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The Socio-economic importance of the invasive West African Giant Land Snail (Archachatina marginata) in São Tomé Island

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Resumo:O fenómeno da globalização tem levado à homogeneização dos biomas da Terra, através da quebra de barreiras físicas que tem promovido a dispersão das espécies exóticas invasoras (EEI). Esta dispersão tem ocorrido a um ritmo alarmante, e muitas destas EEI têm efeitos nefastos tanto na biodiversidade, como nos serviços dos ecossistemas, na saúde humana e nas atividades económicas. Com a tendência crescente de movimentos globais de pessoas e bens, o número e os impactos das EEI deverá aumentar exponencialmente no futuro. Combater os seus impactos tem sido uma prioridade chave, não apenas na conservação, mas também em áreas como a medicina e a economia. Tem sido dada especial atenção aos ‘hotspots de invasão’, locais onde os impactos negativos são mais severos, devido às sinergias entre EEI e outras ameaças, incluindo a intensificação da agricultura, o desenvolvimento urbano e as alterações climáticas. Estes locais tendem a ser ecossistemas isolados, como as ilhas, especialmente as mais antigas, montanhosas, tropicais ou subtropicais. Embora o reconhecimento das implicações negativas dos EEI seja consensual, a escolha das medidas de gestão é frequentemente controversa e contestada. Isto porque, a mesma espécie exótica pode ter impactos negativos nalguns sectores, e simultaneamente benefícios noutros. É por isso indispensável que haja uma abordagem holística dos impactos aquando da escolha das medidas de gestão. No entanto, isso não acontece com a frequência desejada e frequentemente as avaliações são tendenciosas, destacando apenas certos efeitos negativos ou certos sectores e, por vezes, baseando-se mais em preconceitos do que em evidências científicas. Uma avaliação de impactos deficiente pode levar à escolha de medidas de gestão desadequadas, e até contraproducentes, ecologicamente, economicamente e socialmente. Como tal, é necessário abandonar o foco biocêntrico no estudo das invasões biológicas, e integrar a multidisciplinariedade na avaliação de impactos. Nomeadamente, é de extrema importância ouvir a voz das pessoas que convivem com as EEI, para compreender que impactos experienciam e de que forma interagem com estas espécies, promovendo ou diminuindo a sua distribuição. Este estudo tem por objetivo principal, compreender qual a importância duma espécie invasora, o búzio-vermelho (Archachatina marginata), para a população da ilha de São Tomé (São Tomé e Príncipe, África central). Em estudos anteriores, foi destacado o efeito negativo desta espécie invasora no búzio-d’Obô (Archachatina bicarinata), uma espécie ameaçada restrita às ilhas de São Tomé e Príncipe, alertando para a urgência em travar o declínio deste. De forma a contribuir para uma avaliação mais holística, pretendemos ouvir a voz dos santomenses sobre esta espécie, tendo como objetivos específicos: (1) obter informações sobre as características do comércio de búzio-vermelho, nomeadamente através da identificação de atores-chave; e (2) avaliar os potenciais fatores determinantes da apanha, venda e compra da espécie, tanto ao nível do agregado familiar como ao nível da comunidade. Desta forma, contribuir para informar futuras decisões de gestão relativas a esta espécie, bem como ajudar a elaborar recomendações sobre como incorporar as dimensões humanas na gestão das EEI. Foram entrevistadas 672 pessoas em 20 comunidades dispersas pela ilha. Para garantir uma amostra robusta, representativa da diversidade de São Tomé, as comunidades foram escolhidas através de uma amostragem aleatória estratificada, com base no tipo de comunidade e na sua dimensão. Os entrevistados foram escolhidos aleatoriamente, apenas um por agregado. A posteriori, as comunidades foram classificadas quanto à sua posição geográfica. Os resultados revelam um consumo generalizado de caracol, que parece ser essencial na vida quotidiana dos habitantes. A espécie é consumida pelo menos uma vez por semana na dieta de quase metade dos agregados, demonstrando que, apesar da introdução relativamente recente da espécie, os habitantes se adaptaram à sua presença. A maioria dos agregados compra o caracol que consome, o que indica a sua acessibilidade monetária. Além disso, a apanha é feita principalmente em áreas mais próximas da floresta nativa, pouco acessíveis à maioria das pessoas. A grande maioria do consumo de búzio-vermelho em São Tomé é sustentada pelos vendedores, que são uma parte diminuta da população, e que na sua maioria também coletam, obtendo o recurso com custos reduzidos. Os resultados indicam que o búzio-vermelho desempenha um papel importante na vida dos santomenses, transversal aos contextos económico, social e nutricional. Primeiro, foi demonstrada a importância económica, tanto de forma direta, através da venda do produto, gerando rendimentos, como indiretamente, permitindo reduzir as despesas domésticas através do consumo de caracol, mitigando a pobreza. Segundo, foi realçada a importância social, uma vez que beneficia sobretudo membros vulneráveis da sociedade, tais como crianças, mulheres, agregados familiares mais pobres e comunidades rurais, criando oportunidades de emprego, e uma fonte de rendimento independente. Terceiro, dada a frequência com que os santomenses consomem esta espécie, é também relevante a sua importância nutricional. Tanto pelas suas características nutricionais, uma vez que é pobre em gordura, rico em proteínas e contém ferro e quase todos os aminoácidos essenciais, como pela sua acessibilidade monetária e disponibilidade, competindo com proteínas animais de fonte doméstica e substituindo o peixe, a proteína mais consumida na ilha, quando este é mais escasso, nomeadamente na época das chuvas. Para o futuro, é necessário perceber de que forma esta espécie está a reagir à pressão exercida pela apanha. Equacionamos que o atual consumo elevado e disperso na ilha toda pode estar a exercer pressão no tamanho da população, servindo de controlo mesmo que apenas parcial. Atendendo aos fortes impactos ecológicos que são esperados desta espécie, não consideramos aconselhável deixar que a sua população seja controlada apenas pela procura. São precisas medidas mais concretas se pretendemos controlar a espécie e os seus impactos negativos, e ao mesmo tempo, assegurar que não são prejudicadas as pessoas que atualmente dependem dela. Atendendo a dispersão e abundância da espécie, a possível erradicação torna-se inviável. Além disso, a importância da espécie para a população sugere que a total erradicação não seria bem aceite pela população e que prejudicaria vários grupos vulneráveis. Parece não haver recursos disponíveis para desenvolver um projeto desta envergadura. Assim sendo, recomendamos medidas de controlo localizadas em áreas prioritárias, tais como o Parque Natural do Obô, onde abundam espécies em perigo de extinção, como o búzio-d’Obô, onde esta espécie invasora ainda não é muito frequente e onde os potenciais efeitos negativos sobre os beneficiários humanos seriam minimizados. O método exato de controlo terá de ser estudado com mais detalhe. Quanto ao futuro do comércio, é difícil determinar até que ponto as condições atuais irão persistir, uma vez que as circunstâncias ecológicas da ilha estão em mudança e os agregados familiares demonstram grande capacidade de adaptar as suas estratégias de subsistência. Uma diminuição do consumo de caracóis parece improvável a curto prazo, tendo em conta que, de acordo com os fatores identificados neste estudo, a crise social e económica causada pela pandemia COVID-19 deverá aumentar as taxas de desemprego, reduzir os rendimentos e consequentemente aumentar a dependência desta espécie. Com a tendência crescente de movimentos globais de pessoas e bens, as ilhas estão a receber cada vez mais espécies invasoras, ao mesmo tempo que as populações humanas continuam a mostrar adaptabilidade à sua presença, retirando benefícios destas. Neste contexto as avaliações holísticas e multidisciplinares de impactos, serão cada vez mais importantes para identificar medidas de controlo de EEI que minimizem o prejuízo de populações humanas.
Autores principais:Pereira, Ana Rita Canhão
Assunto:Benefícios Ciências sociais na conservação Espécies exóticas invasoras Pequenos estados insulares em desenvolvimento Produtos florestais não lenhosos Teses de mestrado - 2021
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O fenómeno da globalização tem levado à homogeneização dos biomas da Terra, através da quebra de barreiras físicas que tem promovido a dispersão das espécies exóticas invasoras (EEI). Esta dispersão tem ocorrido a um ritmo alarmante, e muitas destas EEI têm efeitos nefastos tanto na biodiversidade, como nos serviços dos ecossistemas, na saúde humana e nas atividades económicas. Com a tendência crescente de movimentos globais de pessoas e bens, o número e os impactos das EEI deverá aumentar exponencialmente no futuro. Combater os seus impactos tem sido uma prioridade chave, não apenas na conservação, mas também em áreas como a medicina e a economia. Tem sido dada especial atenção aos ‘hotspots de invasão’, locais onde os impactos negativos são mais severos, devido às sinergias entre EEI e outras ameaças, incluindo a intensificação da agricultura, o desenvolvimento urbano e as alterações climáticas. Estes locais tendem a ser ecossistemas isolados, como as ilhas, especialmente as mais antigas, montanhosas, tropicais ou subtropicais. Embora o reconhecimento das implicações negativas dos EEI seja consensual, a escolha das medidas de gestão é frequentemente controversa e contestada. Isto porque, a mesma espécie exótica pode ter impactos negativos nalguns sectores, e simultaneamente benefícios noutros. É por isso indispensável que haja uma abordagem holística dos impactos aquando da escolha das medidas de gestão. No entanto, isso não acontece com a frequência desejada e frequentemente as avaliações são tendenciosas, destacando apenas certos efeitos negativos ou certos sectores e, por vezes, baseando-se mais em preconceitos do que em evidências científicas. Uma avaliação de impactos deficiente pode levar à escolha de medidas de gestão desadequadas, e até contraproducentes, ecologicamente, economicamente e socialmente. Como tal, é necessário abandonar o foco biocêntrico no estudo das invasões biológicas, e integrar a multidisciplinariedade na avaliação de impactos. Nomeadamente, é de extrema importância ouvir a voz das pessoas que convivem com as EEI, para compreender que impactos experienciam e de que forma interagem com estas espécies, promovendo ou diminuindo a sua distribuição. Este estudo tem por objetivo principal, compreender qual a importância duma espécie invasora, o búzio-vermelho (Archachatina marginata), para a população da ilha de São Tomé (São Tomé e Príncipe, África central). Em estudos anteriores, foi destacado o efeito negativo desta espécie invasora no búzio-d’Obô (Archachatina bicarinata), uma espécie ameaçada restrita às ilhas de São Tomé e Príncipe, alertando para a urgência em travar o declínio deste. De forma a contribuir para uma avaliação mais holística, pretendemos ouvir a voz dos santomenses sobre esta espécie, tendo como objetivos específicos: (1) obter informações sobre as características do comércio de búzio-vermelho, nomeadamente através da identificação de atores-chave; e (2) avaliar os potenciais fatores determinantes da apanha, venda e compra da espécie, tanto ao nível do agregado familiar como ao nível da comunidade. Desta forma, contribuir para informar futuras decisões de gestão relativas a esta espécie, bem como ajudar a elaborar recomendações sobre como incorporar as dimensões humanas na gestão das EEI. Foram entrevistadas 672 pessoas em 20 comunidades dispersas pela ilha. Para garantir uma amostra robusta, representativa da diversidade de São Tomé, as comunidades foram escolhidas através de uma amostragem aleatória estratificada, com base no tipo de comunidade e na sua dimensão. Os entrevistados foram escolhidos aleatoriamente, apenas um por agregado. A posteriori, as comunidades foram classificadas quanto à sua posição geográfica. Os resultados revelam um consumo generalizado de caracol, que parece ser essencial na vida quotidiana dos habitantes. A espécie é consumida pelo menos uma vez por semana na dieta de quase metade dos agregados, demonstrando que, apesar da introdução relativamente recente da espécie, os habitantes se adaptaram à sua presença. A maioria dos agregados compra o caracol que consome, o que indica a sua acessibilidade monetária. Além disso, a apanha é feita principalmente em áreas mais próximas da floresta nativa, pouco acessíveis à maioria das pessoas. A grande maioria do consumo de búzio-vermelho em São Tomé é sustentada pelos vendedores, que são uma parte diminuta da população, e que na sua maioria também coletam, obtendo o recurso com custos reduzidos. Os resultados indicam que o búzio-vermelho desempenha um papel importante na vida dos santomenses, transversal aos contextos económico, social e nutricional. Primeiro, foi demonstrada a importância económica, tanto de forma direta, através da venda do produto, gerando rendimentos, como indiretamente, permitindo reduzir as despesas domésticas através do consumo de caracol, mitigando a pobreza. Segundo, foi realçada a importância social, uma vez que beneficia sobretudo membros vulneráveis da sociedade, tais como crianças, mulheres, agregados familiares mais pobres e comunidades rurais, criando oportunidades de emprego, e uma fonte de rendimento independente. Terceiro, dada a frequência com que os santomenses consomem esta espécie, é também relevante a sua importância nutricional. Tanto pelas suas características nutricionais, uma vez que é pobre em gordura, rico em proteínas e contém ferro e quase todos os aminoácidos essenciais, como pela sua acessibilidade monetária e disponibilidade, competindo com proteínas animais de fonte doméstica e substituindo o peixe, a proteína mais consumida na ilha, quando este é mais escasso, nomeadamente na época das chuvas. Para o futuro, é necessário perceber de que forma esta espécie está a reagir à pressão exercida pela apanha. Equacionamos que o atual consumo elevado e disperso na ilha toda pode estar a exercer pressão no tamanho da população, servindo de controlo mesmo que apenas parcial. Atendendo aos fortes impactos ecológicos que são esperados desta espécie, não consideramos aconselhável deixar que a sua população seja controlada apenas pela procura. São precisas medidas mais concretas se pretendemos controlar a espécie e os seus impactos negativos, e ao mesmo tempo, assegurar que não são prejudicadas as pessoas que atualmente dependem dela. Atendendo a dispersão e abundância da espécie, a possível erradicação torna-se inviável. Além disso, a importância da espécie para a população sugere que a total erradicação não seria bem aceite pela população e que prejudicaria vários grupos vulneráveis. Parece não haver recursos disponíveis para desenvolver um projeto desta envergadura. Assim sendo, recomendamos medidas de controlo localizadas em áreas prioritárias, tais como o Parque Natural do Obô, onde abundam espécies em perigo de extinção, como o búzio-d’Obô, onde esta espécie invasora ainda não é muito frequente e onde os potenciais efeitos negativos sobre os beneficiários humanos seriam minimizados. O método exato de controlo terá de ser estudado com mais detalhe. Quanto ao futuro do comércio, é difícil determinar até que ponto as condições atuais irão persistir, uma vez que as circunstâncias ecológicas da ilha estão em mudança e os agregados familiares demonstram grande capacidade de adaptar as suas estratégias de subsistência. Uma diminuição do consumo de caracóis parece improvável a curto prazo, tendo em conta que, de acordo com os fatores identificados neste estudo, a crise social e económica causada pela pandemia COVID-19 deverá aumentar as taxas de desemprego, reduzir os rendimentos e consequentemente aumentar a dependência desta espécie. Com a tendência crescente de movimentos globais de pessoas e bens, as ilhas estão a receber cada vez mais espécies invasoras, ao mesmo tempo que as populações humanas continuam a mostrar adaptabilidade à sua presença, retirando benefícios destas. Neste contexto as avaliações holísticas e multidisciplinares de impactos, serão cada vez mais importantes para identificar medidas de controlo de EEI que minimizem o prejuízo de populações humanas.