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Science can explain other people’s minds, but not mine : self-other differences in beliefs about science

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Resumo:As pessoas têm teorias leigas sobre a mente e sobre como esta funciona (e.g., Dweck, 1999), e também têm teorias sobre o que a ciência é capaz de explicar em relação a essa mesma mente (Fernandez-Duque, 2017; Gottlieb, 2018; Gottlieb & Lombrozo, 2017). Gottlieb e Lombrozo (2017) procuraram perceber quais eram as intuições que as pessoas tinham em relação ao potencial explicativo da ciência a respeito de vários fenómenos (e.g., amor romântico, moralidade, utilização de perceção e motricidade para alcançar objetos). Para isso, perguntaram sobre os vários fenómenos quanto é que as pessoas achavam que a ciência era capaz de explicá-los totalmente e quanto é que uma explicação científica geraria desconforto. Juntaram a isto uma exploração de potenciais moderadores que pudessem caracterizar os fenómenos como mais ou menos explicáveis e mais ou menos fora do domínio da ciência. Entre estes fatores estavam: acesso através da perspetiva de primeira pessoa, ou seja, que só a pessoa pudesse conhecer de facto a própria experiência; introspeção, ou seja, a pessoa poder conhecer a experiência através da consulta dos seus próprios pensamentos e das suas próprias emoções; tornar os humanos únicos e excecionais, ou seja, que ser capaz de uma certa faculdade mental é o que torna os humanos excecionais e que só eles têm essa habilidade; envolver controlo consciente, ou seja, que as pessoas têm vontade consciente sobre certo fenómeno e podem influenciar deliberadamente quando, como e porque é que certo fenómeno acontece. Os resultados indicaram que as explicações científicas são impossíveis e desconfortáveis quando um, ou vários, destes fatores caracterizam os fenómenos em causa. Isto até aconteceu para fenómenos que as pessoas não viveram e sobre os quais reconheciam que a sua imaginação não seria capaz de saber como era viver esses fenómenos (e.g., ser surdo e usar pela primeira vez um aparelho auditivo; Gottlieb, 2018), rejeitando a possibilidade de a ciência poder contribuir para compreender e decidir sobre viver ou não a experiência em causa, quando comparado com a própria imaginação. Mais ainda, quando consideraram os testemunhos de outras pessoas, que tinham vivido os fenómenos em causa, como adequados para saber sobre as novas experiências, preferiram usar a sua própria imaginação na tomada de decisão sobre avançar ou não para o experimentar viver essas experiências. Como sugeriu a autora, pode ser o caso que as pessoas são resistentes à possibilidade de as experiências dos outros ou de as explicações científicas serem aplicáveis a si (Gottlieb, 2018), da mesma forma e na mesma medida em que poderão ser aplicáveis aos outros. De facto, as pessoas pensam nos outros como menos complexos (Schroeder, Waytz & Epley, 2017; Waytz, Schroeder & Epley, 2014) e parecem acreditar nisto em praticamente todos os domínios (e.g., Alicke & Govorun, 2005; Dunning, Heath & Suls, 2004; Williams & Gilovich, 2008). Condutores envolvidos em acidentes que os hospitalizaram acharam serem tão bons como condutores sem acidentes (Preston & Harris, 1965) e até presos acham serem melhores que outros presos e não-presos em vários aspetos do self (Sedikides, Meek, Alicke & Taylor 2014). Ou seja, homens que cometeram diversos crimes e condutores com registo de acidentes graves, acharam ser melhores que outros, mostrando ignorar as suas circunstâncias pessoais e a realidade que é estarem presos ou terem sido hospitalizados. Para além destes, outros estudos mostraram que as pessoas acreditam, por exemplo, que o seu passado e o seu futuro são mais imprevisíveis que o passado e o futuro dos outros, que o futuro delas tem mais caminhos possíveis e que o seu comportamento é, de forma única, guiado por intenções e desejos (Pronin & Kugler, 2010); ou que os outros são mais enviesados (Kruger & Gilovich, 1999; Pronin, Lin & Ross, 2002). De particular importância, as pessoas acreditam que os estados internos dos outros são mais acessíveis que os seus (Pronin, Kruger, Savtisky & Ross, 2001). Quando estão a tentar fazer sentido de si mesmas e dos seus comportamentos, as pessoas valorizam muito a introspeção (Pronin, 2009), mas acham que a introspeção dos outros é um fator de enviesamento. Mesmo que só uma ilusão (introspection illusion; ver Nisbett & Wilson, 1977), a consideração pela própria introspeção é muito alta, especialmente para compreender o próprio e o complexo self que caracteriza a sua identidade. Posto isto, a previsão da investigação aqui apresentada é que as pessoas rejeitam a ideia que a ciência consiga explicar como é que elas pensam e o que é que sentem, quando os fenómenos em questão estão associados com um elevado potencial introspetivo. Porém, as pessoas devem estar mais dispostas a aceitar que a ciência explique melhor esses mesmo fenómenos quando estes se passam na mente dos outros, em comparação com dizerem respeito ao próprio. Os primeiros dois estudos forneceram testes correlacionais de vários potenciais moderadores desta diferença eu-outro: introspeção (de agora em diante, o fator a ter em conta), ser único, controlo consciente, e envolvimento (Gottlieb & Lombrozo, 2017). Os resultados foram os esperados: a diferença eu-outro emergiu moderada pelo fator introspeção. O terceiro estudo oferece evidência experimental direta sobre o efeito desse fator na diferença eu-outro. Assim, os resultados sugerem que as pessoas têm teorias diferentes sobre o que a ciência consegue explicar sobre si versus aquilo que a ciência consegue explicar sobre os outros. Para faculdades mentais fortemente associadas a introspeção, as pessoas acreditam que a ciência explica melhor os outros do que a si próprias. Algumas limitações são discutidas. Sobretudo, o Estudo 3 carece de algum rigor metodológico e são dadas algumas sugestões sobre como contornar alguns dos problemas, bem como complementar o trabalho realizado com outros estudos potencialmente relevantes para compreender mais profundamente o fenómeno. Na discussão, procurou-se integrar os resultados com algumas hipóteses clássicas em Psicologia Social. Primeiro, a hipótese do ator-observador sugere que, como ator, o foco da atenção está no conhecimento privado que o próprio tem sobre os seus desejos e as suas intenções em relação a aspetos situacionais aos quais a pessoa procura responder, enquanto que, como observador, o foco está no comportamento observável do ator, não tendo acesso a pistas privadas (Pronin, Gilovich & Ross, 2004). No entanto, esta hipótese não esclarece todas as dúvidas que existem quanto aos nossos resultados, bem como os dos outros trabalhos sobre diferenças eu-outro. Existe um longo debate na literatura destas diferenças entre a perspetiva motivacional e perspetiva não-motivacional (e.g. Chambers & Windschitl, 2004; Sherman & Sherman, 1999). A primeira sugere que os vieses comparativos estão ao serviço de objetivos relevantes para o próprio e outros motivos. A segunda sugere que os vieses comparativos são a consequência de características das tarefas e dos mecanismos cognitivos. Nesse sentido, são apresentadas brevemente as duas posições e discute-se a possibilidade de interação entre as duas formas de vieses. O trabalho termina com uma discussão das implicações práticas dos resultados, bem como da importância destes resultados para o papel da ciência e da comunicação científica.
Autores principais:Gouveia, Rogério Paulo Fernandes
Assunto:Epistemologia Diferenças individuais Introspecção Teses de mestrado - 2019
Ano:2019
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:As pessoas têm teorias leigas sobre a mente e sobre como esta funciona (e.g., Dweck, 1999), e também têm teorias sobre o que a ciência é capaz de explicar em relação a essa mesma mente (Fernandez-Duque, 2017; Gottlieb, 2018; Gottlieb & Lombrozo, 2017). Gottlieb e Lombrozo (2017) procuraram perceber quais eram as intuições que as pessoas tinham em relação ao potencial explicativo da ciência a respeito de vários fenómenos (e.g., amor romântico, moralidade, utilização de perceção e motricidade para alcançar objetos). Para isso, perguntaram sobre os vários fenómenos quanto é que as pessoas achavam que a ciência era capaz de explicá-los totalmente e quanto é que uma explicação científica geraria desconforto. Juntaram a isto uma exploração de potenciais moderadores que pudessem caracterizar os fenómenos como mais ou menos explicáveis e mais ou menos fora do domínio da ciência. Entre estes fatores estavam: acesso através da perspetiva de primeira pessoa, ou seja, que só a pessoa pudesse conhecer de facto a própria experiência; introspeção, ou seja, a pessoa poder conhecer a experiência através da consulta dos seus próprios pensamentos e das suas próprias emoções; tornar os humanos únicos e excecionais, ou seja, que ser capaz de uma certa faculdade mental é o que torna os humanos excecionais e que só eles têm essa habilidade; envolver controlo consciente, ou seja, que as pessoas têm vontade consciente sobre certo fenómeno e podem influenciar deliberadamente quando, como e porque é que certo fenómeno acontece. Os resultados indicaram que as explicações científicas são impossíveis e desconfortáveis quando um, ou vários, destes fatores caracterizam os fenómenos em causa. Isto até aconteceu para fenómenos que as pessoas não viveram e sobre os quais reconheciam que a sua imaginação não seria capaz de saber como era viver esses fenómenos (e.g., ser surdo e usar pela primeira vez um aparelho auditivo; Gottlieb, 2018), rejeitando a possibilidade de a ciência poder contribuir para compreender e decidir sobre viver ou não a experiência em causa, quando comparado com a própria imaginação. Mais ainda, quando consideraram os testemunhos de outras pessoas, que tinham vivido os fenómenos em causa, como adequados para saber sobre as novas experiências, preferiram usar a sua própria imaginação na tomada de decisão sobre avançar ou não para o experimentar viver essas experiências. Como sugeriu a autora, pode ser o caso que as pessoas são resistentes à possibilidade de as experiências dos outros ou de as explicações científicas serem aplicáveis a si (Gottlieb, 2018), da mesma forma e na mesma medida em que poderão ser aplicáveis aos outros. De facto, as pessoas pensam nos outros como menos complexos (Schroeder, Waytz & Epley, 2017; Waytz, Schroeder & Epley, 2014) e parecem acreditar nisto em praticamente todos os domínios (e.g., Alicke & Govorun, 2005; Dunning, Heath & Suls, 2004; Williams & Gilovich, 2008). Condutores envolvidos em acidentes que os hospitalizaram acharam serem tão bons como condutores sem acidentes (Preston & Harris, 1965) e até presos acham serem melhores que outros presos e não-presos em vários aspetos do self (Sedikides, Meek, Alicke & Taylor 2014). Ou seja, homens que cometeram diversos crimes e condutores com registo de acidentes graves, acharam ser melhores que outros, mostrando ignorar as suas circunstâncias pessoais e a realidade que é estarem presos ou terem sido hospitalizados. Para além destes, outros estudos mostraram que as pessoas acreditam, por exemplo, que o seu passado e o seu futuro são mais imprevisíveis que o passado e o futuro dos outros, que o futuro delas tem mais caminhos possíveis e que o seu comportamento é, de forma única, guiado por intenções e desejos (Pronin & Kugler, 2010); ou que os outros são mais enviesados (Kruger & Gilovich, 1999; Pronin, Lin & Ross, 2002). De particular importância, as pessoas acreditam que os estados internos dos outros são mais acessíveis que os seus (Pronin, Kruger, Savtisky & Ross, 2001). Quando estão a tentar fazer sentido de si mesmas e dos seus comportamentos, as pessoas valorizam muito a introspeção (Pronin, 2009), mas acham que a introspeção dos outros é um fator de enviesamento. Mesmo que só uma ilusão (introspection illusion; ver Nisbett & Wilson, 1977), a consideração pela própria introspeção é muito alta, especialmente para compreender o próprio e o complexo self que caracteriza a sua identidade. Posto isto, a previsão da investigação aqui apresentada é que as pessoas rejeitam a ideia que a ciência consiga explicar como é que elas pensam e o que é que sentem, quando os fenómenos em questão estão associados com um elevado potencial introspetivo. Porém, as pessoas devem estar mais dispostas a aceitar que a ciência explique melhor esses mesmo fenómenos quando estes se passam na mente dos outros, em comparação com dizerem respeito ao próprio. Os primeiros dois estudos forneceram testes correlacionais de vários potenciais moderadores desta diferença eu-outro: introspeção (de agora em diante, o fator a ter em conta), ser único, controlo consciente, e envolvimento (Gottlieb & Lombrozo, 2017). Os resultados foram os esperados: a diferença eu-outro emergiu moderada pelo fator introspeção. O terceiro estudo oferece evidência experimental direta sobre o efeito desse fator na diferença eu-outro. Assim, os resultados sugerem que as pessoas têm teorias diferentes sobre o que a ciência consegue explicar sobre si versus aquilo que a ciência consegue explicar sobre os outros. Para faculdades mentais fortemente associadas a introspeção, as pessoas acreditam que a ciência explica melhor os outros do que a si próprias. Algumas limitações são discutidas. Sobretudo, o Estudo 3 carece de algum rigor metodológico e são dadas algumas sugestões sobre como contornar alguns dos problemas, bem como complementar o trabalho realizado com outros estudos potencialmente relevantes para compreender mais profundamente o fenómeno. Na discussão, procurou-se integrar os resultados com algumas hipóteses clássicas em Psicologia Social. Primeiro, a hipótese do ator-observador sugere que, como ator, o foco da atenção está no conhecimento privado que o próprio tem sobre os seus desejos e as suas intenções em relação a aspetos situacionais aos quais a pessoa procura responder, enquanto que, como observador, o foco está no comportamento observável do ator, não tendo acesso a pistas privadas (Pronin, Gilovich & Ross, 2004). No entanto, esta hipótese não esclarece todas as dúvidas que existem quanto aos nossos resultados, bem como os dos outros trabalhos sobre diferenças eu-outro. Existe um longo debate na literatura destas diferenças entre a perspetiva motivacional e perspetiva não-motivacional (e.g. Chambers & Windschitl, 2004; Sherman & Sherman, 1999). A primeira sugere que os vieses comparativos estão ao serviço de objetivos relevantes para o próprio e outros motivos. A segunda sugere que os vieses comparativos são a consequência de características das tarefas e dos mecanismos cognitivos. Nesse sentido, são apresentadas brevemente as duas posições e discute-se a possibilidade de interação entre as duas formas de vieses. O trabalho termina com uma discussão das implicações práticas dos resultados, bem como da importância destes resultados para o papel da ciência e da comunicação científica.