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Labirintos da justiça na escola : representações e práticas de alunos e professores

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Resumo:No contexto hegemónico das políticas neoliberais, a União Europeia e a OCDE têm emitido orientações para a educação que encontraram acolhimento nas políticas educativas portuguesas. A argumentação que fundamenta estas orientações parece tentar a conciliação entre finalidades economicistas e finalidades sociais da educação. Por um lado, uma lógica de inclusão justifica medidas educativas que permitam a redução do insucesso e do abandono escolares; a recuperação do programa de “territorialização de políticas educativas de intervenção prioritária” inscreve-se nesta lógica. Por outro, uma lógica de competição justifica medidas selectivas de acordo com critérios meritocráticos. Esta dupla orientação transporta para a escola um conflito de interesses cujo sentido de justiça é notório e que se constitui, por isso como um problema de justiça educativa. São as seguintes as questões orientadoras do estudo: (1) Que princípios de justiça presidem à organização das práticas e à distribuição dos bens educativos? (2) Em que medida, e por que formas as representações de justiça e as práticas e interacções de alunos e professores concorrem para a emergência de uma justiça que seja dominante na escola? (3) Há diferenças entre escolas relativamente às concepções de justiça? É na área temática da justiça educativa que este estudo se situa. Tem como objectivos principais a caracterização normativa da escola emergente dos documentos reguladores e a compreensão das interpretações de justiça que alunos e professores constroem em relação às suas experiências escolares. A finalidade pretendida é a caracterização da escola no que diz respeito às dinâmicas de justiça resultantes da conjugação dos vários factores que aí confluem. A ética filosófica, a filosofia política e a sociologia, assim como as mais relevantes teorizações de justiça educativa e escolar são as fontes em que se inspiram quer a problematização quer a interpretação analítica dos resultados. Três linhas de análise interpretativa são definidas: a primeira tem por objecto as subjectividades manifestas nas práticas e no discurso dos alunos e dos professores sobre as experiências escolares, interpretadas em termos de justiça. A segunda linha de análise focaliza-se na influência das políticas educativas nacionais e europeias na normatividade e nas práticas escolares. A terceira problematiza as orientações de cada escola à luz das teorizações de justiça educativa, por um lado e, por outro, à luz das implicações nas políticas de coesão social. A opção metodológica foi o estudo de caso, desenvolvido em duas escolas secundárias com terceiro ciclo implantadas em meios sociais contrastantes. Conjugam-se processos quantitativos (questionário) e qualitativos (análise documental, entrevistas, observação não participante) de recolha e análise de dados. Os resultados mostram que, para os professores, a justiça como equidade é a mais relevante, enquanto os alunos parecem preferir o cuidar e a igualdade. As escolas apresentam diferentes entendimentos da justiça, a saber: numa, a justiça como cuidar assume formas acentuadamente familiares, como alimentação, cuidados de saúde e segurança; a diferenciação visa a satisfação de necessidades e interesses específicos dos alunos. O projecto educativo manifesta preocupações sociais e contempla oferta curricular orientada para a empregabilidade dos jovens. A escola reflecte uma imagem de diversidade e inclusividade. Na outra escola, a justiça dominante focaliza-se no sucesso e no mérito; a finalidade principal da escola é a preparação dos alunos para o prosseguimento de estudos universitários e, ao mesmo tempo, a sua educação como cidadãos plenos. A cultura de escola visa a construção duma imagem externa de respeito e prestígio. Este estudo contribui para a caracterização e diferenciação das escolas no que diz respeito ao ethos e a justiças nelas dominantes. Contudo, o aprofundamento da investigação seria vantajoso, de modo a desenvolver estudos mais amplos, a nível nacional, em diferentes contextos escolares.
Autores principais:Bernardes Seiça, Aline
Assunto:Teses de doutoramento - 2015
Ano:2015
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:No contexto hegemónico das políticas neoliberais, a União Europeia e a OCDE têm emitido orientações para a educação que encontraram acolhimento nas políticas educativas portuguesas. A argumentação que fundamenta estas orientações parece tentar a conciliação entre finalidades economicistas e finalidades sociais da educação. Por um lado, uma lógica de inclusão justifica medidas educativas que permitam a redução do insucesso e do abandono escolares; a recuperação do programa de “territorialização de políticas educativas de intervenção prioritária” inscreve-se nesta lógica. Por outro, uma lógica de competição justifica medidas selectivas de acordo com critérios meritocráticos. Esta dupla orientação transporta para a escola um conflito de interesses cujo sentido de justiça é notório e que se constitui, por isso como um problema de justiça educativa. São as seguintes as questões orientadoras do estudo: (1) Que princípios de justiça presidem à organização das práticas e à distribuição dos bens educativos? (2) Em que medida, e por que formas as representações de justiça e as práticas e interacções de alunos e professores concorrem para a emergência de uma justiça que seja dominante na escola? (3) Há diferenças entre escolas relativamente às concepções de justiça? É na área temática da justiça educativa que este estudo se situa. Tem como objectivos principais a caracterização normativa da escola emergente dos documentos reguladores e a compreensão das interpretações de justiça que alunos e professores constroem em relação às suas experiências escolares. A finalidade pretendida é a caracterização da escola no que diz respeito às dinâmicas de justiça resultantes da conjugação dos vários factores que aí confluem. A ética filosófica, a filosofia política e a sociologia, assim como as mais relevantes teorizações de justiça educativa e escolar são as fontes em que se inspiram quer a problematização quer a interpretação analítica dos resultados. Três linhas de análise interpretativa são definidas: a primeira tem por objecto as subjectividades manifestas nas práticas e no discurso dos alunos e dos professores sobre as experiências escolares, interpretadas em termos de justiça. A segunda linha de análise focaliza-se na influência das políticas educativas nacionais e europeias na normatividade e nas práticas escolares. A terceira problematiza as orientações de cada escola à luz das teorizações de justiça educativa, por um lado e, por outro, à luz das implicações nas políticas de coesão social. A opção metodológica foi o estudo de caso, desenvolvido em duas escolas secundárias com terceiro ciclo implantadas em meios sociais contrastantes. Conjugam-se processos quantitativos (questionário) e qualitativos (análise documental, entrevistas, observação não participante) de recolha e análise de dados. Os resultados mostram que, para os professores, a justiça como equidade é a mais relevante, enquanto os alunos parecem preferir o cuidar e a igualdade. As escolas apresentam diferentes entendimentos da justiça, a saber: numa, a justiça como cuidar assume formas acentuadamente familiares, como alimentação, cuidados de saúde e segurança; a diferenciação visa a satisfação de necessidades e interesses específicos dos alunos. O projecto educativo manifesta preocupações sociais e contempla oferta curricular orientada para a empregabilidade dos jovens. A escola reflecte uma imagem de diversidade e inclusividade. Na outra escola, a justiça dominante focaliza-se no sucesso e no mérito; a finalidade principal da escola é a preparação dos alunos para o prosseguimento de estudos universitários e, ao mesmo tempo, a sua educação como cidadãos plenos. A cultura de escola visa a construção duma imagem externa de respeito e prestígio. Este estudo contribui para a caracterização e diferenciação das escolas no que diz respeito ao ethos e a justiças nelas dominantes. Contudo, o aprofundamento da investigação seria vantajoso, de modo a desenvolver estudos mais amplos, a nível nacional, em diferentes contextos escolares.