Publicação

Investigação retrospetiva dos casos de infeções multirresistentes em cães e gatos internados na Unidade de Isolamento e Contenção Biológica do Hospital Escolar

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:A problemática das infeções bacterianas multirresistentes exige uma abordagem pluridisciplinar, reconhecedora da interligação e interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental - One Health. Até recentemente, o papel dos animais de companhia nesta temática foi negligenciado, com as investigações centradas na relação entre a saúde humana e os animais de produção, via cadeia alimentar. A crescente notificação de cães e gatos infetados com bactérias multirresistentes, associados ao uso abusivo de antibióticos, demonstra a necessidade de investigação deste problema complexo nos animais de companhia. O presente estudo retrospetivo teve como objetivo identificar e caracterizar a população de animais de companhia hospitalizados numa Unidade de Isolamento e Contenção Biológica com infeções bacterianas multirresistentes, de outubro de 2013 a outubro de 2020. Foram investigados 30 animais, dos quais 17 (56,7%) canídeos e 13 (43,3%) felídeos. As medianas de idades registadas: 11 anos nos cães; 10 anos nos gatos; refletem a predominância de animais seniores/geriátricos em ambas as espécies. No momento da hospitalização, todos os animais apresentavam doenças concomitantes. 94,1% dos canídeos e 76,9% dos felídeos tinham feito antibioterapias no ano anterior à recolha das amostras biológicas, sendo os antibióticos mais prescritos a amoxicilina/ácido clavulânico (40,0% nos cães e 55,6% nos gatos) e as fluoroquinolonas (38,0% nos cães e 22,6% nos gatos). 52,9% dos canídeos e 84,6% dos felídeos estiveram internados, pelo menos uma vez, nos seis meses anteriores à deteção de MDR. A família Enterobacteriacea foi a mais frequente em ambas as espécies animais (80,0%). A multirresistência estava associada à produção de ESBL em 25,0% (5/20) das bactérias nos cães e em 13,3% (2/15) das bactérias nos gatos. Estes resultados reforçam que os cães e os gatos podem ser portadores de bactérias multirresistentes, representando um potencial risco de Saúde Pública. A relação cada vez mais próxima entre os detentores e os seus animais de companhia cria oportunidades de transmissão interespécies de bactérias resistentes, aliado ao facto destes animais também poderem funcionar como reservatório de genes de resistência. Por esta razão, os animais de companhia são um pilar relevante do paradigma “One Health/Uma Só Saúde” e devem ser incluídos em todos os planos de mitigação da resistência antimicrobiana.
Autores principais:Pinhão, Ana Patrícia Brás
Assunto:Animais de companhia Resistência antimicrobiana Infeções bacterianas multirresistentes Saúde Pública One Health Companion animals Antimicrobial resistance Multi-resistant bacterial infections Public Health One Health
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A problemática das infeções bacterianas multirresistentes exige uma abordagem pluridisciplinar, reconhecedora da interligação e interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental - One Health. Até recentemente, o papel dos animais de companhia nesta temática foi negligenciado, com as investigações centradas na relação entre a saúde humana e os animais de produção, via cadeia alimentar. A crescente notificação de cães e gatos infetados com bactérias multirresistentes, associados ao uso abusivo de antibióticos, demonstra a necessidade de investigação deste problema complexo nos animais de companhia. O presente estudo retrospetivo teve como objetivo identificar e caracterizar a população de animais de companhia hospitalizados numa Unidade de Isolamento e Contenção Biológica com infeções bacterianas multirresistentes, de outubro de 2013 a outubro de 2020. Foram investigados 30 animais, dos quais 17 (56,7%) canídeos e 13 (43,3%) felídeos. As medianas de idades registadas: 11 anos nos cães; 10 anos nos gatos; refletem a predominância de animais seniores/geriátricos em ambas as espécies. No momento da hospitalização, todos os animais apresentavam doenças concomitantes. 94,1% dos canídeos e 76,9% dos felídeos tinham feito antibioterapias no ano anterior à recolha das amostras biológicas, sendo os antibióticos mais prescritos a amoxicilina/ácido clavulânico (40,0% nos cães e 55,6% nos gatos) e as fluoroquinolonas (38,0% nos cães e 22,6% nos gatos). 52,9% dos canídeos e 84,6% dos felídeos estiveram internados, pelo menos uma vez, nos seis meses anteriores à deteção de MDR. A família Enterobacteriacea foi a mais frequente em ambas as espécies animais (80,0%). A multirresistência estava associada à produção de ESBL em 25,0% (5/20) das bactérias nos cães e em 13,3% (2/15) das bactérias nos gatos. Estes resultados reforçam que os cães e os gatos podem ser portadores de bactérias multirresistentes, representando um potencial risco de Saúde Pública. A relação cada vez mais próxima entre os detentores e os seus animais de companhia cria oportunidades de transmissão interespécies de bactérias resistentes, aliado ao facto destes animais também poderem funcionar como reservatório de genes de resistência. Por esta razão, os animais de companhia são um pilar relevante do paradigma “One Health/Uma Só Saúde” e devem ser incluídos em todos os planos de mitigação da resistência antimicrobiana.