Publicação
Marine litter occurrence patterns along the Portuguese coast in the past decade
| Resumo: | O lixo marinho captou a atenção da comunidade científica nas últimas décadas, passando a constituir um problema central na conservação do meio marinho. Associado a uma vasta diversidade de atividades humanas, que podem ocorrer tanto em zonas costeiras, como em zonas oceânicas, o lixo marinho tornou-se um problema global, de extensão e magnitude desconhecidas, que põe em risco os ecossistemas marinhos e as economias que deles dependem. A acumulação de lixo nas zonas costeiras reduz substancialmente o potencial turístico da região afetada, sendo a solução mais comumente adotada, a remoção mecânica dos detritos sólidos, economicamente insustentável a longo prazo. Desta forma, é possível observar um aumento da preocupação em relação ao lixo marinho costeiro, evidente no crescente número de estudos desenvolvidos nas praias, e também nas inúmeras iniciativas que visam mitigar este problema. O Projeto Coastwatch é um projeto europeu, desenvolvido inicialmente na Irlanda em 1988, que tem como objetivo recolher informação de base sobre a zona costeira, sendo uma das temáticas abordadas o lixo marinho. É um projeto de citizen science, que recorre ao auxílio de voluntários não cientistas para a recolha dos dados. Usando um questionário padrão, os voluntários do projeto Coastwatch, em inúmeros países da Europa, recolhem informação sobre a dinâmica costeira, fauna e flora, lixo marinho, entre outras componentes da costa, nas zonas costeiras dos países envolvidos no projeto. O objetivo da presente dissertação de mestrado foi identificar padrões espaciais e temporais na deposição de lixo na costa portuguesa, usando os dados recolhidos no âmbito do Projeto Coastwatch Portugal, entre os anos de 2001 e 2010. Devido à heterogeneidade dos questionários, os quais sofreram alterações ao longo dos anos, foi necessário proceder a uma criteriosa análise e transformação dos dados recolhidos, de forma a ser possível realizar comparações entre os diferentes anos. Todos os dados que tinham sido recolhidos na forma de abundâncias foram transformados em classes de abundância (0 itens; classe 1: 1-5 itens; classe 2: 6-50 itens; classe 3: 51-100 itens; classe 4: > 100 itens), de forma a estarem de acordo com o questionário mais recente. Devido à heterogeneidade das áreas amostradas, todos os dados foram organizados por regiões, ordenadas de 1 a 7 segundo as NUT III em vigor (1 - Minho-Lima, Cávado e Grande Porto; 2 – Baixo Vouga, Baixo Mondego e Pinhal litoral; 3 – Oeste; 4 – Grande Lisboa; 5 – Península de Setúbal; 6 – Alentejo Litoral; 7 – Algarve). As regiões 1 e 2 são compostas por mais do que uma NUT III por forma a agregar um número de amostras idêntico ao das restantes áreas. Cada região foi caracterizada tendo sido selecionadas 3 variáveis: população residente, número de estuários, número de portos e número de distritos industriais. Os dados foram analisados por ano e por região, de forma a determinar padrões e tendências, tanto temporais como espaciais. As diferenças entre as regiões e os diferentes anos foram exploradas através de uma ANOVA multivariada permutacional (PERMANOVA) e de um teste Simper. Na análise da distribuição de lixo nas diferentes regiões, ao longo do tempo, e da sua relação com as variáveis ambientais, foi realizado uma Análise de Coordenadas Principais (PCO). As categorias de lixo marinho mais abundantes na costa portuguesa foram o plástico, os aparelhos de pesca, os sacos de plástico, o vidro e o papel e cartão. As regiões Norte (1, 2 e 3) apresentaram uma maior abundância de lixo comparativamente às regiões do centro (4 e 5) e do Sul (6 e 7). O plástico apresentou uma ligeira tendência geográfica, evidenciando uma diminuição no sentido Norte-Sul. Foi também possível observar que as categorias de lixo mais abundante, com exceção dos aparelhos de pesca, apresentaram os menores valores na região 4 (Grande Lisboa). Também foi possível distinguir alguns padrões temporais, tendo-se registado um ligeiro aumento da categoria plástico ao longo dos anos, com a exceção de um ligeiro decréscimo nos anos de 2003 a 2006. É importante evidenciar também que o papel e cartão, registado apenas desde 2007, apresentou um decréscimo ao longo do tempo, tendo-se registado valores extremamente reduzidos em 2010. Os resultados da PERMANOVA mostraram que tanto as diferentes regiões amostradas como o ano em que as amostras foram recolhidas têm uma influência significativa na quantidade de lixo. Foram também evidenciadas diferenças entre as quantidades de lixo recolhidas em diferentes anos e em diferentes regiões. O ano de 2010 apresentou grandes diferenças em relação à grande maioria dos outros anos amostrados, assim com a região 7 (Algarve), que apresentou diferenças significativas entre todas as outras regiões, com a exceção da região 4 (Grande Lisboa). No entanto, os anos de 2003 e 2004 não apresentaram diferenças significativas com nenhum dos restantes anos amostrados. A PCO realizada explicou 72.5% da variância total, não evidenciando, no entanto, padrões muito definidos. A primeira componente principal apresenta-se positivamente correlacionada com a região 7 (Algarve), evidenciando deste modo uma correlação entre as quantidades de lixo neste região com o número de portos presente. Por fim, os resultados do teste Simper mostram que as diferenças evidenciadas entre a região 7 (Algarve) e as restantes regiões amostradas se deve principalmente à reduzida abundância de lixo recolhido nesta região, sendo que a categoria responsável pela principal percentagem de diferença foi o plástico, com exceção da região 5 (Península de Setúbal), onde o número de pneus encontrados, bastante mais elevado que nas restantes regiões, representou a percentagem maioritária das diferenças encontradas. As diferenças registadas no ano de 2010 são devidas, principalmente, às menores quantidades de papel e cartão recolhidas nesta região As categorias de lixo mais abundantes registadas neste estudo estão em concordância com vários outros estudos realizados em outras zonas do mundo. O plástico é, universalmente, o principal poluidor dos oceanos. Mesmo apresentando diferenças não muito marcadas, os resultados deste trabalho mostram que o plástico está a aumentar ao longo do tempo, na costa portuguesa. Existe ainda uma grande necessidade de monitorização a longo prazo, de forma a ser possível avaliar a quantidade, tipologia e distribuição de lixo em Portugal, e uma das grandes fraquezas dos dados recolhidos no âmbito do Projeto Coastwatch Portugal é a heterogeneidade no registo da informação, impedindo assim o seu uso como ferramenta de monitorização a longo prazo. Será necessário proceder a uma reformulação da metodologia, de forma a possibilitar o uso dos dados do Projeto Coastwatch para monitorizações a longo prazo. O questionário não deve sofrer novas alterações, e os dados referentes ao lixo marinho devem ser registados na forma de abundância, e não de categorias de abundância. Será também necessário implementar um protocolo de controlo de qualidade dos dados, de forma a evitar dados incorretos, que têm de ser eliminados posteriormente. Apesar das suas fraquezas, o Projeto Coastwatch é uma fantástica ferramenta de monitorização e educação ambiental, com resultados recolhidos em diversos anos, em diversos países europeus. Com os dados deste Projeto, foi possível com este estudo começar a entender a dinâmica do lixo marinho na costa portuguesa, assim com as principais categorias presentes na nossa costa. Sendo o plástico o principal componente do lixo marinho, tanto em Portugal como em outros países, é necessário focar as atenções neste componente em particular. Devido ao seu longo tempo de vida no ambiente marinho, é importante encontrar soluções e medidas mitigadores para este problema o mais rapidamente possível, tanto a nível nacional como a nível internacional. |
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| Autores principais: | Candeias, José Maria Pereira Bagorro |
| Assunto: | Marine litter Long term assessment Coastwatch project Teses de mestrado - 2015 |
| Ano: | 2015 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O lixo marinho captou a atenção da comunidade científica nas últimas décadas, passando a constituir um problema central na conservação do meio marinho. Associado a uma vasta diversidade de atividades humanas, que podem ocorrer tanto em zonas costeiras, como em zonas oceânicas, o lixo marinho tornou-se um problema global, de extensão e magnitude desconhecidas, que põe em risco os ecossistemas marinhos e as economias que deles dependem. A acumulação de lixo nas zonas costeiras reduz substancialmente o potencial turístico da região afetada, sendo a solução mais comumente adotada, a remoção mecânica dos detritos sólidos, economicamente insustentável a longo prazo. Desta forma, é possível observar um aumento da preocupação em relação ao lixo marinho costeiro, evidente no crescente número de estudos desenvolvidos nas praias, e também nas inúmeras iniciativas que visam mitigar este problema. O Projeto Coastwatch é um projeto europeu, desenvolvido inicialmente na Irlanda em 1988, que tem como objetivo recolher informação de base sobre a zona costeira, sendo uma das temáticas abordadas o lixo marinho. É um projeto de citizen science, que recorre ao auxílio de voluntários não cientistas para a recolha dos dados. Usando um questionário padrão, os voluntários do projeto Coastwatch, em inúmeros países da Europa, recolhem informação sobre a dinâmica costeira, fauna e flora, lixo marinho, entre outras componentes da costa, nas zonas costeiras dos países envolvidos no projeto. O objetivo da presente dissertação de mestrado foi identificar padrões espaciais e temporais na deposição de lixo na costa portuguesa, usando os dados recolhidos no âmbito do Projeto Coastwatch Portugal, entre os anos de 2001 e 2010. Devido à heterogeneidade dos questionários, os quais sofreram alterações ao longo dos anos, foi necessário proceder a uma criteriosa análise e transformação dos dados recolhidos, de forma a ser possível realizar comparações entre os diferentes anos. Todos os dados que tinham sido recolhidos na forma de abundâncias foram transformados em classes de abundância (0 itens; classe 1: 1-5 itens; classe 2: 6-50 itens; classe 3: 51-100 itens; classe 4: > 100 itens), de forma a estarem de acordo com o questionário mais recente. Devido à heterogeneidade das áreas amostradas, todos os dados foram organizados por regiões, ordenadas de 1 a 7 segundo as NUT III em vigor (1 - Minho-Lima, Cávado e Grande Porto; 2 – Baixo Vouga, Baixo Mondego e Pinhal litoral; 3 – Oeste; 4 – Grande Lisboa; 5 – Península de Setúbal; 6 – Alentejo Litoral; 7 – Algarve). As regiões 1 e 2 são compostas por mais do que uma NUT III por forma a agregar um número de amostras idêntico ao das restantes áreas. Cada região foi caracterizada tendo sido selecionadas 3 variáveis: população residente, número de estuários, número de portos e número de distritos industriais. Os dados foram analisados por ano e por região, de forma a determinar padrões e tendências, tanto temporais como espaciais. As diferenças entre as regiões e os diferentes anos foram exploradas através de uma ANOVA multivariada permutacional (PERMANOVA) e de um teste Simper. Na análise da distribuição de lixo nas diferentes regiões, ao longo do tempo, e da sua relação com as variáveis ambientais, foi realizado uma Análise de Coordenadas Principais (PCO). As categorias de lixo marinho mais abundantes na costa portuguesa foram o plástico, os aparelhos de pesca, os sacos de plástico, o vidro e o papel e cartão. As regiões Norte (1, 2 e 3) apresentaram uma maior abundância de lixo comparativamente às regiões do centro (4 e 5) e do Sul (6 e 7). O plástico apresentou uma ligeira tendência geográfica, evidenciando uma diminuição no sentido Norte-Sul. Foi também possível observar que as categorias de lixo mais abundante, com exceção dos aparelhos de pesca, apresentaram os menores valores na região 4 (Grande Lisboa). Também foi possível distinguir alguns padrões temporais, tendo-se registado um ligeiro aumento da categoria plástico ao longo dos anos, com a exceção de um ligeiro decréscimo nos anos de 2003 a 2006. É importante evidenciar também que o papel e cartão, registado apenas desde 2007, apresentou um decréscimo ao longo do tempo, tendo-se registado valores extremamente reduzidos em 2010. Os resultados da PERMANOVA mostraram que tanto as diferentes regiões amostradas como o ano em que as amostras foram recolhidas têm uma influência significativa na quantidade de lixo. Foram também evidenciadas diferenças entre as quantidades de lixo recolhidas em diferentes anos e em diferentes regiões. O ano de 2010 apresentou grandes diferenças em relação à grande maioria dos outros anos amostrados, assim com a região 7 (Algarve), que apresentou diferenças significativas entre todas as outras regiões, com a exceção da região 4 (Grande Lisboa). No entanto, os anos de 2003 e 2004 não apresentaram diferenças significativas com nenhum dos restantes anos amostrados. A PCO realizada explicou 72.5% da variância total, não evidenciando, no entanto, padrões muito definidos. A primeira componente principal apresenta-se positivamente correlacionada com a região 7 (Algarve), evidenciando deste modo uma correlação entre as quantidades de lixo neste região com o número de portos presente. Por fim, os resultados do teste Simper mostram que as diferenças evidenciadas entre a região 7 (Algarve) e as restantes regiões amostradas se deve principalmente à reduzida abundância de lixo recolhido nesta região, sendo que a categoria responsável pela principal percentagem de diferença foi o plástico, com exceção da região 5 (Península de Setúbal), onde o número de pneus encontrados, bastante mais elevado que nas restantes regiões, representou a percentagem maioritária das diferenças encontradas. As diferenças registadas no ano de 2010 são devidas, principalmente, às menores quantidades de papel e cartão recolhidas nesta região As categorias de lixo mais abundantes registadas neste estudo estão em concordância com vários outros estudos realizados em outras zonas do mundo. O plástico é, universalmente, o principal poluidor dos oceanos. Mesmo apresentando diferenças não muito marcadas, os resultados deste trabalho mostram que o plástico está a aumentar ao longo do tempo, na costa portuguesa. Existe ainda uma grande necessidade de monitorização a longo prazo, de forma a ser possível avaliar a quantidade, tipologia e distribuição de lixo em Portugal, e uma das grandes fraquezas dos dados recolhidos no âmbito do Projeto Coastwatch Portugal é a heterogeneidade no registo da informação, impedindo assim o seu uso como ferramenta de monitorização a longo prazo. Será necessário proceder a uma reformulação da metodologia, de forma a possibilitar o uso dos dados do Projeto Coastwatch para monitorizações a longo prazo. O questionário não deve sofrer novas alterações, e os dados referentes ao lixo marinho devem ser registados na forma de abundância, e não de categorias de abundância. Será também necessário implementar um protocolo de controlo de qualidade dos dados, de forma a evitar dados incorretos, que têm de ser eliminados posteriormente. Apesar das suas fraquezas, o Projeto Coastwatch é uma fantástica ferramenta de monitorização e educação ambiental, com resultados recolhidos em diversos anos, em diversos países europeus. Com os dados deste Projeto, foi possível com este estudo começar a entender a dinâmica do lixo marinho na costa portuguesa, assim com as principais categorias presentes na nossa costa. Sendo o plástico o principal componente do lixo marinho, tanto em Portugal como em outros países, é necessário focar as atenções neste componente em particular. Devido ao seu longo tempo de vida no ambiente marinho, é importante encontrar soluções e medidas mitigadores para este problema o mais rapidamente possível, tanto a nível nacional como a nível internacional. |
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