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Green turtles on the Island of Cavalos (Guinea-Bissau): abundance, nest success and experimental nest protection

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Summary:Das sete espécies extantes de tartarugas marinhas, seis possuem actualmente um estatuto de ameaça. A caça de adultos e juvenis, a morte acidental por artes de pesca e a recolecção de ovos são algumas das muitas ameaças enfrentadas por estes animais e que podem levar ao decréscimo dos seus efectivos populacionais. Como tal, existe um esforço internacional para a preservação das várias espécies de tartaruga marinhas existentes e um dos grandes focos desses esforços são os locais de desova. É nesta altura que as tartarugas estão mais facilmente acessíveis tanto para predadores (naturais e introduzidos) como para equipas de conservação. De facto, vários estudos apontam que a recuperação de algumas populações de tartarugas se deve precisamente à protecção dos seus locais de desova e ao aumento da taxa de eclosão dos seus ovos. A tartaruga verde, Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) é uma das sete espécies de tartarugas marinhas existentes actualmente. Esta espécie tem o estatuto de ameaça “Em perigo” (EN) atribuído pela IUCN desde a sua primeira avaliação desta espécie em 1982. Esta tartaruga encontra-se presente em águas tropicais e subtropicais em todo o Mundo, mas embora possua inúmeros locais de desova em quase toda a sua área de distribuição, existem alguns locais onde se pode encontrar uma densidade muito elevada de tartarugas nidificantes. Um desses locais é o Parque Nacional Marinho João Vieira e Poilão (PNMJV), no arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau onde podemos encontrar a terceira maior população de tartarugas verdes nidificantes do Oceano Atlântico e a maior população desta espécie na costa africana. Este estudo foi realizado no PNMJVP, um parque que foi criado com o intuito de proteger as populações de tartaruga verde ali nidificantes. É neste parque que encontramos a ilha de Poilão, uma pequena ilha com apenas 50 ha, onde todos os anos milhares de tartarugas vêm desovar, onde a densidade de ninhos pode ser superior a 1 ninho por metro quadrado, com um total de ninhos que em anos de maior abundância ultrapassa os 30 000. Contudo, embora nesta ilha ocorram censos anuais da população de tartarugas nidificante, as restantes ilhas do PNMJVP encontram-se relativamente pouco estudadas. O PNMJVP é composto por 4 ilhas, alguns ilhéus e bancos de areia e a água que as envolve, possuindo ao todo 450 km2 de área. Dessas quatro ilhas, para além de Poilão, apenas na ilha de João Vieira foi quantificada a população nidificante de tartarugas, com um total estimado de 596 ninhos em 2011, bastante diferente dos mais de 30 000 ninhos estimados para Poilão no mesmo ano. Nas restantes ilhas (Cavalos e Meio), nunca foi feito um estudo científico direccionado às populações de tartarugas. As ilhas do PNMJVP são sagradas para os Bijagós da ilha vizinha (Canhabaque), sendo propriedade tradicional de quatro aldeias (tabancas) da mesma. Embora as quatro ilhas sejam sagradas e desempenhem um papel fundamental no ritual de passagem à idade adulta praticado pelos bijagós (o “fanado”), existem normas de conduta diferentes entre as várias ilhas. Enquanto que em Poilão é proibido o derramamento de sangue e o corte da vegetação, essas regras relaxam nas outras ilhas. Em Cavalos já não existem regras contra o derramamento de sangue, embora não seja permitida a entrada na floresta a quem não passou ainda pelo ritual do “fanado”. Finalmente, nas ilhas de João Vieira e Meio, é praticado “m’pam pam”, uma prática de agricultura itinerante de arroz que envolve o uso de queimadas e o corte da vegetação nativa, intervalada por alguns anos (a duração do intervalo é variável) durante os quais na zona intervencionada existe crescimento de floresta secundária. Na ilha de Cavalos, existem porcos ferais, Sus scrofa (Linnaeus 1758), que se pensa terem sido introduzidos pelos nativos das ilhas vizinhas e cujo impacto na população de tartarugas é desconhecido. No primeiro capítulo desta tese foi feita uma estimativa do número total de tartarugas que utilizaram a ilha de Cavalos como local de nidificação em 2016. Esse valor foi comparado com a intensidade de utilização das ilhas de João Vieira e Poilão, podendo-se assim determinar que a ilha de Cavalos tem uma importância intermédia entre João Vieira e Poilão, com mais de 2000 ninhos estimados para esse ano. Foi feita também uma análise da utilização das diferentes zonas da ilha e dos seus habitats. As tartarugas não utilizaram a ilha por igual, evitando a costa sul e concentrando os seus ninhos nas dunas da costa sudeste. O sucesso de nidificação em Cavalos foi aproximadamente metade do registado em João Vieira e em Poilão (cerca de 35% em Cavalos e 70% nas outras ilhas). Pensamos que essa diferença possa dever-se às características da costa de Cavalos, que em grande parte da sua extensão não apresenta habitat propício para a desova, visto que na maré alta o mar sobe até à floresta. Para além de estudar as dinâmicas de desova na ilha, foi feita uma análise focada nos predadores dos ninhos de tartaruga. Em Cavalos, os varanos, Varanus niloticus (Linnaeus 1758) foram responsáveis por grande parte da predação, predando 30% dos ninhos monitorizados. Foi também registada predação por parte de caranguejos fantasma, Ocypode cursor (Linnaeus 1758) que predaram apenas 6% dos ninhos. Os porcos ferais, cujo impacto nos ninhos de tartaruga era desconhecido, não predaram nem perturbaram quaisquer ninhos, sendo que em 32 dias apenas foram encontrados 9 indícios de actividade de porcos na praia (pegadas e avistamentos). Conseguimos também determinar, através de uma regressão binomial, que a proximidade à vegetação aumenta a probabilidade de os ninhos serem predados por varanos. No segundo capítulo desta tese, foi feito um estudo direccionado à predação dos ninhos pelos varanos. Foram testados 3 métodos de protecção de ninhos, um baseado numa máscara odorífera, outro baseado na camuflagem visual dos ninhos e por fim um método de protecção com redes, já com efeitos comprovados noutras praias de nidificação. Os três métodos de protecção resultaram numa redução do total de ninhos predados de 30% para aproximadamente metade. Contudo, essas diferenças não foram estatisticamente significativas, embora os “p-value” se encontrem muito próximos do limite de 0.05. Para além disso, foi feito um teste com 2 tipos de ninhos artificiais: no primeiro foram usados ovos verdadeiros de tartaruga de forma a deixar pistas odoríferas para os predadores de tartarugas, mas visualmente os “ninhos” foram camuflados de forma a não deixar pistas visuais. No segundo conjunto foi feito o oposto. Os “ninhos”, embora não possuíssem ovos no seu interior, foram construídos de forma a terem o aspecto de ninhos verdadeiros, de maneira a providenciar apenas pistas visuais para os predadores. Os varanos foram capazes de detectar e predar os “ninhos” com ovos no seu interior, contudo não reagiram aos “ninhos” falsos sem ovos. Isto sugere que os varanos se baseiam principalmente no olfacto para detectar os ninhos. Considerando que os tratamentos de protecção de ninhos tiveram reduções similares na predação e visto que os varanos se baseiam principalmente no olfacto para a detecção de presas, o uso de uma máscara de cheiro parece ser um método a considerar na protecção de ninhos. Este resultado é importante pois a protecção de ninhos contra predadores naturais e introduzidos é uma tarefa morosa e dispendiosa quando se usam redes de metal, e o uso de máscaras de cheiro permite reduzir consideravelmente os custos e tempo envolvidos neste processo. Esta foi a primeira vez que foi feito um estudo científico direccionado às tartarugas marinhas na ilha de Cavalos. Os resultados deste estudo permitem uma melhor compreensão da importância que o PNMJVP tem para as populações de tartarugas marinhas da Guiné-Bissau.
Main Authors:Sampaio, Manuel Maria Arauz da Sá
Subject:Protecção de ninhos Espécies exóticas Pistas de predação Ovos de tartaruga Lagartos varanos Teses de mestrado - 2018
Year:2018
Country:Portugal
Document type:master thesis
Access type:open access
Associated institution:Universidade de Lisboa
Language:English
Origin:Repositório da Universidade de Lisboa
Description
Summary:Das sete espécies extantes de tartarugas marinhas, seis possuem actualmente um estatuto de ameaça. A caça de adultos e juvenis, a morte acidental por artes de pesca e a recolecção de ovos são algumas das muitas ameaças enfrentadas por estes animais e que podem levar ao decréscimo dos seus efectivos populacionais. Como tal, existe um esforço internacional para a preservação das várias espécies de tartaruga marinhas existentes e um dos grandes focos desses esforços são os locais de desova. É nesta altura que as tartarugas estão mais facilmente acessíveis tanto para predadores (naturais e introduzidos) como para equipas de conservação. De facto, vários estudos apontam que a recuperação de algumas populações de tartarugas se deve precisamente à protecção dos seus locais de desova e ao aumento da taxa de eclosão dos seus ovos. A tartaruga verde, Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) é uma das sete espécies de tartarugas marinhas existentes actualmente. Esta espécie tem o estatuto de ameaça “Em perigo” (EN) atribuído pela IUCN desde a sua primeira avaliação desta espécie em 1982. Esta tartaruga encontra-se presente em águas tropicais e subtropicais em todo o Mundo, mas embora possua inúmeros locais de desova em quase toda a sua área de distribuição, existem alguns locais onde se pode encontrar uma densidade muito elevada de tartarugas nidificantes. Um desses locais é o Parque Nacional Marinho João Vieira e Poilão (PNMJV), no arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau onde podemos encontrar a terceira maior população de tartarugas verdes nidificantes do Oceano Atlântico e a maior população desta espécie na costa africana. Este estudo foi realizado no PNMJVP, um parque que foi criado com o intuito de proteger as populações de tartaruga verde ali nidificantes. É neste parque que encontramos a ilha de Poilão, uma pequena ilha com apenas 50 ha, onde todos os anos milhares de tartarugas vêm desovar, onde a densidade de ninhos pode ser superior a 1 ninho por metro quadrado, com um total de ninhos que em anos de maior abundância ultrapassa os 30 000. Contudo, embora nesta ilha ocorram censos anuais da população de tartarugas nidificante, as restantes ilhas do PNMJVP encontram-se relativamente pouco estudadas. O PNMJVP é composto por 4 ilhas, alguns ilhéus e bancos de areia e a água que as envolve, possuindo ao todo 450 km2 de área. Dessas quatro ilhas, para além de Poilão, apenas na ilha de João Vieira foi quantificada a população nidificante de tartarugas, com um total estimado de 596 ninhos em 2011, bastante diferente dos mais de 30 000 ninhos estimados para Poilão no mesmo ano. Nas restantes ilhas (Cavalos e Meio), nunca foi feito um estudo científico direccionado às populações de tartarugas. As ilhas do PNMJVP são sagradas para os Bijagós da ilha vizinha (Canhabaque), sendo propriedade tradicional de quatro aldeias (tabancas) da mesma. Embora as quatro ilhas sejam sagradas e desempenhem um papel fundamental no ritual de passagem à idade adulta praticado pelos bijagós (o “fanado”), existem normas de conduta diferentes entre as várias ilhas. Enquanto que em Poilão é proibido o derramamento de sangue e o corte da vegetação, essas regras relaxam nas outras ilhas. Em Cavalos já não existem regras contra o derramamento de sangue, embora não seja permitida a entrada na floresta a quem não passou ainda pelo ritual do “fanado”. Finalmente, nas ilhas de João Vieira e Meio, é praticado “m’pam pam”, uma prática de agricultura itinerante de arroz que envolve o uso de queimadas e o corte da vegetação nativa, intervalada por alguns anos (a duração do intervalo é variável) durante os quais na zona intervencionada existe crescimento de floresta secundária. Na ilha de Cavalos, existem porcos ferais, Sus scrofa (Linnaeus 1758), que se pensa terem sido introduzidos pelos nativos das ilhas vizinhas e cujo impacto na população de tartarugas é desconhecido. No primeiro capítulo desta tese foi feita uma estimativa do número total de tartarugas que utilizaram a ilha de Cavalos como local de nidificação em 2016. Esse valor foi comparado com a intensidade de utilização das ilhas de João Vieira e Poilão, podendo-se assim determinar que a ilha de Cavalos tem uma importância intermédia entre João Vieira e Poilão, com mais de 2000 ninhos estimados para esse ano. Foi feita também uma análise da utilização das diferentes zonas da ilha e dos seus habitats. As tartarugas não utilizaram a ilha por igual, evitando a costa sul e concentrando os seus ninhos nas dunas da costa sudeste. O sucesso de nidificação em Cavalos foi aproximadamente metade do registado em João Vieira e em Poilão (cerca de 35% em Cavalos e 70% nas outras ilhas). Pensamos que essa diferença possa dever-se às características da costa de Cavalos, que em grande parte da sua extensão não apresenta habitat propício para a desova, visto que na maré alta o mar sobe até à floresta. Para além de estudar as dinâmicas de desova na ilha, foi feita uma análise focada nos predadores dos ninhos de tartaruga. Em Cavalos, os varanos, Varanus niloticus (Linnaeus 1758) foram responsáveis por grande parte da predação, predando 30% dos ninhos monitorizados. Foi também registada predação por parte de caranguejos fantasma, Ocypode cursor (Linnaeus 1758) que predaram apenas 6% dos ninhos. Os porcos ferais, cujo impacto nos ninhos de tartaruga era desconhecido, não predaram nem perturbaram quaisquer ninhos, sendo que em 32 dias apenas foram encontrados 9 indícios de actividade de porcos na praia (pegadas e avistamentos). Conseguimos também determinar, através de uma regressão binomial, que a proximidade à vegetação aumenta a probabilidade de os ninhos serem predados por varanos. No segundo capítulo desta tese, foi feito um estudo direccionado à predação dos ninhos pelos varanos. Foram testados 3 métodos de protecção de ninhos, um baseado numa máscara odorífera, outro baseado na camuflagem visual dos ninhos e por fim um método de protecção com redes, já com efeitos comprovados noutras praias de nidificação. Os três métodos de protecção resultaram numa redução do total de ninhos predados de 30% para aproximadamente metade. Contudo, essas diferenças não foram estatisticamente significativas, embora os “p-value” se encontrem muito próximos do limite de 0.05. Para além disso, foi feito um teste com 2 tipos de ninhos artificiais: no primeiro foram usados ovos verdadeiros de tartaruga de forma a deixar pistas odoríferas para os predadores de tartarugas, mas visualmente os “ninhos” foram camuflados de forma a não deixar pistas visuais. No segundo conjunto foi feito o oposto. Os “ninhos”, embora não possuíssem ovos no seu interior, foram construídos de forma a terem o aspecto de ninhos verdadeiros, de maneira a providenciar apenas pistas visuais para os predadores. Os varanos foram capazes de detectar e predar os “ninhos” com ovos no seu interior, contudo não reagiram aos “ninhos” falsos sem ovos. Isto sugere que os varanos se baseiam principalmente no olfacto para detectar os ninhos. Considerando que os tratamentos de protecção de ninhos tiveram reduções similares na predação e visto que os varanos se baseiam principalmente no olfacto para a detecção de presas, o uso de uma máscara de cheiro parece ser um método a considerar na protecção de ninhos. Este resultado é importante pois a protecção de ninhos contra predadores naturais e introduzidos é uma tarefa morosa e dispendiosa quando se usam redes de metal, e o uso de máscaras de cheiro permite reduzir consideravelmente os custos e tempo envolvidos neste processo. Esta foi a primeira vez que foi feito um estudo científico direccionado às tartarugas marinhas na ilha de Cavalos. Os resultados deste estudo permitem uma melhor compreensão da importância que o PNMJVP tem para as populações de tartarugas marinhas da Guiné-Bissau.