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Testemunhou de perto a mudança na relação entre o Oeste e Leste. Como editora da secção científica de revistas com circulação no Leste da Europa, estava a par das iniciativas que cientistas e intelectuais tomaram para informar o público acerca da ameaça da bomba e dos efeitos dos testes nucleares, e para assegurar um controlo internacional da energia nuclear. Convicta da ineficácia destas medidas por dizer respeito apenas a uma pequena elite, ela por sua vez inicia uma campanha para mobilizar as organizações de mulheres para a luta pela paz. Pelo seu empenho começa-se a perceber que aquilo que a motivou para esta ação tinha uma dimensão pessoal muito superior ao que a situação aparentemente merecia. Procurou por todas as formas encorajar um entendimento entre povos opositores, trabalhando para organizações internacionais que, no início dos anos 1950, já se encontravam sobre a influência dos países de leste. Apesar dos incómodos que isto lhe causou devido a reações hostis por parte de entidades britânicas, ela persistiu, alegando que a única maneira de assegurar uma relativa estabilidade seria através da cooperação entre Leste e Oeste - uma luta pela paz face ao perigo da aniquilação nuclear não devia reconhecer fronteira ideológicas, artificialmente criadas. E as pessoas mais indicadas para alcançar esta união seriam as mães / mulheres por terem uma visão pro-vida e uma perspetiva social mais informada devido à sua natureza e os seus empenhos regulares na e para a sociedade – um discurso, deve-se dizer, que na altura era bem aceite. Quando o Governo britânico anunciou o seus primeiros testes termo-nucleares, o público inglês começou, afinal, erger-se em protesto, organizando pouco a pouco as conhecidas marchas de Páscoa para o centro de investigação nuclear de Aldermaston. O seu objetivo de desarmamento nuclear unilateral era para a Srª Russell apenas mais uma forma de acentuar a divisão. Em 1958 conseguiu, na sua função de Presidente do Comité Permanente Internacional das Mães, unir um pequeno grupo de mulheres de todas as idades para viajar de Oeste para Leste numa missão de amizade e boa fé. A viagem durou três meses e levou-as de Edimburgo a Moscovo e de regresso (passando por 16 países). Tão importante era o acontecimento para a Srª Russell que organizou uma câmara cinematográfica para criar um registo mais duradouro. A análise da Dora Russell desta década assim como as suas campanhas invulgares deixaram transparecer uma filosofia de vida algo invulgar. Numa segunda parte expõe-se esta sua visão para a qual a consciência humana fisicamente situada é o ponto de partida para sua narrativa própria. As questões levantadas pela narrativa dela são debatidas sobre diversos pontos de vista, cobrindo áreas como a neurociência, a biologia, a filosofia, a antropologia, e a psicologia, debruçando-se sobre a natureza humana e a consciência. As conclusões que este debate permite fazer esclarece uma série de aspetos da filosofia da protagonista, e deixa bem claro o porquê da importância que esta caravana de mulheres pela paz tinha para ela. Na parte final da dissertação, regressa-se à caravana, explicando melhor o seu itinerário e avaliando as suas consequências. No Epílogo deixa-se umas observações finais. |
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| Autores principais: | Schwarz-S. G. Henriques, Michaela |
| Assunto: | Russell, Dora, 1894-1986 - Crítica e interpretação Movimentos pacifistas - História Movimentos pelos direitos civis Feminismo Teses de doutoramento - 2015 |
| Ano: | 2015 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | francês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A dissertação visa duas linhas de investigação: uma centra no pensamento da protagonista, Srª Dora Russell, segunda esposa do pensador Bertrand Russell, a outra num movimento de mulheres pela paz que ela mobilizou em resposta não só à ameaça nuclear nos anos 1950, mas também em reação às manifestações anti-nucleares que, segundo ela, não constituíram uma resposta construtiva. As duas linhas acabam por estar interligadas: a caravana das mulheres pela paz incorpora uma parte essencial da sua filosofia, que por sua vez é exemplificada à medida que o contexto histórico e sócio-cultural pós-guerra se desenrola numa narrativa de descoberta. O que sempre determinou o percurso da história humana, dizia a Srª Russell já nos anos 1920, foi a mente humana na sua interrelação com o corpo, o meio ambiente e o universo. Opunha-se à explicação corrente que considerava o homem inventor de instrumentos e / ou o homem económico responsável pelo percurso civilizacional. Tendo registado a visão dela como uma possível hipótese, prossegue-se fazendo um estudo do desenvolvimento político-social pós-guerra, recriando o pano de fundo contra o qual os movimentos pela paz se irão desenrolar. Ao analisar o projeto Manhattan que, devido à situação da Segunda Guerra Mundial, se desenvolveu sobre sigílio absoluto, mostra-se como o secretismo político-militar sobre a administração militar criou condições para facilitar a satisfação de certos grupos de interesse sem qualquer limitação. O sucesso da produção da bomba gerou uma narrativa heroica, envolvendo cientistas, militares e indústria, que encontraram o seu eco no meio político conservador nos Estados Unidos. A partir desta narrativa desencadeou-se todo um conjunto de apostas pelo poder, motivadas por interesses próprios - militares, económicos, políticos e científicos. Para justificar a corrida aos armamentos, mesmo depois de terminada a guerra, criou-se um discurso de justificação do injustificável: a produção, a custo elevado, de super-bombas, que de tão destruidoras, nunca poderão ser utilizadas. Simultaneamente fabricou-se um inimigo representado pela União Soviética, que por sua vez ripostou na mesma moeda. Esta evolução representa, a ver da Srª Russell, um processo gerado por um pensamento tipicamente masculino, caraterizado pela ambição pelo poder, pela sua indiferença perante o meio social, pela sua visão unilateral e desprezo total quanto às consequências das suas ações. De fato, as condições de uma nova guerra – fria precisamente por não se querer arriscar usar armas de fogo – eram ideais para estudos recentes sobre a guerra psicológica (recurso à propaganda, serviços secretos, manipulação da opinião pública) que restou aos poderosos – homens na sua maioria – para lutar contra o opositor. Estes estudos confirmaram as convicções da feminista, que no início da guerra fria estava a trabalhar num departamento de informação ultramar do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Testemunhou de perto a mudança na relação entre o Oeste e Leste. Como editora da secção científica de revistas com circulação no Leste da Europa, estava a par das iniciativas que cientistas e intelectuais tomaram para informar o público acerca da ameaça da bomba e dos efeitos dos testes nucleares, e para assegurar um controlo internacional da energia nuclear. Convicta da ineficácia destas medidas por dizer respeito apenas a uma pequena elite, ela por sua vez inicia uma campanha para mobilizar as organizações de mulheres para a luta pela paz. Pelo seu empenho começa-se a perceber que aquilo que a motivou para esta ação tinha uma dimensão pessoal muito superior ao que a situação aparentemente merecia. Procurou por todas as formas encorajar um entendimento entre povos opositores, trabalhando para organizações internacionais que, no início dos anos 1950, já se encontravam sobre a influência dos países de leste. Apesar dos incómodos que isto lhe causou devido a reações hostis por parte de entidades britânicas, ela persistiu, alegando que a única maneira de assegurar uma relativa estabilidade seria através da cooperação entre Leste e Oeste - uma luta pela paz face ao perigo da aniquilação nuclear não devia reconhecer fronteira ideológicas, artificialmente criadas. E as pessoas mais indicadas para alcançar esta união seriam as mães / mulheres por terem uma visão pro-vida e uma perspetiva social mais informada devido à sua natureza e os seus empenhos regulares na e para a sociedade – um discurso, deve-se dizer, que na altura era bem aceite. Quando o Governo britânico anunciou o seus primeiros testes termo-nucleares, o público inglês começou, afinal, erger-se em protesto, organizando pouco a pouco as conhecidas marchas de Páscoa para o centro de investigação nuclear de Aldermaston. O seu objetivo de desarmamento nuclear unilateral era para a Srª Russell apenas mais uma forma de acentuar a divisão. Em 1958 conseguiu, na sua função de Presidente do Comité Permanente Internacional das Mães, unir um pequeno grupo de mulheres de todas as idades para viajar de Oeste para Leste numa missão de amizade e boa fé. A viagem durou três meses e levou-as de Edimburgo a Moscovo e de regresso (passando por 16 países). Tão importante era o acontecimento para a Srª Russell que organizou uma câmara cinematográfica para criar um registo mais duradouro. A análise da Dora Russell desta década assim como as suas campanhas invulgares deixaram transparecer uma filosofia de vida algo invulgar. Numa segunda parte expõe-se esta sua visão para a qual a consciência humana fisicamente situada é o ponto de partida para sua narrativa própria. As questões levantadas pela narrativa dela são debatidas sobre diversos pontos de vista, cobrindo áreas como a neurociência, a biologia, a filosofia, a antropologia, e a psicologia, debruçando-se sobre a natureza humana e a consciência. As conclusões que este debate permite fazer esclarece uma série de aspetos da filosofia da protagonista, e deixa bem claro o porquê da importância que esta caravana de mulheres pela paz tinha para ela. Na parte final da dissertação, regressa-se à caravana, explicando melhor o seu itinerário e avaliando as suas consequências. No Epílogo deixa-se umas observações finais. |
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