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Uma aproximação à ideia de estranheza

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Resumo:A estranheza encontra-se geralmente associada a momentos de hesitação ou de confusão conceptual, em que o que seria à partida familiar e comum apresenta contornos imprecisos, pouco habituais, propensos a uma rejeição inicial, não só pela novidade que sugere como também por uma certa tendência para criar um afastamento perceptual. É também comum associar a estranheza (com o factor da novidade que lhe é inerente) a situações de desconforto intelectual e a inquietações expressivas, cuja manifestação é não raras vezes conducente a uma noção vincada de autenticidade, não só na forma de nos relacionarmos com os outros como também no modo como nos confrontamos com a criação de objectos artísticos e com o domínio da interpretação. A presente tese procura afastar estas associações e tornar explícita a ideia de que a estranheza parte sobretudo do confronto entre as sucessivas interpretações a que nos prestamos, sendo que estas dizem respeito não a um suposto carácter excepcional da experiência, mas ao hábito e a uma convivência continuada com os objectos da percepção. Em muitos casos, a novidade associada à estranheza decorre da natureza reactiva da interpretação, e essa natureza é o resultado da contingência da individualidade e do reconhecimento que fazemos das nossas alterações perceptivas. As aproximações à ideia de interpretação por parte de autores como Marcel Proust, Ludwig Wittgenstein e Stanley Cavell ajudam-nos a entender como o que à partida nos parece uma estranheza intrínseca a um objecto ou experiência em particular é sobretudo uma estranheza que parte do reconhecimento sistemático que fazemos dos nossos hábitos, crenças, expectativas e convicções, manifestado através de movimentos retrospectivos e prospectivos, fundamentados na memória e na imaginação. Estes movimentos, longe de se relacionarem com sensações reveladoras de confusão, terror ou mal-estar intelectual, estão intimamente ligados às noções de convicção, redescrição e autocriação, e a uma posição autoral reconhecida nas nossas vidas que é indissociável da ideia de estranheza.
Autores principais:Pedreira, Frederico
Assunto:Wittgenstein, Ludwig, 1889-1951 - Crítica e interpretação Cavell, Stanley, 1926 - Crítica e interpretação Estranheza - Na literatura Cepticismo Filosofia e literatura Teoria literária Teses de doutoramento - 2016
Ano:2016
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A estranheza encontra-se geralmente associada a momentos de hesitação ou de confusão conceptual, em que o que seria à partida familiar e comum apresenta contornos imprecisos, pouco habituais, propensos a uma rejeição inicial, não só pela novidade que sugere como também por uma certa tendência para criar um afastamento perceptual. É também comum associar a estranheza (com o factor da novidade que lhe é inerente) a situações de desconforto intelectual e a inquietações expressivas, cuja manifestação é não raras vezes conducente a uma noção vincada de autenticidade, não só na forma de nos relacionarmos com os outros como também no modo como nos confrontamos com a criação de objectos artísticos e com o domínio da interpretação. A presente tese procura afastar estas associações e tornar explícita a ideia de que a estranheza parte sobretudo do confronto entre as sucessivas interpretações a que nos prestamos, sendo que estas dizem respeito não a um suposto carácter excepcional da experiência, mas ao hábito e a uma convivência continuada com os objectos da percepção. Em muitos casos, a novidade associada à estranheza decorre da natureza reactiva da interpretação, e essa natureza é o resultado da contingência da individualidade e do reconhecimento que fazemos das nossas alterações perceptivas. As aproximações à ideia de interpretação por parte de autores como Marcel Proust, Ludwig Wittgenstein e Stanley Cavell ajudam-nos a entender como o que à partida nos parece uma estranheza intrínseca a um objecto ou experiência em particular é sobretudo uma estranheza que parte do reconhecimento sistemático que fazemos dos nossos hábitos, crenças, expectativas e convicções, manifestado através de movimentos retrospectivos e prospectivos, fundamentados na memória e na imaginação. Estes movimentos, longe de se relacionarem com sensações reveladoras de confusão, terror ou mal-estar intelectual, estão intimamente ligados às noções de convicção, redescrição e autocriação, e a uma posição autoral reconhecida nas nossas vidas que é indissociável da ideia de estranheza.