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Raccoon (Procyon lotor) in Portugal: forecasting pathways for an invasive carnivore

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Resumo:As espécies invasoras constituem um grave problema ecológico, sendo consideradas uma das cinco principais causas de perda de biodiversidade mundialmente. São responsáveis pela introdução de novas doenças e pela alteração de diferentes interações bióticas e abióticas em ecossistemas nativos. As razões pelas quais as espécies exóticas são introduzidas em novos ecossistemas são variadas, mas muitas devem-se a fugas de cativeiro ou libertações intencionais. O seu controlo com sucesso nestas áreas depende sempre do quão precoce é a sua deteção e implementação de um plano de erradicação. Um exemplo de uma espécie invasora com impactos negativos na biodiversidade nativa, é o guaxinim (Procyon lotor), um carnívoro generalista. Nativa da América do Norte e Central, esta espécie é considerada, atualmente, invasora em vários países do mundo, principalmente na Europa, onde foi detetada pela primeira vez em 1927 na Alemanha. Atuando como um vetor de zoonoses, perigosas tanto à saúde pública como à fauna nativa, e tendo uma dieta bastante flexível, este carnívoro invasor tem uma capacidade incrível de adaptação a novos ambientes, o que lhe permite prosperar num amplo espectro de habitats invadidos. Está geralmente associado a galerias ripícolas e ambientes com abundância de água, pois é nesses que encontra alimento (invertebrados, anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos) e refúgio (árvores ocas ou caídas). Assim, os rios representam rotas de dispersão importantes, conectando habitats favoráveis a esta espécie em diferentes tipos de paisagens. É também uma espécie muito associada à presença humana, aproveitando-se do lixo e de outras fontes de alimento de origem antrópica. Assim, devido ao seu comportamento e dieta pode vir a competir com diferentes carnívoros nativos e aumentar a pressão predatória a algumas espécies já ameaçadas, como o cágado de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa), o mexilhão-de rio (Margaritifera margaritifera), ou espécies de aves aquáticas, especialmente anseriformes. Na Península Ibérica existem já várias populações reprodutoras estabelecidas, todas localizadas em Espanha. A primeira área de ocorrência foi localizada perto de Madrid e Guadalajara, no centro de Espanha, tendo origem em fugas de cativeiro. A espécie foi inicialmente detetada em 2001, mas, entretanto, deram-se novos eventos de introdução, acidental ou propositada, em diferentes zonas do país. Até agora, foram registadas seis populações reprodutoras estabelecidas e vários registos isolados de guaxinins. A maior população encontra-se na região onde se deu o primeiro registo deste invasor, perto de Madrid e Guadalajara. As restantes foram registadas no Parque Nacional de Doñana (Andaluzia), Galiza, Cantábria e País Basco, e Alicante. Em Portugal, são conhecidos apenas dois registos confirmados, ambos referentes a avistamentos de indivíduos isolados no noroeste do país que escaparam das suas instalações de cativeiro, em 2008 e 2014. Face à necessidade de atualizar a distribuição deste carnívoro invasor na Península Ibérica, algo que não é feito desde 2012, recolhemos registos de guaxinim em Portugal e Espanha, de populações reprodutoras estabelecidas e indivíduos isolados em liberdade, assim como espécimes mantidos em cativeiro. Com esta informação construímos modelos estatísticos preditivos, através do software Maxent, criando mapas que assinalam quais as áreas com maior probabilidade de ocorrência de populações reprodutoras desta espécie e, assim, identificar quais as regiões mais vulneráveis para onde esta espécie se poderá expandir em Portugal. Os modelos Maxent são uma técnica de modelação de distribuição de espécies que utiliza apenas dados de presença e que, através do princípio da máxima entropia, estima a probabilidade de presença da espécie em estudo, utilizando variáveis relacionadas com a sua ecologia e os dados de presença da mesma. No decorrer do processo de modelação ecológica, avaliámos quais as variáveis ambientais determinantes para a presença de guaxinim, de modo a perceber quais melhor preveem a sua distribuição, num contexto ibérico. Após analisar as áreas mais vulneráveis em Portugal, realizámos uma prospeção de campo onde procurámos indícios de presença de guaxinins, com ajuda de uma equipa de biólogos especialistas em guaxinins e um cão pisteiro especificamente treinado para a deteção desta espécie. Colocámos também câmaras de foto-armadilhagem numa das zonas, de modo a aumentar a eficácia de deteção deste carnívoro exótico. Fizemos também, um inventário das instalações que tenham um historial de guaxinins em cativeiro por toda Península Ibérica. Finalmente, para sensibilizar a população em geral quanto ao perigo desta espécie como ameaça à biodiversidade e na tentativa de obter registos de presença da espécie através de uma abordagem de ciência-cidadã, foram também publicados dois artigos numa revista online (Wilder), onde foi solicitado aos leitores que, caso detetassem esta espécie em meio natural, comunicassem com a equipa do projeto e facultassem os dados da sua ocorrência. No total, coletámos 1090 registos de presença de guaxinim em toda a Península Ibérica entre 2005 e 2020. Destes, 1025 correspondem a registos de populações reprodutoras estabelecidas. A maior parte dos registos corresponde à grande população do centro de Espanha e provêm de animais capturados, mas foram igualmente obtidos vários registos isolados de guaxinim, alguns deles perto da fronteira com Portugal. Registámos também, na Península Ibérica, pelo menos 15 instalações que possuem, ou possuíram num passado recente, guaxinins em cativeiro. Destas, pelo menos 2 estão associadas a fugas confirmadas de guaxinins em cativeiro, mas suspeita-se que este número seja superior. Em Portugal, recolhemos informação de 8 possíveis registos desta espécie em liberdade. No entanto, não conseguimos comprovar a sua presença devido à falta de dados que corroborem os avistamentos. Em Portugal existem, pelo menos 3 instalações com presença comprovada de guaxinins em cativeiro, contudo, duas delas asseguram que têm os animais esterilizados e em nenhuma há evidências de uma possível fuga. Identificámos a proximidade com cursos de água e valores médios de precipitação anual entre 400 e 1450 mm como os melhores preditores da presença de guaxinim. Assim, regiões com estas duas características serão aquelas para onde o guaxinim se poderá expandir, e fixar, com sucesso. É no noroeste de Portugal que a maioria dos rios apresenta habitats adequados para esta espécie e, por isso, esta região é a mais vulnerável a uma possível invasão por parte do guaxinim. No entanto, a zona centro do país, junto à fronteira com Espanha também foi identificada como de risco de invasão por parte desta espécie. Durante a nossa prospeção de campo em Portugal, incidindo no noroeste e na zona centro, não encontrámos evidências da presença da espécie em Portugal, mesmo em zonas em que há registos possíveis e isolados de guaxinim, ou onde existem registos confirmados em Espanha, junto à fronteira portuguesa, nomeadamente ao longo do rio Minho, em Cáceres e na vertente galega da Serra do Gerês (Ourense). No entanto, outras zonas podem também estar sujeitas a uma invasão por este carnívoro, que utiliza os rios como rotas de dispersão, como é o caso das zonas portuguesas da bacia hidrográfica do rio Tejo, que alberga, na porção espanhola, a maior população ibérica. Portanto, é fundamental garantir que as autoridades competentes assegurem uma monitorização regular das áreas selecionadas pelos nossos modelos como altamente vulneráveis à invasão, principalmente as que ficam perto da fronteira com Espanha e das áreas próximas de instalações que alberguem guaxinins em cativeiro, uma vez que existem fugas confirmadas em Espanha e em toda a Europa neste tipo de instalações. Paralelamente, sugerimos o acompanhamento constante da situação em Espanha, em especial no que diz respeito a registos de presença de guaxinim junto à fronteira Portuguesa, para evitar ou detetar precocemente uma eventual invasão desta espécie em Portugal. Assim, será possível minimizar eventuais impactos deste carnívoro invasor na fauna nativa portuguesa.
Autores principais:Valdez, Vasco Filipe de Castro
Assunto:Conservação Espécies invasoras Maxent Modelos de Distribuição de Espécies Prevenção Teses de mestrado - 2020
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:As espécies invasoras constituem um grave problema ecológico, sendo consideradas uma das cinco principais causas de perda de biodiversidade mundialmente. São responsáveis pela introdução de novas doenças e pela alteração de diferentes interações bióticas e abióticas em ecossistemas nativos. As razões pelas quais as espécies exóticas são introduzidas em novos ecossistemas são variadas, mas muitas devem-se a fugas de cativeiro ou libertações intencionais. O seu controlo com sucesso nestas áreas depende sempre do quão precoce é a sua deteção e implementação de um plano de erradicação. Um exemplo de uma espécie invasora com impactos negativos na biodiversidade nativa, é o guaxinim (Procyon lotor), um carnívoro generalista. Nativa da América do Norte e Central, esta espécie é considerada, atualmente, invasora em vários países do mundo, principalmente na Europa, onde foi detetada pela primeira vez em 1927 na Alemanha. Atuando como um vetor de zoonoses, perigosas tanto à saúde pública como à fauna nativa, e tendo uma dieta bastante flexível, este carnívoro invasor tem uma capacidade incrível de adaptação a novos ambientes, o que lhe permite prosperar num amplo espectro de habitats invadidos. Está geralmente associado a galerias ripícolas e ambientes com abundância de água, pois é nesses que encontra alimento (invertebrados, anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos) e refúgio (árvores ocas ou caídas). Assim, os rios representam rotas de dispersão importantes, conectando habitats favoráveis a esta espécie em diferentes tipos de paisagens. É também uma espécie muito associada à presença humana, aproveitando-se do lixo e de outras fontes de alimento de origem antrópica. Assim, devido ao seu comportamento e dieta pode vir a competir com diferentes carnívoros nativos e aumentar a pressão predatória a algumas espécies já ameaçadas, como o cágado de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa), o mexilhão-de rio (Margaritifera margaritifera), ou espécies de aves aquáticas, especialmente anseriformes. Na Península Ibérica existem já várias populações reprodutoras estabelecidas, todas localizadas em Espanha. A primeira área de ocorrência foi localizada perto de Madrid e Guadalajara, no centro de Espanha, tendo origem em fugas de cativeiro. A espécie foi inicialmente detetada em 2001, mas, entretanto, deram-se novos eventos de introdução, acidental ou propositada, em diferentes zonas do país. Até agora, foram registadas seis populações reprodutoras estabelecidas e vários registos isolados de guaxinins. A maior população encontra-se na região onde se deu o primeiro registo deste invasor, perto de Madrid e Guadalajara. As restantes foram registadas no Parque Nacional de Doñana (Andaluzia), Galiza, Cantábria e País Basco, e Alicante. Em Portugal, são conhecidos apenas dois registos confirmados, ambos referentes a avistamentos de indivíduos isolados no noroeste do país que escaparam das suas instalações de cativeiro, em 2008 e 2014. Face à necessidade de atualizar a distribuição deste carnívoro invasor na Península Ibérica, algo que não é feito desde 2012, recolhemos registos de guaxinim em Portugal e Espanha, de populações reprodutoras estabelecidas e indivíduos isolados em liberdade, assim como espécimes mantidos em cativeiro. Com esta informação construímos modelos estatísticos preditivos, através do software Maxent, criando mapas que assinalam quais as áreas com maior probabilidade de ocorrência de populações reprodutoras desta espécie e, assim, identificar quais as regiões mais vulneráveis para onde esta espécie se poderá expandir em Portugal. Os modelos Maxent são uma técnica de modelação de distribuição de espécies que utiliza apenas dados de presença e que, através do princípio da máxima entropia, estima a probabilidade de presença da espécie em estudo, utilizando variáveis relacionadas com a sua ecologia e os dados de presença da mesma. No decorrer do processo de modelação ecológica, avaliámos quais as variáveis ambientais determinantes para a presença de guaxinim, de modo a perceber quais melhor preveem a sua distribuição, num contexto ibérico. Após analisar as áreas mais vulneráveis em Portugal, realizámos uma prospeção de campo onde procurámos indícios de presença de guaxinins, com ajuda de uma equipa de biólogos especialistas em guaxinins e um cão pisteiro especificamente treinado para a deteção desta espécie. Colocámos também câmaras de foto-armadilhagem numa das zonas, de modo a aumentar a eficácia de deteção deste carnívoro exótico. Fizemos também, um inventário das instalações que tenham um historial de guaxinins em cativeiro por toda Península Ibérica. Finalmente, para sensibilizar a população em geral quanto ao perigo desta espécie como ameaça à biodiversidade e na tentativa de obter registos de presença da espécie através de uma abordagem de ciência-cidadã, foram também publicados dois artigos numa revista online (Wilder), onde foi solicitado aos leitores que, caso detetassem esta espécie em meio natural, comunicassem com a equipa do projeto e facultassem os dados da sua ocorrência. No total, coletámos 1090 registos de presença de guaxinim em toda a Península Ibérica entre 2005 e 2020. Destes, 1025 correspondem a registos de populações reprodutoras estabelecidas. A maior parte dos registos corresponde à grande população do centro de Espanha e provêm de animais capturados, mas foram igualmente obtidos vários registos isolados de guaxinim, alguns deles perto da fronteira com Portugal. Registámos também, na Península Ibérica, pelo menos 15 instalações que possuem, ou possuíram num passado recente, guaxinins em cativeiro. Destas, pelo menos 2 estão associadas a fugas confirmadas de guaxinins em cativeiro, mas suspeita-se que este número seja superior. Em Portugal, recolhemos informação de 8 possíveis registos desta espécie em liberdade. No entanto, não conseguimos comprovar a sua presença devido à falta de dados que corroborem os avistamentos. Em Portugal existem, pelo menos 3 instalações com presença comprovada de guaxinins em cativeiro, contudo, duas delas asseguram que têm os animais esterilizados e em nenhuma há evidências de uma possível fuga. Identificámos a proximidade com cursos de água e valores médios de precipitação anual entre 400 e 1450 mm como os melhores preditores da presença de guaxinim. Assim, regiões com estas duas características serão aquelas para onde o guaxinim se poderá expandir, e fixar, com sucesso. É no noroeste de Portugal que a maioria dos rios apresenta habitats adequados para esta espécie e, por isso, esta região é a mais vulnerável a uma possível invasão por parte do guaxinim. No entanto, a zona centro do país, junto à fronteira com Espanha também foi identificada como de risco de invasão por parte desta espécie. Durante a nossa prospeção de campo em Portugal, incidindo no noroeste e na zona centro, não encontrámos evidências da presença da espécie em Portugal, mesmo em zonas em que há registos possíveis e isolados de guaxinim, ou onde existem registos confirmados em Espanha, junto à fronteira portuguesa, nomeadamente ao longo do rio Minho, em Cáceres e na vertente galega da Serra do Gerês (Ourense). No entanto, outras zonas podem também estar sujeitas a uma invasão por este carnívoro, que utiliza os rios como rotas de dispersão, como é o caso das zonas portuguesas da bacia hidrográfica do rio Tejo, que alberga, na porção espanhola, a maior população ibérica. Portanto, é fundamental garantir que as autoridades competentes assegurem uma monitorização regular das áreas selecionadas pelos nossos modelos como altamente vulneráveis à invasão, principalmente as que ficam perto da fronteira com Espanha e das áreas próximas de instalações que alberguem guaxinins em cativeiro, uma vez que existem fugas confirmadas em Espanha e em toda a Europa neste tipo de instalações. Paralelamente, sugerimos o acompanhamento constante da situação em Espanha, em especial no que diz respeito a registos de presença de guaxinim junto à fronteira Portuguesa, para evitar ou detetar precocemente uma eventual invasão desta espécie em Portugal. Assim, será possível minimizar eventuais impactos deste carnívoro invasor na fauna nativa portuguesa.