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Curar o passado:mulheres, espíritos e "caminhos fechados" nas igreja Zione em Maputo, Moçambique

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Detalhes bibliográficos
Resumo:As igrejas Zione, surgidas na África do Sul no princípio do século XX, representam na actualidade um movimento difundido de forma capilar nos bairros urbanos e nas aldeias do Sul de Moçambique. Os factores que alimentam o crescimento destas igrejas em Maputo são múltiplos e não podem ser desligados uns dos outros. O facto de serem movimentos populares, pouco institucionalizados, permite-lhes uma elasticidade constante que os faz proliferar nos bairros, sobrepondo-se às estruturas familiares, dando vida a pequenos espaços de poder que na dispersão do contexto urbano são mais escassos. Dependendo da visão particular da sua liderança e dos seus profetas, estas igrejas improvisam e reformulam constantemente práticas de cura, segundo os entendimentos dos próprios pacientes, seguindo uma lógica bastante definida. As igrejas Zione não são só lugares de criação de sentido, mas também veículos de uma certa visão local sobre os princípios que regulam as relações entre os indivíduos e entre estes e os defuntos. O é que as pessoas parecem procurar nas igrejas Zione não é uma resistência a um sistema dominante, mas antes a capacidade de fazer parte dele e de ter acesso a um conjunto de possibilidades, entre as quais a instrução e o bem-estar económico e familiar, que só parecem ser concretizáveis através da reformulação dos espíritos que continuam a ser entidades indissociáveis na constituição da pessoa. Assim, a cura Zione reformula e reescreve a história através de dicotomias que se tornaram locais, como tradição/modernidade, civilização/não civilização e rezar/não rezar, ao mesmo tempo que resgata o poder dos antepassados e dos espíritos de cura convertendo-os ao cristianismo. Assim as lógicas locais que estruturam as relações entre vivos, e entre vivos e mortos, reconfiguram-se segundo esquemas onde o cristianismo é marcado como superior, “civilizado” e universal, e desta forma como a religião mais legítima.
Autores principais:Cavallo, Giulia
Assunto:Teses de doutoramento - 2013
Ano:2013
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:As igrejas Zione, surgidas na África do Sul no princípio do século XX, representam na actualidade um movimento difundido de forma capilar nos bairros urbanos e nas aldeias do Sul de Moçambique. Os factores que alimentam o crescimento destas igrejas em Maputo são múltiplos e não podem ser desligados uns dos outros. O facto de serem movimentos populares, pouco institucionalizados, permite-lhes uma elasticidade constante que os faz proliferar nos bairros, sobrepondo-se às estruturas familiares, dando vida a pequenos espaços de poder que na dispersão do contexto urbano são mais escassos. Dependendo da visão particular da sua liderança e dos seus profetas, estas igrejas improvisam e reformulam constantemente práticas de cura, segundo os entendimentos dos próprios pacientes, seguindo uma lógica bastante definida. As igrejas Zione não são só lugares de criação de sentido, mas também veículos de uma certa visão local sobre os princípios que regulam as relações entre os indivíduos e entre estes e os defuntos. O é que as pessoas parecem procurar nas igrejas Zione não é uma resistência a um sistema dominante, mas antes a capacidade de fazer parte dele e de ter acesso a um conjunto de possibilidades, entre as quais a instrução e o bem-estar económico e familiar, que só parecem ser concretizáveis através da reformulação dos espíritos que continuam a ser entidades indissociáveis na constituição da pessoa. Assim, a cura Zione reformula e reescreve a história através de dicotomias que se tornaram locais, como tradição/modernidade, civilização/não civilização e rezar/não rezar, ao mesmo tempo que resgata o poder dos antepassados e dos espíritos de cura convertendo-os ao cristianismo. Assim as lógicas locais que estruturam as relações entre vivos, e entre vivos e mortos, reconfiguram-se segundo esquemas onde o cristianismo é marcado como superior, “civilizado” e universal, e desta forma como a religião mais legítima.