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Ecos de Dáfnis e Cloe em A VIa Sinuosa de Aquilino Ribeiro

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Resumo:Nítidos são os ecos de Dáfnis e Cloe em A Via Sinuosa, o primeiro romance de Aquilino Ribeiro, que narra na primeira pessoa a história da atribulada adolescência de Libório Barradas, entre a descoberta do amor e o desencanto que o impele a recomeçar algures a vida, num forçado exílio sem rumo certo. Tal como Dáfnis, o protagonista do romance de Aquilino enamora-se de uma jovem camponesa cujo nome, Celidónia (tal como o de Cloe, em Longo), evoca a flora campestre (como substantivo comum, celidónia designa uma planta papaverácea também conhecida por erva-andorinha). À semelhança do herói de Longo, mesmo depois da sua iniciação nos mistérios de Eros, Libório mantém um casto amor pela sua Celidónia. Mas, ao contrário do modelo grego, a paixão entre os dois adolescentes não tem um final feliz no romance de Aquilino: contratado por Miguel de Malafaia para catalogar os tesouros da sua biblioteca, o jovem não consegue resistir aos encantos de D. Estefânia, a sedutora esposa do fidalgo. A écfrase da cena de amor representada na tapeçaria que Libório observa, ao entrar pela primeira vez na biblioteca, funciona como prolepse da relação sentimental que ele manterá com a fidalga: “Abaixo desta tapeçaria uma enorme veladora, no estilo de Beauvais, convidava aos devaneios doces do espírito. E parecia aquele recanto, na grave mansão dos livros, feito para dama em penteador de rendas, perna cruzada e chapim à dependura da ponta do pé, ler a pastoral voluptuosa de um Longo” (cap. XIII). No penúltimo capítulo do romance, numa manhã de Primavera, o par troca beijos num cenário bucólico. Em analepse, são apresentadas as circunstâncias do início do envolvimento amoroso, naquele dia “em que, na doce molície da veladora, D. Estefânia e eu, lendo Dáfnis e Cloe, imitámos o lance dos namorados de Trebizonda dos panos de rás” (cap. XIV). Enfraquecida pelo ciúme, a relação da adúltera com o jovem amante chega definitivamente ao fim, quando o marido enganado descobre a traição de que foi vítima. Atormentado e só, Libório corta definitivamente as amarras que o prendem à terra que o viu crescer: apenas lhe resta partir para um destino incerto, sem rumo, sem saber para onde correrá a sua via sinuosa.
Autores principais:Guerreiro, Cristina Abranches
Assunto:Longo Dáfnis e Cloe Ribeiro, Aquilino, 1885-1963. A Via Sinuosa
Ano:2017
País:Portugal
Tipo de documento:capítulo de livro
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Nítidos são os ecos de Dáfnis e Cloe em A Via Sinuosa, o primeiro romance de Aquilino Ribeiro, que narra na primeira pessoa a história da atribulada adolescência de Libório Barradas, entre a descoberta do amor e o desencanto que o impele a recomeçar algures a vida, num forçado exílio sem rumo certo. Tal como Dáfnis, o protagonista do romance de Aquilino enamora-se de uma jovem camponesa cujo nome, Celidónia (tal como o de Cloe, em Longo), evoca a flora campestre (como substantivo comum, celidónia designa uma planta papaverácea também conhecida por erva-andorinha). À semelhança do herói de Longo, mesmo depois da sua iniciação nos mistérios de Eros, Libório mantém um casto amor pela sua Celidónia. Mas, ao contrário do modelo grego, a paixão entre os dois adolescentes não tem um final feliz no romance de Aquilino: contratado por Miguel de Malafaia para catalogar os tesouros da sua biblioteca, o jovem não consegue resistir aos encantos de D. Estefânia, a sedutora esposa do fidalgo. A écfrase da cena de amor representada na tapeçaria que Libório observa, ao entrar pela primeira vez na biblioteca, funciona como prolepse da relação sentimental que ele manterá com a fidalga: “Abaixo desta tapeçaria uma enorme veladora, no estilo de Beauvais, convidava aos devaneios doces do espírito. E parecia aquele recanto, na grave mansão dos livros, feito para dama em penteador de rendas, perna cruzada e chapim à dependura da ponta do pé, ler a pastoral voluptuosa de um Longo” (cap. XIII). No penúltimo capítulo do romance, numa manhã de Primavera, o par troca beijos num cenário bucólico. Em analepse, são apresentadas as circunstâncias do início do envolvimento amoroso, naquele dia “em que, na doce molície da veladora, D. Estefânia e eu, lendo Dáfnis e Cloe, imitámos o lance dos namorados de Trebizonda dos panos de rás” (cap. XIV). Enfraquecida pelo ciúme, a relação da adúltera com o jovem amante chega definitivamente ao fim, quando o marido enganado descobre a traição de que foi vítima. Atormentado e só, Libório corta definitivamente as amarras que o prendem à terra que o viu crescer: apenas lhe resta partir para um destino incerto, sem rumo, sem saber para onde correrá a sua via sinuosa.