Publicação
Aquisição da interpretação de sujeitos nulos em contextos de obviação referencial
| Resumo: | A presente dissertação tem como objetivo investigar a aquisição, por falantes monolingues de Português Europeu, da compreensão de sujeitos nulos em orações completivas selecionadas pelos verbos querer e dizer. Deste modo, pretende-se aceder à interpretação de um sujeito nulo em orações completivas de conjuntivo por crianças em idade pré-escolar (3 – 5 anos) e escolar (6 – 8 anos), verificando se as crianças respeitam a obviação referencial obrigatória no caso de complementos de conjuntivo e ainda se interpretam os contextos de conjuntivo selecionados pelo verbo dizer como contextos de controlo obrigatório. Observou-se que os verbos querer e dizer poderão desencadear contextos de obviação diferentes. O verbo querer representa um caso de obviação referencial canónica, pois nestes contextos, o sujeito nulo encaixado é obrigatoriamente disjunto do sujeito da oração matriz. O verbo dizer parece desencadear um tipo de obviação diferente, pois ao haver a obrigatoriedade de correferência entre o sujeito nulo da oração complemento e o objeto indireto da oração matriz, verifica-se uma semelhança de comportamento com os contextos de controlo obrigatório em orações não finitas. Deste modo, este tipo de estruturas com o verbo dizer poderão aproximar-se de controlo finito, do tipo dos já descritos por Landau (2004). A obviação referencial é um fenómeno para o qual se tem procurado encontrar uma explicação e, por isso, várias hipóteses têm surgido ao longo do tempo. Por exemplo, para Picallo (1985), o domínio de ligação do pronome encaixado, no caso de um complemento de conjuntivo, é toda a frase e, por essa razão, há obrigatoriedade de referência disjunta nestes contextos, caso contrário, verificar-se-ia uma violação do Princípio B. Já Farkas (1992) e Horstein & San Martin (2000) afirmam que a obviação referencial surge de uma competição entre os modos infinitivo e conjuntivo. Finalmente, Kempchinksy (2009) sugere que complementos no modo conjuntivo lexicalmente selecionado comportam um operador quasiimperative e o papel que o operador desempenha irá culminar na obviação referencial. Devido à complexidade do tema em questão, a sua aquisição é caracterizada na literatura como um fenómeno de aquisição tardia. Esta hipótese é assumida por Padilla (1990) e Goodluck et al. (2001) para o espanhol, por exemplo, e, até certo ponto, por Avrutin & Wexler (2000) para o russo. No caso do Português Europeu não há muitos estudos que investiguem a aquisição da obviação referencial como tema central, no entanto, Ambulate (2008) e Silva (2015) mostram que as crianças portuguesas entre os 3 e os 6 anos exibem bastantes dificuldades na interpretação de um sujeito nulo de completivas no modo conjuntivo. Com efeito, as crianças testadas pelas autoras preferem uma leitura de correferência entre o sujeito da oração matriz e o sujeito da oração complemento. Assim, foi desenhada uma tarefa de compreensão baseada em McDaniel & Cairns (1990), uma tarefa de juízo de referência que foi aplicada a 90 crianças entre os 3 e os 8 anos e também a 30 adultos. A tarefa experimental é constituída por 8 condições de teste. Testa-se a interpretação de sujeitos nulos encaixados em complementos selecionados pelo verbo dizer, sendo que se consideram casos de sujeitos nulos encaixados com dizer – declarativo (modo indicativo) e dizer - declarativo de ordem (modo conjuntivo e infinitivo). Testa-se ainda a interpretação de sujeitos nulos encaixados em complementos no modo infinitivo e no modo conjuntivo selecionados pelo verbo querer. As condições com dizer – declarativo testam a possibilidade de leituras de correferência preferencial entre sujeito matriz e sujeito encaixado e as condições com dizer - declarativo de ordem testam contextos de controlo obrigatório e de obviação não canónica. Em ambos os casos são testados contextos com objeto indireto explícito e implícito. Finalmente, com o verbo querer são testados contextos de controlo de sujeito (complementos infinitivos) e contextos de obviação referencial canónica (complementos finitos, de conjuntivo). Os resultados obtidos permitem concluir que as crianças, em estruturas de controlo no modo infinitivo, apresentam melhores resultados em estruturas de controlo de sujeito (querer), nas quais igualam os adultos desde os estádios iniciais, do que em estruturas de controlo de objeto indireto (dizer – declarativo de ordem). Verificou-se ainda que, em estruturas com objeto indireto explícito, quer no modo infinitivo, quer no modo conjuntivo, os resultados obtidos pelas crianças aproximam-se dos resultados obtidos pelos adultos. Foi notória a influência da introdução de um antecedente lexicalmente realizado, que facilita a leitura que as crianças fazem de um sujeito nulo encaixado. Pelo contrário, a omissão do argumento interno da oração matriz levanta bastantes dificuldades às crianças no caso de complementos em ambos os modos, levando-as a um desempenho muito diferente do desempenho dos adultos. Em complementos no modo indicativo (dizer – declarativo), em contextos com objeto indireto explícito, a introdução de um antecedente linguístico lexicalmente realizado parece confundir as crianças, levando-as a alguma indecisão, mais notória no grupo de crianças mais novas, na escolha do potencial antecedente do sujeito nulo encaixado. Nestes casos, verifica-se que algumas crianças optam pela correferência do sujeito nulo com o objeto indireto. Em contextos de objeto indireto implícito, as crianças igualam o desempenho dos adultos, preferindo a correferência do sujeito encaixado com o sujeito matriz. Estes dados corroboram os dados já obtidos por alguns autores, por exemplo por Silva (2015). Finalmente, os resultados revelaram que a obviação referencial não se encontra adquirida até aos 8 anos, pelo que se revela um fenómeno de aquisição bastante tardia. Verificou-se que em complementos de conjuntivo, tanto em contextos com querer, como em contextos com dizer – declarativo de ordem com objeto indireto implícito, as crianças tendem a escolher o sujeito matriz como sendo correferente com o sujeito da oração complemento, pelo que as crianças não distinguem os dois tipos de obviação propostos nesta dissertação. |
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| Autores principais: | Gamas, Filomena Maria Afonso |
| Assunto: | Língua portuguesa - Aquisição Língua portuguesa - Sujeitos nulos Sintaxe Teoria da regência e da ligação Teses de mestrado - 2017 |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A presente dissertação tem como objetivo investigar a aquisição, por falantes monolingues de Português Europeu, da compreensão de sujeitos nulos em orações completivas selecionadas pelos verbos querer e dizer. Deste modo, pretende-se aceder à interpretação de um sujeito nulo em orações completivas de conjuntivo por crianças em idade pré-escolar (3 – 5 anos) e escolar (6 – 8 anos), verificando se as crianças respeitam a obviação referencial obrigatória no caso de complementos de conjuntivo e ainda se interpretam os contextos de conjuntivo selecionados pelo verbo dizer como contextos de controlo obrigatório. Observou-se que os verbos querer e dizer poderão desencadear contextos de obviação diferentes. O verbo querer representa um caso de obviação referencial canónica, pois nestes contextos, o sujeito nulo encaixado é obrigatoriamente disjunto do sujeito da oração matriz. O verbo dizer parece desencadear um tipo de obviação diferente, pois ao haver a obrigatoriedade de correferência entre o sujeito nulo da oração complemento e o objeto indireto da oração matriz, verifica-se uma semelhança de comportamento com os contextos de controlo obrigatório em orações não finitas. Deste modo, este tipo de estruturas com o verbo dizer poderão aproximar-se de controlo finito, do tipo dos já descritos por Landau (2004). A obviação referencial é um fenómeno para o qual se tem procurado encontrar uma explicação e, por isso, várias hipóteses têm surgido ao longo do tempo. Por exemplo, para Picallo (1985), o domínio de ligação do pronome encaixado, no caso de um complemento de conjuntivo, é toda a frase e, por essa razão, há obrigatoriedade de referência disjunta nestes contextos, caso contrário, verificar-se-ia uma violação do Princípio B. Já Farkas (1992) e Horstein & San Martin (2000) afirmam que a obviação referencial surge de uma competição entre os modos infinitivo e conjuntivo. Finalmente, Kempchinksy (2009) sugere que complementos no modo conjuntivo lexicalmente selecionado comportam um operador quasiimperative e o papel que o operador desempenha irá culminar na obviação referencial. Devido à complexidade do tema em questão, a sua aquisição é caracterizada na literatura como um fenómeno de aquisição tardia. Esta hipótese é assumida por Padilla (1990) e Goodluck et al. (2001) para o espanhol, por exemplo, e, até certo ponto, por Avrutin & Wexler (2000) para o russo. No caso do Português Europeu não há muitos estudos que investiguem a aquisição da obviação referencial como tema central, no entanto, Ambulate (2008) e Silva (2015) mostram que as crianças portuguesas entre os 3 e os 6 anos exibem bastantes dificuldades na interpretação de um sujeito nulo de completivas no modo conjuntivo. Com efeito, as crianças testadas pelas autoras preferem uma leitura de correferência entre o sujeito da oração matriz e o sujeito da oração complemento. Assim, foi desenhada uma tarefa de compreensão baseada em McDaniel & Cairns (1990), uma tarefa de juízo de referência que foi aplicada a 90 crianças entre os 3 e os 8 anos e também a 30 adultos. A tarefa experimental é constituída por 8 condições de teste. Testa-se a interpretação de sujeitos nulos encaixados em complementos selecionados pelo verbo dizer, sendo que se consideram casos de sujeitos nulos encaixados com dizer – declarativo (modo indicativo) e dizer - declarativo de ordem (modo conjuntivo e infinitivo). Testa-se ainda a interpretação de sujeitos nulos encaixados em complementos no modo infinitivo e no modo conjuntivo selecionados pelo verbo querer. As condições com dizer – declarativo testam a possibilidade de leituras de correferência preferencial entre sujeito matriz e sujeito encaixado e as condições com dizer - declarativo de ordem testam contextos de controlo obrigatório e de obviação não canónica. Em ambos os casos são testados contextos com objeto indireto explícito e implícito. Finalmente, com o verbo querer são testados contextos de controlo de sujeito (complementos infinitivos) e contextos de obviação referencial canónica (complementos finitos, de conjuntivo). Os resultados obtidos permitem concluir que as crianças, em estruturas de controlo no modo infinitivo, apresentam melhores resultados em estruturas de controlo de sujeito (querer), nas quais igualam os adultos desde os estádios iniciais, do que em estruturas de controlo de objeto indireto (dizer – declarativo de ordem). Verificou-se ainda que, em estruturas com objeto indireto explícito, quer no modo infinitivo, quer no modo conjuntivo, os resultados obtidos pelas crianças aproximam-se dos resultados obtidos pelos adultos. Foi notória a influência da introdução de um antecedente lexicalmente realizado, que facilita a leitura que as crianças fazem de um sujeito nulo encaixado. Pelo contrário, a omissão do argumento interno da oração matriz levanta bastantes dificuldades às crianças no caso de complementos em ambos os modos, levando-as a um desempenho muito diferente do desempenho dos adultos. Em complementos no modo indicativo (dizer – declarativo), em contextos com objeto indireto explícito, a introdução de um antecedente linguístico lexicalmente realizado parece confundir as crianças, levando-as a alguma indecisão, mais notória no grupo de crianças mais novas, na escolha do potencial antecedente do sujeito nulo encaixado. Nestes casos, verifica-se que algumas crianças optam pela correferência do sujeito nulo com o objeto indireto. Em contextos de objeto indireto implícito, as crianças igualam o desempenho dos adultos, preferindo a correferência do sujeito encaixado com o sujeito matriz. Estes dados corroboram os dados já obtidos por alguns autores, por exemplo por Silva (2015). Finalmente, os resultados revelaram que a obviação referencial não se encontra adquirida até aos 8 anos, pelo que se revela um fenómeno de aquisição bastante tardia. Verificou-se que em complementos de conjuntivo, tanto em contextos com querer, como em contextos com dizer – declarativo de ordem com objeto indireto implícito, as crianças tendem a escolher o sujeito matriz como sendo correferente com o sujeito da oração complemento, pelo que as crianças não distinguem os dois tipos de obviação propostos nesta dissertação. |
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