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Dificuldades de aprendizagem no início da escolaridade : estudo psicológico longitudinal

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Resumo:Ao longo da minha prática como psicóloga clínica, tenho trabalhado fundamentalmente no campo da consulta psicológica e do acompanhamento psicoterapêutico. De entre os sujeitos mais vezes recebidos para avaliação, contam-se as crianças a iniciar a escolaridade que, a pouco e pouco, se revelaram para mim como um objecto de estudo e de investigação de peculiar interesse. Fui constatando que o motivo que presidia, mais frequentemente, ao envio daquelas crianças à consulta psicológica se prendia, directa ou indirectamente, com a situação escolar. O pedido podia ser veiculado pela família, médico assistente, professora, ou mesmo pela educadora infantil, quando a criança ainda não tinha iniciado a escolaridade dita obrigatória. Neste último caso, surgiam, ao longo da entrevista e entretecidas na queixa apresentada, questões relativas à maturidade para o início da aprendizagem escolar (“será que vai aprender bem?”, “será que vai conseguir estar sossegado na sala de aula para ouvir o que a professora ensina?”, “será que parecendo tão infantil terá a preparação necessária para aprender a ler e a escrever?”). Se a criança já tivesse iniciado a aprendizagem sistemática, a queixa remetia mais directamente para a situação escolar, sendo referidos quer aspectos relacionados com a aprendizagem e capacidades nela implicadas (“não acompanha o rimo normal da classe”, “parece não compreender o que lê”, “lê muito devagar e hesitantemente”, “faz muitos erros ortográficos”, “tem uma caligrafia muito desordenada, não respeita as linhas, ora sobe ora desce”, “não discorre como os colegas”) quer apontando aspectos do comportamento social e adaptação à situação escolar (“não para de se mexer e distrai-se, distraindo também os outros”, “é conflituoso com os colegas”). Perante a preocupação dos pais e dos professores, procedia a uma averiguação da história da criança, procurando pistas que pudessem esclarecer a problemática apresentada. Na avaliação psicológica, constatei, com frequência, que em muitas crianças para quem a vida escolar não corria normalmente era difícil detectar áreas específicas afetadas: apresentavam um nível intelectual que se situava dentro da média; tinham beneficiado de regular estimulação cultural; viviam com os pais, que não eram nem mais nem menos desorganizados do que outros pais; possuíam acuidade auditiva e visual adequadas; não apresentavam indícios de perturbação neurológica (quando observadas pelo neurologista, este confirmava a não existência de sintomatologia digna de diagnóstico); não manifestavam perturbação emocional tal que justificasse um tratamento. O que se passava então, verdadeiramente com essas crianças, e sobretudo, o que as distinguia das outras para quem não eram solicitadas observações psicológicas? (…)
Autores principais:Silva, Maria Eugénia Duarte, 1951-
Assunto:Aprendizagem e desenvolvimento Desenvolvimento cognitivo Dificuldades de aprendizagem Estudos longitudinais Relação interpessoal Família e escola Psicometria Teses de doutoramento - 1994
Ano:1993
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Ao longo da minha prática como psicóloga clínica, tenho trabalhado fundamentalmente no campo da consulta psicológica e do acompanhamento psicoterapêutico. De entre os sujeitos mais vezes recebidos para avaliação, contam-se as crianças a iniciar a escolaridade que, a pouco e pouco, se revelaram para mim como um objecto de estudo e de investigação de peculiar interesse. Fui constatando que o motivo que presidia, mais frequentemente, ao envio daquelas crianças à consulta psicológica se prendia, directa ou indirectamente, com a situação escolar. O pedido podia ser veiculado pela família, médico assistente, professora, ou mesmo pela educadora infantil, quando a criança ainda não tinha iniciado a escolaridade dita obrigatória. Neste último caso, surgiam, ao longo da entrevista e entretecidas na queixa apresentada, questões relativas à maturidade para o início da aprendizagem escolar (“será que vai aprender bem?”, “será que vai conseguir estar sossegado na sala de aula para ouvir o que a professora ensina?”, “será que parecendo tão infantil terá a preparação necessária para aprender a ler e a escrever?”). Se a criança já tivesse iniciado a aprendizagem sistemática, a queixa remetia mais directamente para a situação escolar, sendo referidos quer aspectos relacionados com a aprendizagem e capacidades nela implicadas (“não acompanha o rimo normal da classe”, “parece não compreender o que lê”, “lê muito devagar e hesitantemente”, “faz muitos erros ortográficos”, “tem uma caligrafia muito desordenada, não respeita as linhas, ora sobe ora desce”, “não discorre como os colegas”) quer apontando aspectos do comportamento social e adaptação à situação escolar (“não para de se mexer e distrai-se, distraindo também os outros”, “é conflituoso com os colegas”). Perante a preocupação dos pais e dos professores, procedia a uma averiguação da história da criança, procurando pistas que pudessem esclarecer a problemática apresentada. Na avaliação psicológica, constatei, com frequência, que em muitas crianças para quem a vida escolar não corria normalmente era difícil detectar áreas específicas afetadas: apresentavam um nível intelectual que se situava dentro da média; tinham beneficiado de regular estimulação cultural; viviam com os pais, que não eram nem mais nem menos desorganizados do que outros pais; possuíam acuidade auditiva e visual adequadas; não apresentavam indícios de perturbação neurológica (quando observadas pelo neurologista, este confirmava a não existência de sintomatologia digna de diagnóstico); não manifestavam perturbação emocional tal que justificasse um tratamento. O que se passava então, verdadeiramente com essas crianças, e sobretudo, o que as distinguia das outras para quem não eram solicitadas observações psicológicas? (…)