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Limpos, sadios e dóceis : história de Saúde Escolar em Portugal no Estado Novo : 1930 a 1960

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Resumo:A presente investigação tem como objecto a história da saúde escolar, nos liceus e escolas técnicas, no período compreendido entre 1930-60. Os serviços da saúde escolar, criados pela reforma de 1933, são herdeiros, por um lado, de um quadro legal moderno, em resultado da primeira institucionalização dos serviços de inspecção médica nas escolas (1901-31) e, por outro, de um campo médico-pedagógico que decorre da aplicação do discurso médico à escola de massas do século XIX e à criança em espaço escolar. A saúde escolar de 1933 representa a primeira reforma de conjunto promovida pela política educativa do Estado Novo, integrando as suas três ideias-força: a redução das aprendizagens, o primado da acção educativa e fortes enquadramentos morais e religiosos. Através dela, é criada uma estrutura à revelia da lógica escolar, orientada para uma acção na periferia dos tempos (disciplinas) e dos espaços (salas de aula) escolares e identificada por um discurso institucional assente em três pilares: sobrevalorização da acção moral, pela prática de uma higiene da alma, acção educativa total (em contraste com a cultura da insU-uçãó) orientada para os tempos e os espaços não-escolares - recreios, corredores, gabinete médico, meio social, etc. - e prolongamento do olhar médico-pedagógico para o interior da família, enquadrando os alunos pobres, nas variáveis físicas, higiénicas., sociais e morais em que vivem. De acordo com o conceito de biopoder de Foucault e com as teses da medicalização da sociedade moderna, procura-se defender, por um lado, que os serviços da saúde escolar representam uma estratégia produtiva, assente numa tecnologia médico-pedagógica de observação e classificação, somática, psicológica, moral e familiar, dos alunos e da população escolar, orientada para a normalização dos sãos, dos pequenos desvios e das pequenas deficiências e, por outro, que a acção dos médicos e das visitadoras escolares é uma prática através da qual se constroem cinco objectos médico-pedagógicos a medicalizar: o espaço escolar, os tempos escolares, o aluno, os meios de ensino e a família. A saúde escolar do Estado Novo privilegia claramente a acção junto do aluno e da família. Da análise de 109 relatórios dos médicos e visitadoras escolares que constituem o corpus documental desta investigação, propõe-se, para a medicalização do aluno, uma tipologia de cuidados médico-pedagógicos em seis categorias (de ordem médica, com o rendimento escolar, de ordem disciplinar, de ordem moral/sexual, com a higiene do corpo e com os tempos livres/prática da leitura) e para a medicalização da família uma tipologia em cinco categorias de cuidados (de ordem médico-higiénicos, com o rendimento escolar, com o alojamento, de ordem moral e de apoio social).
Autores principais:Abreu, Carlos, 1952-
Assunto:Educação - História Estado Novo Higiene escolar Legislação da educação Teses de mestrado - 1999
Ano:1999
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso restrito
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A presente investigação tem como objecto a história da saúde escolar, nos liceus e escolas técnicas, no período compreendido entre 1930-60. Os serviços da saúde escolar, criados pela reforma de 1933, são herdeiros, por um lado, de um quadro legal moderno, em resultado da primeira institucionalização dos serviços de inspecção médica nas escolas (1901-31) e, por outro, de um campo médico-pedagógico que decorre da aplicação do discurso médico à escola de massas do século XIX e à criança em espaço escolar. A saúde escolar de 1933 representa a primeira reforma de conjunto promovida pela política educativa do Estado Novo, integrando as suas três ideias-força: a redução das aprendizagens, o primado da acção educativa e fortes enquadramentos morais e religiosos. Através dela, é criada uma estrutura à revelia da lógica escolar, orientada para uma acção na periferia dos tempos (disciplinas) e dos espaços (salas de aula) escolares e identificada por um discurso institucional assente em três pilares: sobrevalorização da acção moral, pela prática de uma higiene da alma, acção educativa total (em contraste com a cultura da insU-uçãó) orientada para os tempos e os espaços não-escolares - recreios, corredores, gabinete médico, meio social, etc. - e prolongamento do olhar médico-pedagógico para o interior da família, enquadrando os alunos pobres, nas variáveis físicas, higiénicas., sociais e morais em que vivem. De acordo com o conceito de biopoder de Foucault e com as teses da medicalização da sociedade moderna, procura-se defender, por um lado, que os serviços da saúde escolar representam uma estratégia produtiva, assente numa tecnologia médico-pedagógica de observação e classificação, somática, psicológica, moral e familiar, dos alunos e da população escolar, orientada para a normalização dos sãos, dos pequenos desvios e das pequenas deficiências e, por outro, que a acção dos médicos e das visitadoras escolares é uma prática através da qual se constroem cinco objectos médico-pedagógicos a medicalizar: o espaço escolar, os tempos escolares, o aluno, os meios de ensino e a família. A saúde escolar do Estado Novo privilegia claramente a acção junto do aluno e da família. Da análise de 109 relatórios dos médicos e visitadoras escolares que constituem o corpus documental desta investigação, propõe-se, para a medicalização do aluno, uma tipologia de cuidados médico-pedagógicos em seis categorias (de ordem médica, com o rendimento escolar, de ordem disciplinar, de ordem moral/sexual, com a higiene do corpo e com os tempos livres/prática da leitura) e para a medicalização da família uma tipologia em cinco categorias de cuidados (de ordem médico-higiénicos, com o rendimento escolar, com o alojamento, de ordem moral e de apoio social).