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Mudanças nos valores da conservação da natureza : uma análise discursiva da conservação da biodiversidade da mata atlântica

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Resumo:A Floresta Atlântica Brasileira, a Mata Atlântica, está entre os biomas com maior diversidade biológica em todo o planeta, mas, tragicamente, um dos mais ameaçados. O que resta da floresta de outrora são apenas reminiscências. Os ciclos económicos, a “ferro e fogo”, desvaneceram a floresta, percurso marcado pela arrogância humana e sua desconsideração pelo mundo natural-não-humano. Apesar disso, o fascínio pela floresta sempre existiu, assim como o compromisso de conservá-la, que cresce cada dia mais. Não obstante, acompanhamos uma mudança nos valores da conservação, que transbordam-se da lógica da eficiência económica, levando a que os novos mecanismos e instrumentos políticos para a conservação afirmem convenientes ‘alianças’ com o chamado desenvolvimento. A natureza passa a ser preconizada enquanto ‘capital natural’ e ‘provedora de serviços ecossistémicos’ no novo discurso conservacionista. A transformação da natureza em mercadoria foi o mote para o desenvolvimento no Brasil, e continua a ser percebida enquanto mercadoria, igualmente subsumida às dinâmicas do mercado. Como se não bastasse a sua destruição materialmente acumulada em capital, também a sua conservação, paulatinamente, se condiciona ao desenvolvimentismo. O discurso dos serviços ecossistémicos tem-se tornado, nas últimas décadas, a tendência no âmbito da conservação e da sustentabilidade, influenciando a forma de se perceber a natureza e a forma de se pensar e fazer conservação. Este estudo apresenta uma análise do discurso dos serviços ecossistémicos enquanto premissa fundamental para a conservação da natureza e da biodiversidade, especialmente no contexto da Mata Atlântica. Não é apenas tal discurso que entra em questão, mas toda a estrutura que o precede e que o conceito desenrola, isto é, desde a articulação científica e económica que o fundamenta às apropriações do conceito engendrado no seio do neoliberalismo. Considerando a emergência dos instrumentos económicos para a conservação, os pagamentos por serviços ecossistémicos/ambientais (PSE/A) têm ganhado bastante visibilidade. De modo a perceber a sua operacionalização no contexto da Mata Atlântica, foi elaborado e aplicado um questionário, no âmbito deste estudo, direcionado para proponentes de iniciativas de PSE/A, para avaliar os impactos do instrumento. Com o questionário foi possível desvendar que os PSE/A, e os discursos sobre os quais se assentam, vêm provocando uma mudança nos valores da conservação. Uma mudança valorativa, discursiva, operacional e institucional. A conservação passa a se ajustar ao novo discurso dos serviços ecossistémicos e aos seus instrumentos, como os PSE/A, que também incorporam e são incorporados pela lógica de mercado e pela ideologia neoliberal. Grande parte dos que responderam ao questionário são organizações não-governamentais com larga experiência e expressão no âmbito da conservação no país, mas suas agendas se ajustam aos novos discursos e instrumentos, seja pela busca por novas fontes de financiamento, ou pela crença de que a linguagem económica seja necessária para se fazer conservação. As práticas, em si, mudam pouco: os PSE/A acabam por ser uma inovação e, ao mesmo tempo, um instrumento político que contribui para a continuidade de suas atividades. No entanto, as motivações, as estratégias e os instrumentos que conduzem a conservação começam a seguir outras linguagens. Os arranjos institucionais também começam a se alterar de modo a acomodar os PSE/A: normas, financiamentos, legislações, a ciência e até a moralidade começam a ser passíveis dessas mudanças. Notamos, entretanto, através das iniciativas analisadas, que os PSE/A revelaram potencialidades para a conservação da Mata Atlântica, contudo, devem ser utilizados com precaução, reconhecendo suas controvérsias e incertezas, buscando uma melhor compreensão sobre como o instrumento poderá ser benéfico ou mesmo nocivo para a conservação da natureza e da biodiversidade, para as pessoas que dela dependem diretamente para sobreviver e para a própria relação do ser humano com a natureza.
Autores principais:Muniz, Rodrigo
Assunto:Teses de doutoramento - 2017
Ano:2017
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A Floresta Atlântica Brasileira, a Mata Atlântica, está entre os biomas com maior diversidade biológica em todo o planeta, mas, tragicamente, um dos mais ameaçados. O que resta da floresta de outrora são apenas reminiscências. Os ciclos económicos, a “ferro e fogo”, desvaneceram a floresta, percurso marcado pela arrogância humana e sua desconsideração pelo mundo natural-não-humano. Apesar disso, o fascínio pela floresta sempre existiu, assim como o compromisso de conservá-la, que cresce cada dia mais. Não obstante, acompanhamos uma mudança nos valores da conservação, que transbordam-se da lógica da eficiência económica, levando a que os novos mecanismos e instrumentos políticos para a conservação afirmem convenientes ‘alianças’ com o chamado desenvolvimento. A natureza passa a ser preconizada enquanto ‘capital natural’ e ‘provedora de serviços ecossistémicos’ no novo discurso conservacionista. A transformação da natureza em mercadoria foi o mote para o desenvolvimento no Brasil, e continua a ser percebida enquanto mercadoria, igualmente subsumida às dinâmicas do mercado. Como se não bastasse a sua destruição materialmente acumulada em capital, também a sua conservação, paulatinamente, se condiciona ao desenvolvimentismo. O discurso dos serviços ecossistémicos tem-se tornado, nas últimas décadas, a tendência no âmbito da conservação e da sustentabilidade, influenciando a forma de se perceber a natureza e a forma de se pensar e fazer conservação. Este estudo apresenta uma análise do discurso dos serviços ecossistémicos enquanto premissa fundamental para a conservação da natureza e da biodiversidade, especialmente no contexto da Mata Atlântica. Não é apenas tal discurso que entra em questão, mas toda a estrutura que o precede e que o conceito desenrola, isto é, desde a articulação científica e económica que o fundamenta às apropriações do conceito engendrado no seio do neoliberalismo. Considerando a emergência dos instrumentos económicos para a conservação, os pagamentos por serviços ecossistémicos/ambientais (PSE/A) têm ganhado bastante visibilidade. De modo a perceber a sua operacionalização no contexto da Mata Atlântica, foi elaborado e aplicado um questionário, no âmbito deste estudo, direcionado para proponentes de iniciativas de PSE/A, para avaliar os impactos do instrumento. Com o questionário foi possível desvendar que os PSE/A, e os discursos sobre os quais se assentam, vêm provocando uma mudança nos valores da conservação. Uma mudança valorativa, discursiva, operacional e institucional. A conservação passa a se ajustar ao novo discurso dos serviços ecossistémicos e aos seus instrumentos, como os PSE/A, que também incorporam e são incorporados pela lógica de mercado e pela ideologia neoliberal. Grande parte dos que responderam ao questionário são organizações não-governamentais com larga experiência e expressão no âmbito da conservação no país, mas suas agendas se ajustam aos novos discursos e instrumentos, seja pela busca por novas fontes de financiamento, ou pela crença de que a linguagem económica seja necessária para se fazer conservação. As práticas, em si, mudam pouco: os PSE/A acabam por ser uma inovação e, ao mesmo tempo, um instrumento político que contribui para a continuidade de suas atividades. No entanto, as motivações, as estratégias e os instrumentos que conduzem a conservação começam a seguir outras linguagens. Os arranjos institucionais também começam a se alterar de modo a acomodar os PSE/A: normas, financiamentos, legislações, a ciência e até a moralidade começam a ser passíveis dessas mudanças. Notamos, entretanto, através das iniciativas analisadas, que os PSE/A revelaram potencialidades para a conservação da Mata Atlântica, contudo, devem ser utilizados com precaução, reconhecendo suas controvérsias e incertezas, buscando uma melhor compreensão sobre como o instrumento poderá ser benéfico ou mesmo nocivo para a conservação da natureza e da biodiversidade, para as pessoas que dela dependem diretamente para sobreviver e para a própria relação do ser humano com a natureza.