Publicação
La construction identitaire de l’élève officier à l’Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (I.S.C.P.S.I) : Ecole Supérieure de Police Portugaise
| Resumo: | A imagem da Policia de Segurança Pública entre os cidadãos na sequência da Revolução dos cravos era francamente negativa, a força policial era vista como brutal, violenta e fonte de problemas. Liderada pelos militares da Academia Militar, a P.S.P, nessa altura, era o braço da «violência legítima» do antigo regime de Salazar que tinha perdurado mais de quarenta anos. Para melhorar esta imagem incompatível com uma democracia moderna, foi decidido autonomizar a PSP, dotando-a de uma organização própria. A criação Ex Nihilo da E.S.P (Escola Superior de Polícia) pretendeu ser uma resposta neste âmbito. Infelizmente, esta solução, apesar de uma legitimidade incontestável na dimensão histórica, pôs em causa a intervenção clássica de alguns "corpos instituídos", nomeadamente vários quadros militares, sedentos da sua carreira num pais descolonizado, pacificado e contra a guerra - vista como um grande sacrifício, após a guerra Colonial. Neste contexto, a E.S.P, na sua criação, ampliação e difusão encontrou grandes dificuldades, felizmente ultrapassadas pelo seu carismático fundador, Fernando de Almeida. Habilmente, a escola emancipou-se através de uma estratégia de edificação de identidade institucional. Assim, conseguiu adquirir prestígio em menos de vinte anos, através de influências culturais e do intercâmbio humano. Além de uma cultura militarizada temporizada pelo princípio de uma hierarquia flexível, a escola interiorizou o espírito do liceu português dos anos cinquenta - na continuidade do liceu modelo de Pedro Nunes - e também do meio universitário através de professores civis de prestigio convidados. Por outro lado, com o objectivo de impedir as oposições possíveis de outros "corps institués" prestigiados e ancorados numa tradição secular, a E.S.P consagrou o seu reconhecimento nos países estrangeiros com viagens de estudo: no Brasil, em Macau, em Itália, em Espanha, em França. Ou seja, com todos os seus colegas europeus ou lusófonos. Na última vertente desta estratégia, a escola cooperou com os países da zona P.A.L.O.P acolhendo e formando alunos africanos nas suas turmas. A Direcção, tendo percebido o efeito negativo do afastamento dos alunos da sociedade onde futuramente vão intervir, decidiu intensificar os projectos colectivos, caritativos e desportivos, no sentido de "modelar" os alunos cadetes em cidadãos exemplares, agindo entre os cidadãos. Mas esta afirmação de identidade institucional constituiria apenas uma promessa sem a presença de um projecto educativo, sólido e ambicioso, capaz de concretizar o arquétipo do oficial de polícia de excelência das democracias europeias modernas . Deste modo, a escola, enquanto empreendimento no ensino das Ciências Policiais, inspirou-se num ideal de uma formação universal, à semelhança do «Honnête Homme» da Renascença, forte de corpo e alma, humanista, cientifico, técnico e artista. O cursus pedagógico da E.S.P foi desde do início um sistema original, com uma vocação exaustiva cuja origem do sucesso é um equilibro indispensável, mas frágil. Entre os seus vários componentes, o sistema de formação integral organiza-se a volta do I.C.A.L (Instrução do Corpo de Alunos), torre de menagem do castelo, composto por eficazes e dedicados instrutores "da casa". O I.C.A.L tem como objectivo avaliar o aluno durante a sua permanência quer do ponto de vista atitudinal (o não fazer), como comportamental (fazer melhor). E isso durante toda a sua estadia de cinco anos no Instituto. Além disso, é também um curso universitário clássico, dirigido por um areópago de professores civis prestigiados, representantes humano s das cadeiras cruciais das Ciências ditas policiais. Direito Penal e Procedimento Penal, Direito Administrativo, Relações Publicas, Línguas, Português. A estas duas vertentes, junta-se a componente desportiva - Motricidade Humana, quer no aspecto teórico, quer aplicada em desportos de combate, atletismo e, ainda, na intenção de adquirir, além da performance desportiva, o sentido de equipa, coragem e perseverança. Por fim, a ultima vertente, consiste na acção no terreno, por um lado através dos estágios intercalares (anuais) e do estágio final, e, por outro, através da realização permanente de projectivos colectivos de cariz caritativo ou desportivos. Esta dupla pratica dá assim ao aluno o sentido da realização e coordenação de projectos, como também uma percepção de uma realidade múltipla do mundo policial e da sociedade portuguesa no seu conjunto. Este sistema de formação integral toma-se realmente efectivo na interacção de todos os seus factores pelo esforço permanente dos alunos cadetes. Esta formação pretende assegurar ao aluno cadete todas as qualidades necessárias para o melhor desempenho possível na profissão de oficial, sem os riscos de inadaptação ou de desfasamento na sua relação com o cidadão que ele deve proteger contra a confusão e o caos urbanos. Mas ainda, o conhecimento de uma identidade institucional forte bem como os maquinismos que compõem o seu sistema de formação integral, não chegam para a compreensão da construção identitária do aluno cadete. O que motiva a entrada no I.S.C.P.S.L? No seu consciente, tanto o gosto pelo risco e pela aventura, como o sentido do dever de perpetuar à profissão dos pais (mais de 40% do s admitido s são familiares da G.N.R. ou P.S.P.). No seu inconsciente - e foi a nossa grande surpresa! - para muitos, um desejo de "reparar" um sentimento de abandono afectivo e protector (morte, afastamento ou sacrifício dos pais). De um modo geral, o pré-adulto (entre os 19 e os 23 anos, aproximadamente) no sentido dado por Erikson, sofre uma inevitável crise identitária, por ele gerada, para afirmar a sua imagem identitária aos olhos dos outros e dele próprio. Esta fase crucial, vivida na admissão a uma escola, rica em símbolos e dimensões sacralizadas, acresce um forte sentimento de predestinação. Ao longo da estadia de cinco anos no instituto, o aluno vai viver e interiorizar três etapas principais. Primeira etapa, vive o choque da hierarquia, da obediência e da submissão ao enquadramento espácio-temporal e renuncia à sua antiga vida (épicuriana?) de adolescente do ensino secundário. Segunda etapa, age no sentido de adquirir o sentido de virtude, de ética, numa acepção modema; o aluno toma-se num "marathon man" de corpo e alma, aprendiz de uma vida comunitária permanente, comprometido na acção, na competição e no sentido de cumprir um projecto colectivo. Por último, na terceira etapa deste rally identitário, o aluno inicia-se na vida policial, intervindo no terreno através de um ano de estágios em situações variadas: o aspirante deseja a ser como um profissional aguerrido e quer manter-se o mais operacional possível. O aluno oficial, nesta tripla dimensão, organiza a sua vida prioritariamente à volta da missão de oficial e, se concebe um a vida familiar, esta fica confinada e controlada de modo a não interfir no Projecto da sua vida: a defesa dos Direitos do Homem e da tranquilidade do cidadão. O I.S.C.P.S.I. implementou um paradoxo raro: viver e controlar um microcosmo fechado e protegido, abrindo-se decididamente à sociedade. Num movimento de vai e vem, de fluxo e refluxo, os docentes civis, conferencistas, juízes e técnicos de organismo s públicos nacionais e internacionais, membros de associações: todos entram e intervêm no instituto, honrados por partilharem com os jovens recrutas os seus conhecimentos e experiências. Como refluxo, a escola envia os seus alunos transformados em agentes mandatários , comprometidos com projectos de cariz caritativo e desportivo, com afirmada abnegação que restituí à P.S.P, ela mesma, uma imagem extremamente positiva aos olhos do cidadão. O I.S.C.P.S.I., nem é caserna fortificada e trancada, nem é campus universitário onde o "green" é muito verde, muito aberto, soube conciliar os contrários: por um lado, o microcosmo do sistema da formação integral, por outro, a indispensável adaptação a uma sociedade extremamente evoluída neste início do século XXI. |
|---|---|
| Autores principais: | Paymal, François Jean-Marie Denis, 1964- |
| Assunto: | Construção da identidade Cultura escolar Polícia de Segurança Pública Formação pessoal e social Teses de mestrado - 2008 |
| Ano: | 2008 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso restrito |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | francês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A imagem da Policia de Segurança Pública entre os cidadãos na sequência da Revolução dos cravos era francamente negativa, a força policial era vista como brutal, violenta e fonte de problemas. Liderada pelos militares da Academia Militar, a P.S.P, nessa altura, era o braço da «violência legítima» do antigo regime de Salazar que tinha perdurado mais de quarenta anos. Para melhorar esta imagem incompatível com uma democracia moderna, foi decidido autonomizar a PSP, dotando-a de uma organização própria. A criação Ex Nihilo da E.S.P (Escola Superior de Polícia) pretendeu ser uma resposta neste âmbito. Infelizmente, esta solução, apesar de uma legitimidade incontestável na dimensão histórica, pôs em causa a intervenção clássica de alguns "corpos instituídos", nomeadamente vários quadros militares, sedentos da sua carreira num pais descolonizado, pacificado e contra a guerra - vista como um grande sacrifício, após a guerra Colonial. Neste contexto, a E.S.P, na sua criação, ampliação e difusão encontrou grandes dificuldades, felizmente ultrapassadas pelo seu carismático fundador, Fernando de Almeida. Habilmente, a escola emancipou-se através de uma estratégia de edificação de identidade institucional. Assim, conseguiu adquirir prestígio em menos de vinte anos, através de influências culturais e do intercâmbio humano. Além de uma cultura militarizada temporizada pelo princípio de uma hierarquia flexível, a escola interiorizou o espírito do liceu português dos anos cinquenta - na continuidade do liceu modelo de Pedro Nunes - e também do meio universitário através de professores civis de prestigio convidados. Por outro lado, com o objectivo de impedir as oposições possíveis de outros "corps institués" prestigiados e ancorados numa tradição secular, a E.S.P consagrou o seu reconhecimento nos países estrangeiros com viagens de estudo: no Brasil, em Macau, em Itália, em Espanha, em França. Ou seja, com todos os seus colegas europeus ou lusófonos. Na última vertente desta estratégia, a escola cooperou com os países da zona P.A.L.O.P acolhendo e formando alunos africanos nas suas turmas. A Direcção, tendo percebido o efeito negativo do afastamento dos alunos da sociedade onde futuramente vão intervir, decidiu intensificar os projectos colectivos, caritativos e desportivos, no sentido de "modelar" os alunos cadetes em cidadãos exemplares, agindo entre os cidadãos. Mas esta afirmação de identidade institucional constituiria apenas uma promessa sem a presença de um projecto educativo, sólido e ambicioso, capaz de concretizar o arquétipo do oficial de polícia de excelência das democracias europeias modernas . Deste modo, a escola, enquanto empreendimento no ensino das Ciências Policiais, inspirou-se num ideal de uma formação universal, à semelhança do «Honnête Homme» da Renascença, forte de corpo e alma, humanista, cientifico, técnico e artista. O cursus pedagógico da E.S.P foi desde do início um sistema original, com uma vocação exaustiva cuja origem do sucesso é um equilibro indispensável, mas frágil. Entre os seus vários componentes, o sistema de formação integral organiza-se a volta do I.C.A.L (Instrução do Corpo de Alunos), torre de menagem do castelo, composto por eficazes e dedicados instrutores "da casa". O I.C.A.L tem como objectivo avaliar o aluno durante a sua permanência quer do ponto de vista atitudinal (o não fazer), como comportamental (fazer melhor). E isso durante toda a sua estadia de cinco anos no Instituto. Além disso, é também um curso universitário clássico, dirigido por um areópago de professores civis prestigiados, representantes humano s das cadeiras cruciais das Ciências ditas policiais. Direito Penal e Procedimento Penal, Direito Administrativo, Relações Publicas, Línguas, Português. A estas duas vertentes, junta-se a componente desportiva - Motricidade Humana, quer no aspecto teórico, quer aplicada em desportos de combate, atletismo e, ainda, na intenção de adquirir, além da performance desportiva, o sentido de equipa, coragem e perseverança. Por fim, a ultima vertente, consiste na acção no terreno, por um lado através dos estágios intercalares (anuais) e do estágio final, e, por outro, através da realização permanente de projectivos colectivos de cariz caritativo ou desportivos. Esta dupla pratica dá assim ao aluno o sentido da realização e coordenação de projectos, como também uma percepção de uma realidade múltipla do mundo policial e da sociedade portuguesa no seu conjunto. Este sistema de formação integral toma-se realmente efectivo na interacção de todos os seus factores pelo esforço permanente dos alunos cadetes. Esta formação pretende assegurar ao aluno cadete todas as qualidades necessárias para o melhor desempenho possível na profissão de oficial, sem os riscos de inadaptação ou de desfasamento na sua relação com o cidadão que ele deve proteger contra a confusão e o caos urbanos. Mas ainda, o conhecimento de uma identidade institucional forte bem como os maquinismos que compõem o seu sistema de formação integral, não chegam para a compreensão da construção identitária do aluno cadete. O que motiva a entrada no I.S.C.P.S.L? No seu consciente, tanto o gosto pelo risco e pela aventura, como o sentido do dever de perpetuar à profissão dos pais (mais de 40% do s admitido s são familiares da G.N.R. ou P.S.P.). No seu inconsciente - e foi a nossa grande surpresa! - para muitos, um desejo de "reparar" um sentimento de abandono afectivo e protector (morte, afastamento ou sacrifício dos pais). De um modo geral, o pré-adulto (entre os 19 e os 23 anos, aproximadamente) no sentido dado por Erikson, sofre uma inevitável crise identitária, por ele gerada, para afirmar a sua imagem identitária aos olhos dos outros e dele próprio. Esta fase crucial, vivida na admissão a uma escola, rica em símbolos e dimensões sacralizadas, acresce um forte sentimento de predestinação. Ao longo da estadia de cinco anos no instituto, o aluno vai viver e interiorizar três etapas principais. Primeira etapa, vive o choque da hierarquia, da obediência e da submissão ao enquadramento espácio-temporal e renuncia à sua antiga vida (épicuriana?) de adolescente do ensino secundário. Segunda etapa, age no sentido de adquirir o sentido de virtude, de ética, numa acepção modema; o aluno toma-se num "marathon man" de corpo e alma, aprendiz de uma vida comunitária permanente, comprometido na acção, na competição e no sentido de cumprir um projecto colectivo. Por último, na terceira etapa deste rally identitário, o aluno inicia-se na vida policial, intervindo no terreno através de um ano de estágios em situações variadas: o aspirante deseja a ser como um profissional aguerrido e quer manter-se o mais operacional possível. O aluno oficial, nesta tripla dimensão, organiza a sua vida prioritariamente à volta da missão de oficial e, se concebe um a vida familiar, esta fica confinada e controlada de modo a não interfir no Projecto da sua vida: a defesa dos Direitos do Homem e da tranquilidade do cidadão. O I.S.C.P.S.I. implementou um paradoxo raro: viver e controlar um microcosmo fechado e protegido, abrindo-se decididamente à sociedade. Num movimento de vai e vem, de fluxo e refluxo, os docentes civis, conferencistas, juízes e técnicos de organismo s públicos nacionais e internacionais, membros de associações: todos entram e intervêm no instituto, honrados por partilharem com os jovens recrutas os seus conhecimentos e experiências. Como refluxo, a escola envia os seus alunos transformados em agentes mandatários , comprometidos com projectos de cariz caritativo e desportivo, com afirmada abnegação que restituí à P.S.P, ela mesma, uma imagem extremamente positiva aos olhos do cidadão. O I.S.C.P.S.I., nem é caserna fortificada e trancada, nem é campus universitário onde o "green" é muito verde, muito aberto, soube conciliar os contrários: por um lado, o microcosmo do sistema da formação integral, por outro, a indispensável adaptação a uma sociedade extremamente evoluída neste início do século XXI. |
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