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Ceuta na narrativa de Nicolau Lanckmann de Valckenstein : c. 1467

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Resumo:Em meados do século XV, Ceuta permanecia ainda uma terra de fronteira, dominada pela conquista e pelo espírito cavaleiresco e cruzadístico (este distinto das primeiras Cruzadas) que levou à sua conquista, e que a bula Eximie devocionis do papa pisano João XXIII , de 20 de Março de 1411 ‘alimentava’, permitindo a todos os cristãos que participassem diariamente na luta contra os muçulmanos a obtenção da absolvição geral e da remissão de todos os seus pecados. Era a permanência da situação que se impôs em 1415. Com a presença de um bispo, Ceuta fora elevada à categoria de cidade. Mas Ceuta já apresentava então, independentemente do seu estatuto, uma fisionomia urbana, bem vincada pelo seu passado remoto, como atesta Nicolau Lanckmann e, mais pormenorizadamente, Gomes Eanes de Zurara, mantendo vestígios de distintas civilizações. Assim se entende a referência, naquele autor, a um grande palácio, no qual, em outros tempos, tiveram morada o rei de África e Aníbal. Uma referência, certamente, ao palácio merínida, junto da urbe (a Cidade). Ceuta era já centro de um poder, não político, mas económico, mormente comercial, fruto do seu posicionamento no Estreito de Gibraltar , à entrada e a chaue de todo o mar medyo terreno . Um entreposto comercial, com uma alfândega, ainda existente no tempo da escrita da Crónica , para carga e descarga de mercadorias, que em 1415, acolhia uma comunidade de genoveses. Cada vez menos virada para as rotas terrestres provenientes da Africa subsaariana , Ceuta abrir-se-ia cada vez mais ao mar e para o comércio marítimo. E voltava-se então para Roma, enquanto sede de uma nova diocese do reino de Portugal, instituída com o esforço dos cavaleiros portugueses, e mormente de D. João I, que procurava em Ceuta a legitimação da sua bastardia, na certeza de que Ceuta legitimara o monarca, assim como a novel dinastia. Legitimidade que custaria cara ao reino de Portugal, tornando-se difícil a manutenção da cidade, como, já em 1426, o infante D. Pedro manifestara ao seu irmão D. Duarte, por carta remetida de Bruges, «Ceuta emquanto asy estiuer ordenada como agora esta que he muy bom sumydoiro de gente de uossa terra e d’armas e de dinheiro» . A cidade exigia, sobretudo devido à permanente guerra aos mouros, de que Nicolau Lanckmann faz eco, assim como muitos outros na centúria de quatrocentos , elevados recursos de que o reino não dispunha, também esta uma das causas de se encontrar em ruínas, em meados do século XV. Com esta memória visual, Nicolau Lanckmann partira da cidade, então sob a jurisdição do 2.º conde de Arraiolos, D. Fernando , no penúltimo dia de Novembro de 1451, em direção à península itálica.
Autores principais:Silva, Carlos Guardado da, 1971-
Assunto:Ceuta Lanckmann, Nicolau Século XV Urbanismo
Ano:2016
País:Portugal
Tipo de documento:documento de conferência
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Em meados do século XV, Ceuta permanecia ainda uma terra de fronteira, dominada pela conquista e pelo espírito cavaleiresco e cruzadístico (este distinto das primeiras Cruzadas) que levou à sua conquista, e que a bula Eximie devocionis do papa pisano João XXIII , de 20 de Março de 1411 ‘alimentava’, permitindo a todos os cristãos que participassem diariamente na luta contra os muçulmanos a obtenção da absolvição geral e da remissão de todos os seus pecados. Era a permanência da situação que se impôs em 1415. Com a presença de um bispo, Ceuta fora elevada à categoria de cidade. Mas Ceuta já apresentava então, independentemente do seu estatuto, uma fisionomia urbana, bem vincada pelo seu passado remoto, como atesta Nicolau Lanckmann e, mais pormenorizadamente, Gomes Eanes de Zurara, mantendo vestígios de distintas civilizações. Assim se entende a referência, naquele autor, a um grande palácio, no qual, em outros tempos, tiveram morada o rei de África e Aníbal. Uma referência, certamente, ao palácio merínida, junto da urbe (a Cidade). Ceuta era já centro de um poder, não político, mas económico, mormente comercial, fruto do seu posicionamento no Estreito de Gibraltar , à entrada e a chaue de todo o mar medyo terreno . Um entreposto comercial, com uma alfândega, ainda existente no tempo da escrita da Crónica , para carga e descarga de mercadorias, que em 1415, acolhia uma comunidade de genoveses. Cada vez menos virada para as rotas terrestres provenientes da Africa subsaariana , Ceuta abrir-se-ia cada vez mais ao mar e para o comércio marítimo. E voltava-se então para Roma, enquanto sede de uma nova diocese do reino de Portugal, instituída com o esforço dos cavaleiros portugueses, e mormente de D. João I, que procurava em Ceuta a legitimação da sua bastardia, na certeza de que Ceuta legitimara o monarca, assim como a novel dinastia. Legitimidade que custaria cara ao reino de Portugal, tornando-se difícil a manutenção da cidade, como, já em 1426, o infante D. Pedro manifestara ao seu irmão D. Duarte, por carta remetida de Bruges, «Ceuta emquanto asy estiuer ordenada como agora esta que he muy bom sumydoiro de gente de uossa terra e d’armas e de dinheiro» . A cidade exigia, sobretudo devido à permanente guerra aos mouros, de que Nicolau Lanckmann faz eco, assim como muitos outros na centúria de quatrocentos , elevados recursos de que o reino não dispunha, também esta uma das causas de se encontrar em ruínas, em meados do século XV. Com esta memória visual, Nicolau Lanckmann partira da cidade, então sob a jurisdição do 2.º conde de Arraiolos, D. Fernando , no penúltimo dia de Novembro de 1451, em direção à península itálica.