Publicação
Estudo da actividade eferente do sistema nervoso autónomo na nefrolitíase recorrente
| Resumo: | A nefrolitíase é uma doença comum nas sociedades desenvolvidas. Demonstrou-se a associação da litíase renal com algumas doenças metabólicas e cardiovasculares, tais como a hipertensão, a obesidade e a diabetes Mellitus. Demonstrou-se que os indivíduos com cálculos renais apresentam maior probabilidade de sofrer enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. A ligação da nefrolitíase e o risco cardiovascular não se encontra completamente esclarecida mas aceita-se que, em muitos indivíduos, a nefrolitíase seja uma manifestação clínica precoce de um ambiente adverso mais generalizado, o que aumentaria a prevalência de comorbilidades. Neste trabalho realizámos uma extensa revisão bibliográfica das diferentes hipóteses explicativas para a maior prevalência de doença cardiovascular nos doentes com litíase renal, com maior incidência nas alterações metabólicas que têm sido sugeridas para explicar a maior prevalência de hipertensão, tais como a obesidade e a síndrome metabólica, bem como as possíveis relações entre a hipertensão e alguns factores de risco para a nefrolitíase, como a hipercalciúria e hiperuricosúria. Estudámos uma hipótese inovadora na tentativa de explicar a associação de nefrolitíase com doença cardiovascular: a actividade do sistema nervoso autónomo, cuja influência no desenvolvimento da hipertensão e outras doenças cardiovasculares tem sido referida nos últimos anos. Descreveram-se manifestações de disfunção autonómica em várias comorbidades frequentemente observadas em doentes com cálculos renais. Efectuámos um conjunto de estudos originais para testar a hipótese de uma associação entre disfunção autonómica e nefrolitíase, incluindo um estudo clínico em doentes com nefrolitíase idiopática recorrente. Este teve um desenho caso-controlo e consistiu na realização dum conjunto de cinco provas autonómicas destinadas a avaliar a actividade autonómica eferente. Usaram-se métodos não invasivos baseados na análise da variabilidade da frequência cardíaca e da pressão arterial no domínio do tempo, com recurso a uma adaptação do protocolo de Ewing, e no domínio tempo frequência, com a transformada wavelets e a transformada de Hilbert-Huang. Este estudo documentou anomalias subtis da actividade autonómica em todos os doentes com nefrolitíase. A disfunção autonómica caracterizou-se por hiperactividade do ramo simpático do sistema nervoso autónomo em resposta a vários estímulos e por diminuição do cardioreflexo simpático em resposta ao teste de ortostatismo passivo. A hiperactividade simpática foi responsável por um aumento da pressão arterial na maioria dos pacientes com nefrolitíase. A análise dos resultados no domínio do tempo não demonstrou alterações significativas da actividade parassimpática mas as análises efectuadas no domínio tempo-frequência permitiram identificar alterações subtis no controle vagal da frequência cardíaca. Associámos a disfunção autonómica a algumas comorbilidades existentes no grupo de doentes, principalmente com a existência de antecedentes de hipertensão e obesidade. Além da obesidade, também associámos a diminuição do controle parassimpático da frequência cardíaca com o aumento da excreção urinária de ácido úrico, um dos principais factores de risco para a nefrolitíase recorrente. Não relacionámos a diminuição do cardioreflexo simpático em resposta ao ortostatismo com qualquer factor independente. No nosso estudo, verificámos que os ratos Zucker obesos não desenvolveram espontaneamente cálculos renais pelo que modelo animal de obesidade não foi utilizado nas restantes experiências. Realizámos três estudos em animais com base no modelo experimental de litíase renal induzida em ratos por tratamento com calcitriol e etileno glicol. Num destes, encontrámos um menor controlo simpático da frequência cardíaca e uma grande diminuição do baroreflexo nos ratos com nefrolitíase comparativamente com os ratos do grupo de controlo. Noutro estudo, encontrámos um aumento significativo na actividade basal do nervo renal nos ratos com nefrolitíase quando comparados com ratos do grupo de controlo. Neste estudo, a obstrução urinária subaguda, obtida por 20 minutos de bloqueio do ureter, provocou uma diminuição significativa da actividade do nervo renal ipsilateral no grupo de ratos com nefrolitíase. Consideramos que a demonstração do aumento da actividade nervosa basal nos ratos com nefrolitíase seria um argumento favorável à hipótese de envolvimento da disfunção autonómica. Os resultados sugeriram que o aumento da actividade no nervo renal nos ratos com nefrolitíase não seria totalmente explicado pela obstrução provocada pelos cálculos renais. Efectuámos um conjunto de experiências com um modelo de desenervação renal unilateral em ratos com nefrolitíase induzida por calcitriol e etileno glicol. Neste modelo, seccionámos as fibras nervosas que enervam o rim esquerdo e mantivemos íntegra a enervação do rim contralateral que foi utilizado como controlo. Os ratos recuperaram completamente da cirurgia de desenervação antes de iniciar o tratamento com medicamentos litogénicos. Após quatro semanas de tratamento, os animais foram sacrificados e os rins analisados com o objectivo de comparar as lesões histológicas nos rins desnervados e nos rins de controlo. Este estudo não demonstrou o efeito da desenervação renal na litogénese ou nas lesões renais associadas à presença de cálculos renais. Descrevemos neste trabalho os aspectos histológicos dos rins enervados e desenervados. Apesar das limitações inerentes à extrapolação dos resultados de estudos em animais para a nefrolitíase humana, os nossos resultados confirmam uma disfunção autonómica no modelo do rato de nefrolitíase e representam os primeiros estudos da função autonómica em modelos animais de nefrolitíase experimental. |
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| Autores principais: | Domingos, Fernando Manuel Pinto Ferreira, 1958- |
| Assunto: | Nefrolitíase Rim Doenças cardiovasculares Sistema nervoso autónomo Fisiologia Teses de doutoramento - 2012 |
| Ano: | 2012 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A nefrolitíase é uma doença comum nas sociedades desenvolvidas. Demonstrou-se a associação da litíase renal com algumas doenças metabólicas e cardiovasculares, tais como a hipertensão, a obesidade e a diabetes Mellitus. Demonstrou-se que os indivíduos com cálculos renais apresentam maior probabilidade de sofrer enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. A ligação da nefrolitíase e o risco cardiovascular não se encontra completamente esclarecida mas aceita-se que, em muitos indivíduos, a nefrolitíase seja uma manifestação clínica precoce de um ambiente adverso mais generalizado, o que aumentaria a prevalência de comorbilidades. Neste trabalho realizámos uma extensa revisão bibliográfica das diferentes hipóteses explicativas para a maior prevalência de doença cardiovascular nos doentes com litíase renal, com maior incidência nas alterações metabólicas que têm sido sugeridas para explicar a maior prevalência de hipertensão, tais como a obesidade e a síndrome metabólica, bem como as possíveis relações entre a hipertensão e alguns factores de risco para a nefrolitíase, como a hipercalciúria e hiperuricosúria. Estudámos uma hipótese inovadora na tentativa de explicar a associação de nefrolitíase com doença cardiovascular: a actividade do sistema nervoso autónomo, cuja influência no desenvolvimento da hipertensão e outras doenças cardiovasculares tem sido referida nos últimos anos. Descreveram-se manifestações de disfunção autonómica em várias comorbidades frequentemente observadas em doentes com cálculos renais. Efectuámos um conjunto de estudos originais para testar a hipótese de uma associação entre disfunção autonómica e nefrolitíase, incluindo um estudo clínico em doentes com nefrolitíase idiopática recorrente. Este teve um desenho caso-controlo e consistiu na realização dum conjunto de cinco provas autonómicas destinadas a avaliar a actividade autonómica eferente. Usaram-se métodos não invasivos baseados na análise da variabilidade da frequência cardíaca e da pressão arterial no domínio do tempo, com recurso a uma adaptação do protocolo de Ewing, e no domínio tempo frequência, com a transformada wavelets e a transformada de Hilbert-Huang. Este estudo documentou anomalias subtis da actividade autonómica em todos os doentes com nefrolitíase. A disfunção autonómica caracterizou-se por hiperactividade do ramo simpático do sistema nervoso autónomo em resposta a vários estímulos e por diminuição do cardioreflexo simpático em resposta ao teste de ortostatismo passivo. A hiperactividade simpática foi responsável por um aumento da pressão arterial na maioria dos pacientes com nefrolitíase. A análise dos resultados no domínio do tempo não demonstrou alterações significativas da actividade parassimpática mas as análises efectuadas no domínio tempo-frequência permitiram identificar alterações subtis no controle vagal da frequência cardíaca. Associámos a disfunção autonómica a algumas comorbilidades existentes no grupo de doentes, principalmente com a existência de antecedentes de hipertensão e obesidade. Além da obesidade, também associámos a diminuição do controle parassimpático da frequência cardíaca com o aumento da excreção urinária de ácido úrico, um dos principais factores de risco para a nefrolitíase recorrente. Não relacionámos a diminuição do cardioreflexo simpático em resposta ao ortostatismo com qualquer factor independente. No nosso estudo, verificámos que os ratos Zucker obesos não desenvolveram espontaneamente cálculos renais pelo que modelo animal de obesidade não foi utilizado nas restantes experiências. Realizámos três estudos em animais com base no modelo experimental de litíase renal induzida em ratos por tratamento com calcitriol e etileno glicol. Num destes, encontrámos um menor controlo simpático da frequência cardíaca e uma grande diminuição do baroreflexo nos ratos com nefrolitíase comparativamente com os ratos do grupo de controlo. Noutro estudo, encontrámos um aumento significativo na actividade basal do nervo renal nos ratos com nefrolitíase quando comparados com ratos do grupo de controlo. Neste estudo, a obstrução urinária subaguda, obtida por 20 minutos de bloqueio do ureter, provocou uma diminuição significativa da actividade do nervo renal ipsilateral no grupo de ratos com nefrolitíase. Consideramos que a demonstração do aumento da actividade nervosa basal nos ratos com nefrolitíase seria um argumento favorável à hipótese de envolvimento da disfunção autonómica. Os resultados sugeriram que o aumento da actividade no nervo renal nos ratos com nefrolitíase não seria totalmente explicado pela obstrução provocada pelos cálculos renais. Efectuámos um conjunto de experiências com um modelo de desenervação renal unilateral em ratos com nefrolitíase induzida por calcitriol e etileno glicol. Neste modelo, seccionámos as fibras nervosas que enervam o rim esquerdo e mantivemos íntegra a enervação do rim contralateral que foi utilizado como controlo. Os ratos recuperaram completamente da cirurgia de desenervação antes de iniciar o tratamento com medicamentos litogénicos. Após quatro semanas de tratamento, os animais foram sacrificados e os rins analisados com o objectivo de comparar as lesões histológicas nos rins desnervados e nos rins de controlo. Este estudo não demonstrou o efeito da desenervação renal na litogénese ou nas lesões renais associadas à presença de cálculos renais. Descrevemos neste trabalho os aspectos histológicos dos rins enervados e desenervados. Apesar das limitações inerentes à extrapolação dos resultados de estudos em animais para a nefrolitíase humana, os nossos resultados confirmam uma disfunção autonómica no modelo do rato de nefrolitíase e representam os primeiros estudos da função autonómica em modelos animais de nefrolitíase experimental. |
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