Publicação

Dias de escola : participação local e currículo técnico na Escola Secundária de Alcanena (1965/1992)

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Em agenda encontram-se os debates acerca das eventuais molduras de formação técnica em contexto educativo, bem como os enquadramentos legais sobre a participação activa dos diferentes actores sociais nos destinos das escolas. O presente trabalho incide no universo de uma escola especifica e tenta identificar algumas das suas subjacentes correntes de evolução, ao longo do tempo, de acordo com o pressuposto teórico que assume a (pré)ideia do currículo técnico (nomeadamente o currículo local) enquanto forma privilegiada de Interacção entre a escola e o meio onde ela se insere. O interesse do estudo desenvolve-se a partir da percepção crescente do falhanço deste pressuposto. De facto, a Escola e o seu contexto revelam momentos intensos e concretos de relação estreita e de participação na vida da instituição, nos quais se desenvolvem (mas falham) fórmulas de currículo técnico destinadas especificamente ao meio local (e variadas, na sua formulação, de acordo com o momento no tempo em que foram concebidas). Todas atendiam às necessidades económicas locais, previam claro contributo em termos de formação profissional e asseguravam entradas fáceis no mercado de trabalho. No entanto, independentemente da fórmula utilizada na sua concepção, terminaram sempre sem glória, por sistemático défice de frequência. Entre outras, apontam-se quatro razões fundamentais. Primeiro, a interacção existe mas apenas ao nível das cúpulas de decisão e a população-alvo de tais currículos não foi ouvida em qualquer desses processos, que foram sempre Impostos de cima, exteriormente, por grupos sociais dos quais estavam tradicionalmente excluídos: autarquia, empresários, professores, associações industriais... Por consequência, nunca houve sentimentos de identificação com essa formação, que aparecia externa e estranha ao grupo profissional. A resposta exerceu-se pela evasão à matricula. O segundo factor prende-se com a acção dos empresários, que apoiavam em teoria ou em aspectos pontuais, mas que não assumiram as consequências da formação no terreno, nomeadamente na configuração de postos de trabalho para os quais essa formação fosse percebida como essencial e resultasse em estruturas salariais correspondentes. Em terceiro lugar, as tentativas ocorreram sempre em contextos de expansão económica (em que os padrões de qualidade de vida cresciam sem correlação com a tessitura escolar do trabalhador), o que tendeu a subestimar as vantagens da escolaridade: "Para quê estudar mais se ganhamos o suficiente com a escolaridade que temos/não temos?". Por último, quando, e se, se assumem as eventuais possibilidades Induzidas por "mais escola", elas assentam na procura de maior estatuto social (nos anos 60/70) ou mais capital académico com o objectivo de acesso ao Ensino Superior (anos 80/90), a cujos intentos os currículos técnicos, especialmente os de vertente local, não acresciam significado. Em consequência, apesar das fortes interacções entre os promotores da oferta, todas as fórmulas falharam sucessivamente. O estudo parece demonstrar que as especificações locais nos currículos académicos escolares não fazem sentido. É, portanto, necessário um maior cuidado no desenho a ser adoptado para eventuais currículos técnicos, em especial em momentos como este, quando em Portugal se debatem acesamente as questões relativas aos formatos de participação local no universo escolar, bem como as formulações de que a formação técnica se deve revestir. Quaisquer que sejam os padrões a Implementar, deverão fornecer uma acautelada possibilidade democrática de participação efectiva de todos os actores sociais interessados - e, em primeiro lugar, dos destinatários da formação. Porque, de outro modo, como o estudo aponta, qualquer moldura teórica e legal, destinada a promover mais-valias de participação ou diversidade curricular acrescida, se não emergir das bases, pode acabar, inesperadamente, em efeitos perversos (e contraditórios): a recusa de formação profissional por quem dela efectivamente precisa; e/ou o distanciamento entre os actores sociais envolvidos na gestão de um processo que deveria, pelo contrário, contribuir para aproximar a escola do meio.
Autores principais:Baptista, Ana Cristina Gonzalez da Silva, 1960-
Assunto:Escola Secundária de Alcanena - 1965-1992 Escola Currículo Contexto local Ensino técnico Educação - História Teses de mestrado - 2002
Ano:2002
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso restrito
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Em agenda encontram-se os debates acerca das eventuais molduras de formação técnica em contexto educativo, bem como os enquadramentos legais sobre a participação activa dos diferentes actores sociais nos destinos das escolas. O presente trabalho incide no universo de uma escola especifica e tenta identificar algumas das suas subjacentes correntes de evolução, ao longo do tempo, de acordo com o pressuposto teórico que assume a (pré)ideia do currículo técnico (nomeadamente o currículo local) enquanto forma privilegiada de Interacção entre a escola e o meio onde ela se insere. O interesse do estudo desenvolve-se a partir da percepção crescente do falhanço deste pressuposto. De facto, a Escola e o seu contexto revelam momentos intensos e concretos de relação estreita e de participação na vida da instituição, nos quais se desenvolvem (mas falham) fórmulas de currículo técnico destinadas especificamente ao meio local (e variadas, na sua formulação, de acordo com o momento no tempo em que foram concebidas). Todas atendiam às necessidades económicas locais, previam claro contributo em termos de formação profissional e asseguravam entradas fáceis no mercado de trabalho. No entanto, independentemente da fórmula utilizada na sua concepção, terminaram sempre sem glória, por sistemático défice de frequência. Entre outras, apontam-se quatro razões fundamentais. Primeiro, a interacção existe mas apenas ao nível das cúpulas de decisão e a população-alvo de tais currículos não foi ouvida em qualquer desses processos, que foram sempre Impostos de cima, exteriormente, por grupos sociais dos quais estavam tradicionalmente excluídos: autarquia, empresários, professores, associações industriais... Por consequência, nunca houve sentimentos de identificação com essa formação, que aparecia externa e estranha ao grupo profissional. A resposta exerceu-se pela evasão à matricula. O segundo factor prende-se com a acção dos empresários, que apoiavam em teoria ou em aspectos pontuais, mas que não assumiram as consequências da formação no terreno, nomeadamente na configuração de postos de trabalho para os quais essa formação fosse percebida como essencial e resultasse em estruturas salariais correspondentes. Em terceiro lugar, as tentativas ocorreram sempre em contextos de expansão económica (em que os padrões de qualidade de vida cresciam sem correlação com a tessitura escolar do trabalhador), o que tendeu a subestimar as vantagens da escolaridade: "Para quê estudar mais se ganhamos o suficiente com a escolaridade que temos/não temos?". Por último, quando, e se, se assumem as eventuais possibilidades Induzidas por "mais escola", elas assentam na procura de maior estatuto social (nos anos 60/70) ou mais capital académico com o objectivo de acesso ao Ensino Superior (anos 80/90), a cujos intentos os currículos técnicos, especialmente os de vertente local, não acresciam significado. Em consequência, apesar das fortes interacções entre os promotores da oferta, todas as fórmulas falharam sucessivamente. O estudo parece demonstrar que as especificações locais nos currículos académicos escolares não fazem sentido. É, portanto, necessário um maior cuidado no desenho a ser adoptado para eventuais currículos técnicos, em especial em momentos como este, quando em Portugal se debatem acesamente as questões relativas aos formatos de participação local no universo escolar, bem como as formulações de que a formação técnica se deve revestir. Quaisquer que sejam os padrões a Implementar, deverão fornecer uma acautelada possibilidade democrática de participação efectiva de todos os actores sociais interessados - e, em primeiro lugar, dos destinatários da formação. Porque, de outro modo, como o estudo aponta, qualquer moldura teórica e legal, destinada a promover mais-valias de participação ou diversidade curricular acrescida, se não emergir das bases, pode acabar, inesperadamente, em efeitos perversos (e contraditórios): a recusa de formação profissional por quem dela efectivamente precisa; e/ou o distanciamento entre os actores sociais envolvidos na gestão de um processo que deveria, pelo contrário, contribuir para aproximar a escola do meio.