Publicação
Quando todos os caminhos levavam a Portugal:impacto da guerra dos cem anos na vida económica e política de Portugal (séculos XIV-XV)
| Resumo: | A Guerra dos Cem Anos teve consequências profundas sobre a história da França e da Inglaterra. Porém, o seu impacto e importância na história de outros países europeus e da Europa em geral, tem sido muito pouco estudado. Mesmo os defensores da chamada "crise do final da Idade Média" não mostraram grande interesse em estabelecer qualquer tipo de relação entre essa "crise" e a Guerra dos Cem Anos, embora ambas coincidam perfeitamente em termos cronológicos. O nosso objetivo é estabelecer uma relação entre o conflito anglofrancês e as dificuldades e/ou a decadência económica de alguns países e regiões da Europa durante o mesmo intervalo de tempo. Antes da guerra, a França foi o centro comercial da Europa, mas durante o curso da guerra, tornou-se o seu principal campo de batalha. Foi um conflito entre a Inglaterra e a França, que se travou e se decidiu totalmente em territórios e dependências francesas. Portanto, deve perguntar-se: como aconteceu esta transformação do reino maior, mais rico, mais central e mais importante da Europa, que passou de um centro comercial a um campo de batalha, e influenciou o cenário económico do continente? Neste trabalho, em vez de fixarmos a atenção sobre os movimentos e itinerários dos exércitos, pretendemos concentrarmo-nos sobre os itinerários dos comerciantes e sobre a mudança da geografia das rotas comerciais. Mercê da sua transformação em campo de batalha, a França, que fora até então um paraíso para os comerciantes, tornou-se um paraíso para a cavalaria e os soldados e um inferno para os comerciantes. Assim, os países e regiões mais aptos para servir como alternativa para o comércio, aumentaram a sua participação no tráfego comercial, ou melhor, na riqueza disponível.Portugal tornou-se num desses paraísos comerciais, que ajudaram o fluxo de bens e riqueza a expandir-se. A alteração da geografia das rotas comerciais, não só ajudou estes novos centros comerciais a fortalecer as respectivas economias, mas aumentou os custos de operações e de manutenção do comércio. Bens e riquezas fluíam facilmente através das novas rotas, mas estas novas rotas de comércio eram caras alternativas às antigas rotas francesas. Porém, com o fim da Guerra dos Cem Anos, acabou a necessidade de evitar as rotas francesas e o fluxo de comércio retornou a França. Contudo, a nova geografia do comércio ampliado e a riqueza acumulada durante o conflito continuaram por algum tempo a promover o desenvolvimento nesses países. Entretanto, a França foi retomando a sua centralidade nas rotas comerciais do continente.A situação económica de Portugal durante a Guerra dos Cem Anos tem sido tradicionalmente associada pelos historiadores ao padrão francês, amplamente aceite como negativo, e em profunda crise. A base teórica para essa relação é a "crise final da Idade Média", ou a interpretação malthusiana da história da Idade Média. De acordo com esta interpretação, a "crise do final da Idade Média" foi geral para toda a Europa e mesmo fora dela, embora reconhecendo algumas excepções insignificantes. Na verdade, numa visão mais abrangente, exceptuado o efeito generalizado da Peste Negra, a maior parte da Europa não passa por uma "crise final da Idade Média". Portugal tinha todas as condições para ganhar com a mudança das rotas comerciais e foi um dos países mais importantes que serviram o sistema económico do continente para continuar a funcionar sem problemas, mesmo com o obstáculo da guerra. A nossa investigação conduz-nos a conclusões diferentes das tradicionalmente aceites e levanos a afirmar que, durante a suposta "crise", Portugal fortaleceu-se em termos económicos. A Peste Negra teve seu preço e a moeda foi desvalorizada, mas o comércio ampliou-se, a área cultivada cresceu, as fronteiras políticas e geográficas expandiram-se, o avanço tecnológico foi um dos maiores do continente, a projeção internacional aumentou, a independência do reino foi assegurada, as cidades ampliaram-se no momento em que a agricultura cresceu e a riqueza e o bem-estar do povo aumentou. |
|---|---|
| Autores principais: | Muhaj, Ardian |
| Assunto: | Guerra dos cem anos - 1339-1453 - Influência Portugal - Condições económicas - séc.14-15 Portugal - Política e governo - 1339-1453 Portugal - História - séc.14-15 Teses de doutoramento - 2014 |
| Ano: | 2014 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A Guerra dos Cem Anos teve consequências profundas sobre a história da França e da Inglaterra. Porém, o seu impacto e importância na história de outros países europeus e da Europa em geral, tem sido muito pouco estudado. Mesmo os defensores da chamada "crise do final da Idade Média" não mostraram grande interesse em estabelecer qualquer tipo de relação entre essa "crise" e a Guerra dos Cem Anos, embora ambas coincidam perfeitamente em termos cronológicos. O nosso objetivo é estabelecer uma relação entre o conflito anglofrancês e as dificuldades e/ou a decadência económica de alguns países e regiões da Europa durante o mesmo intervalo de tempo. Antes da guerra, a França foi o centro comercial da Europa, mas durante o curso da guerra, tornou-se o seu principal campo de batalha. Foi um conflito entre a Inglaterra e a França, que se travou e se decidiu totalmente em territórios e dependências francesas. Portanto, deve perguntar-se: como aconteceu esta transformação do reino maior, mais rico, mais central e mais importante da Europa, que passou de um centro comercial a um campo de batalha, e influenciou o cenário económico do continente? Neste trabalho, em vez de fixarmos a atenção sobre os movimentos e itinerários dos exércitos, pretendemos concentrarmo-nos sobre os itinerários dos comerciantes e sobre a mudança da geografia das rotas comerciais. Mercê da sua transformação em campo de batalha, a França, que fora até então um paraíso para os comerciantes, tornou-se um paraíso para a cavalaria e os soldados e um inferno para os comerciantes. Assim, os países e regiões mais aptos para servir como alternativa para o comércio, aumentaram a sua participação no tráfego comercial, ou melhor, na riqueza disponível.Portugal tornou-se num desses paraísos comerciais, que ajudaram o fluxo de bens e riqueza a expandir-se. A alteração da geografia das rotas comerciais, não só ajudou estes novos centros comerciais a fortalecer as respectivas economias, mas aumentou os custos de operações e de manutenção do comércio. Bens e riquezas fluíam facilmente através das novas rotas, mas estas novas rotas de comércio eram caras alternativas às antigas rotas francesas. Porém, com o fim da Guerra dos Cem Anos, acabou a necessidade de evitar as rotas francesas e o fluxo de comércio retornou a França. Contudo, a nova geografia do comércio ampliado e a riqueza acumulada durante o conflito continuaram por algum tempo a promover o desenvolvimento nesses países. Entretanto, a França foi retomando a sua centralidade nas rotas comerciais do continente.A situação económica de Portugal durante a Guerra dos Cem Anos tem sido tradicionalmente associada pelos historiadores ao padrão francês, amplamente aceite como negativo, e em profunda crise. A base teórica para essa relação é a "crise final da Idade Média", ou a interpretação malthusiana da história da Idade Média. De acordo com esta interpretação, a "crise do final da Idade Média" foi geral para toda a Europa e mesmo fora dela, embora reconhecendo algumas excepções insignificantes. Na verdade, numa visão mais abrangente, exceptuado o efeito generalizado da Peste Negra, a maior parte da Europa não passa por uma "crise final da Idade Média". Portugal tinha todas as condições para ganhar com a mudança das rotas comerciais e foi um dos países mais importantes que serviram o sistema económico do continente para continuar a funcionar sem problemas, mesmo com o obstáculo da guerra. A nossa investigação conduz-nos a conclusões diferentes das tradicionalmente aceites e levanos a afirmar que, durante a suposta "crise", Portugal fortaleceu-se em termos económicos. A Peste Negra teve seu preço e a moeda foi desvalorizada, mas o comércio ampliou-se, a área cultivada cresceu, as fronteiras políticas e geográficas expandiram-se, o avanço tecnológico foi um dos maiores do continente, a projeção internacional aumentou, a independência do reino foi assegurada, as cidades ampliaram-se no momento em que a agricultura cresceu e a riqueza e o bem-estar do povo aumentou. |
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