Publicação
Contribuição para a avaliação do prognóstico dos implantes dentários nos doentes com patologia peri-implantar
| Resumo: | O sucesso a longo prazo dos implantes dentários depende do estabelecimento de uma condição estável. Essa estabilidade pode ser influenciada negativamente pela coexistência da doença peri-implantar, provocando a perda do tecido ósseo de suporte ao redor do implante. Em relação à etiopatogenia, duas vias distintas foram descritas: A via clássica e a via retrógrada contendo factores de origem biológica e biomecânica previamente modelados. A existência de algoritmos de risco para modelagem de doenças assume um papel importante na Medicina moderna, representando uma importante ferramenta para os clínicos no processo de diagnóstico e decisão. Atualmente não existem algoritmos de risco validados em Implantologia. Os objetivos desta investigação foram: 1. Construir um algoritmo de risco para a incidência de doença peri-implantar e estimar a fracção atribuível dos indicadores de risco; 2. Avaliar a capacidade de previsão de um algoritmo de risco para a incidência de doença peri-implantar numa amostra de validação; 3. Aferir a influência dos tempos de recall (tempo decorrido entre consultas de avaliação e manutenção) nas sub-amostras de risco da doença peri-implantar; 4. Identificar os factores associados ao prognóstico dos implantes com doença peri-implantar, construir e validar um modelo preditivo do prognóstico de implantes com doença peri-implantar. A doença peri-implantar foi definida como a presença de profundidade à sondagem ≥ 5 mm; hemorragia à sondagem e presença concomitante de perda óssea marginal / perda do nível de inserção clínico em comparação com a avaliação anterior. O primeiro estudo consistiu num estudo de caso-controlo de modo a definir uma pontuação de risco para previsão da incidência de doença peri-implantar em 1275 pacientes utilizando as variáveis: história de periodontite, o desajuste passivo ou desaperto de componentes protéticos, tipo de material utilizado na restauração, placa bacteriana, hemorragia, proximidade de outros implantes / dentes, nível ósseo, tabagismo e a interação entre a placa bacteriana e a proximidade de outros implantes / dentes. Foram estimadas a fracção atribuível (FA) para cada indicador de risco e as razões de verossimilhança positiva e negativa para a pontuação de risco. O segundo estudo consistiu num estudo de coorte retrospectivo para validação da pontuação de risco durante um seguimento de 5 anos em 353 pacientes. Foram estimados o efeito da estratificação do grupo de risco na incidência de doença periimplantar através de regressão logística e a capacidade de discriminação da pontuação de risco através da área sob a curva (AUC). O terceiro estudo compreendeu a avaliação do efeito e impacto de um recall (intervalo entre as consultas de manutenção) > 6 meses na doença peri-implantar num estudo caso-controlo aninhado na coorte do estudo 2, incluindo 170 pacientes. Foram estimados o risco relativo (RR) através de regressão logística condicional e o risco proporcional atribuível (RAP). O quarto estudo consistiu num estudo de coorte retrospectivo com 240 pacientes para derivar e validar um modelo prognóstico para implantes com doença peri-implantar, com estimativa do efeito de potenciais indicadores de prognóstico desfavorável. Foram estimados o RR para os indicadores de risco através de regressão logística e a capacidade de discriminação do modelo através da AUC em ambos os conjuntos de derivação e validação. 1. Na construção da pontuação de risco e estimativa das frações atribuíveis constatámos: Uma distribuição diferente da incidência de doença peri-implantar com 2.2%, 11.5%, 37.6% e 86.4% para pacientes de baixo risco, risco moderado, risco elevado e risco muito elevado, respectivamente. A pontuação de risco com uma capacidade de discriminação excepcional registada pela AUC com um intervalo de confiança de 95% (IC95%) de 0.963 (0.950; 0.976) (p < 0.001). As razões de verossimilhança positiva e negativa do modelo de 9.69 e 0.13, respectivamente. Uma potencial redução significativa dos casos se a exposição aos indicadores de risco modificáveis fosse suprimida, ilustrada pela redução de 5% para a falta de ajuste passivo ou desaperto de componentes protéticos; 31% para a placa bacteriana; 31% para o nível ósseo no terço médio dos implantes; 18% para a hemorragia; 26% para a restauração de metalo-cerâmica; e 15% para a interação entre placa bacteriana e proximidade de outros implantes / dentes. 2. Na validação da pontuação de risco registámos: Uma taxa de incidência da doença peri-implantar de 24.1% (n = 85 pacientes). Um RR com intervalo de confiança de 95% (IC95%) para o efeito da estratificação do grupo de risco de 5.52 (3.64; 8.35), com uma sensibilidade de 71.8%, uma especificidade de 83.2% e uma precisão de 80.5%. Uma excelente capacidade de discriminação da pontuação de risco com uma AUC (IC95%) de 0.858 (0.820; 0.896) (p < 0.001). 3. Na avaliação do efeito e impacto do período de recall na incidência da doença peri-implantar registámos: Um RR (IC95%) de 1.13 (0.57; 2.21) para um recall > 6 meses. Um RAP de 5.89% que indica uma contribuição modesta do recall > 6 meses para o excesso de risco na doença peri-implantar. 4. Na derivação e validação do modelo de prognóstico para implantes com doença peri-implantar constatámos: Indicadores de prognóstico com efeito significativo no prognóstico desfavorável, conforme o RR (IC95%) de 3.13 (1.15; 8.55) para história de periodontite; 3.26 (1.37; 7.81) para doença peri-implantar grave; 3.52 (1.48; 8.37) para o comprimento do implante> 13 mm; e 3.99 (1.62; 9.82) para o desenvolvimento precoce da doença. Um modelo prognóstico com inclusão dos indicadores de prognóstico: idade, história de periodontite, doença peri-implantar grave, comprimento do implante> 13 mm e desenvolvimento precoce da doença. O modelo prognóstico obteve boa discriminação na amostra de derivação com uma AUC (IC95%) de 0.763 (0.679; 0.847) (p < 0.001); O modelo prognóstico obteve uma boa discriminação na amostra de validação com uma AUC (IC95%) de 0.709 (0.616; 0.803) (p < 0.001). Considerando os resultados, conclui-se que a gestão clinica da doença periimplantar beneficia da aplicação de algoritmos de risco para alcançar resultados previsíveis a longo prazo. Foi possível derivar e validar uma pontuação de risco para a incidência da doença peri-implantar com excelente discriminação. Um número significativo de casos poderia ser potencialmente evitado se a exposição a factores modificáveis fosse suprimida. O efeito e impacto de um recall > 6 meses foram baixos e não significativos. Foi possível derivar e validar um modelo prognóstico para implantes dentários com doença peri-implantar com boa discriminação. As presentes conclusões determinam a necessidade de intervenções na prevenção primária, secundária e terciária para maximizar a probabilidade de resultados de sucesso. Esta tese como um todo contribui para a avaliação do prognóstico em pacientes com implantes dentários e doença peri-implantar, preenchendo lacunas significativas no conhecimento contemporâneo. Sistematiza os principais factores associados à doença peri-implantar e a um prognóstico desfavorável por meio de uma abordagem epidemiológica que se pode considerar original na investigação actual. Este trabalho atesta a origem multifactorial da condição, simplificando cálculos matemáticos complexos e fornecendo ferramentas que podem ser usadas por qualquer clínico na gestão de pacientes com reabilitações implanto-suportadas. Pode servir como ponto de partida para estudos adicionais sobre o tema da doença peri-implantar e fornece uma base para intervenções preventivas e curativas. Destaca-se a importância de um acompanhamento clínico rigoroso com a inclusão de medidas diagnósticas precisas, profilaxia adequada e planeamento com envolvimento de uma equipa multidisciplinar. |
|---|---|
| Autores principais: | Nobre, Miguel de Araújo |
| Assunto: | Implantes dentários Risco Prognóstico Implantação dentária Implantação dentária endo-óssea |
| Ano: | 2019 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O sucesso a longo prazo dos implantes dentários depende do estabelecimento de uma condição estável. Essa estabilidade pode ser influenciada negativamente pela coexistência da doença peri-implantar, provocando a perda do tecido ósseo de suporte ao redor do implante. Em relação à etiopatogenia, duas vias distintas foram descritas: A via clássica e a via retrógrada contendo factores de origem biológica e biomecânica previamente modelados. A existência de algoritmos de risco para modelagem de doenças assume um papel importante na Medicina moderna, representando uma importante ferramenta para os clínicos no processo de diagnóstico e decisão. Atualmente não existem algoritmos de risco validados em Implantologia. Os objetivos desta investigação foram: 1. Construir um algoritmo de risco para a incidência de doença peri-implantar e estimar a fracção atribuível dos indicadores de risco; 2. Avaliar a capacidade de previsão de um algoritmo de risco para a incidência de doença peri-implantar numa amostra de validação; 3. Aferir a influência dos tempos de recall (tempo decorrido entre consultas de avaliação e manutenção) nas sub-amostras de risco da doença peri-implantar; 4. Identificar os factores associados ao prognóstico dos implantes com doença peri-implantar, construir e validar um modelo preditivo do prognóstico de implantes com doença peri-implantar. A doença peri-implantar foi definida como a presença de profundidade à sondagem ≥ 5 mm; hemorragia à sondagem e presença concomitante de perda óssea marginal / perda do nível de inserção clínico em comparação com a avaliação anterior. O primeiro estudo consistiu num estudo de caso-controlo de modo a definir uma pontuação de risco para previsão da incidência de doença peri-implantar em 1275 pacientes utilizando as variáveis: história de periodontite, o desajuste passivo ou desaperto de componentes protéticos, tipo de material utilizado na restauração, placa bacteriana, hemorragia, proximidade de outros implantes / dentes, nível ósseo, tabagismo e a interação entre a placa bacteriana e a proximidade de outros implantes / dentes. Foram estimadas a fracção atribuível (FA) para cada indicador de risco e as razões de verossimilhança positiva e negativa para a pontuação de risco. O segundo estudo consistiu num estudo de coorte retrospectivo para validação da pontuação de risco durante um seguimento de 5 anos em 353 pacientes. Foram estimados o efeito da estratificação do grupo de risco na incidência de doença periimplantar através de regressão logística e a capacidade de discriminação da pontuação de risco através da área sob a curva (AUC). O terceiro estudo compreendeu a avaliação do efeito e impacto de um recall (intervalo entre as consultas de manutenção) > 6 meses na doença peri-implantar num estudo caso-controlo aninhado na coorte do estudo 2, incluindo 170 pacientes. Foram estimados o risco relativo (RR) através de regressão logística condicional e o risco proporcional atribuível (RAP). O quarto estudo consistiu num estudo de coorte retrospectivo com 240 pacientes para derivar e validar um modelo prognóstico para implantes com doença peri-implantar, com estimativa do efeito de potenciais indicadores de prognóstico desfavorável. Foram estimados o RR para os indicadores de risco através de regressão logística e a capacidade de discriminação do modelo através da AUC em ambos os conjuntos de derivação e validação. 1. Na construção da pontuação de risco e estimativa das frações atribuíveis constatámos: Uma distribuição diferente da incidência de doença peri-implantar com 2.2%, 11.5%, 37.6% e 86.4% para pacientes de baixo risco, risco moderado, risco elevado e risco muito elevado, respectivamente. A pontuação de risco com uma capacidade de discriminação excepcional registada pela AUC com um intervalo de confiança de 95% (IC95%) de 0.963 (0.950; 0.976) (p < 0.001). As razões de verossimilhança positiva e negativa do modelo de 9.69 e 0.13, respectivamente. Uma potencial redução significativa dos casos se a exposição aos indicadores de risco modificáveis fosse suprimida, ilustrada pela redução de 5% para a falta de ajuste passivo ou desaperto de componentes protéticos; 31% para a placa bacteriana; 31% para o nível ósseo no terço médio dos implantes; 18% para a hemorragia; 26% para a restauração de metalo-cerâmica; e 15% para a interação entre placa bacteriana e proximidade de outros implantes / dentes. 2. Na validação da pontuação de risco registámos: Uma taxa de incidência da doença peri-implantar de 24.1% (n = 85 pacientes). Um RR com intervalo de confiança de 95% (IC95%) para o efeito da estratificação do grupo de risco de 5.52 (3.64; 8.35), com uma sensibilidade de 71.8%, uma especificidade de 83.2% e uma precisão de 80.5%. Uma excelente capacidade de discriminação da pontuação de risco com uma AUC (IC95%) de 0.858 (0.820; 0.896) (p < 0.001). 3. Na avaliação do efeito e impacto do período de recall na incidência da doença peri-implantar registámos: Um RR (IC95%) de 1.13 (0.57; 2.21) para um recall > 6 meses. Um RAP de 5.89% que indica uma contribuição modesta do recall > 6 meses para o excesso de risco na doença peri-implantar. 4. Na derivação e validação do modelo de prognóstico para implantes com doença peri-implantar constatámos: Indicadores de prognóstico com efeito significativo no prognóstico desfavorável, conforme o RR (IC95%) de 3.13 (1.15; 8.55) para história de periodontite; 3.26 (1.37; 7.81) para doença peri-implantar grave; 3.52 (1.48; 8.37) para o comprimento do implante> 13 mm; e 3.99 (1.62; 9.82) para o desenvolvimento precoce da doença. Um modelo prognóstico com inclusão dos indicadores de prognóstico: idade, história de periodontite, doença peri-implantar grave, comprimento do implante> 13 mm e desenvolvimento precoce da doença. O modelo prognóstico obteve boa discriminação na amostra de derivação com uma AUC (IC95%) de 0.763 (0.679; 0.847) (p < 0.001); O modelo prognóstico obteve uma boa discriminação na amostra de validação com uma AUC (IC95%) de 0.709 (0.616; 0.803) (p < 0.001). Considerando os resultados, conclui-se que a gestão clinica da doença periimplantar beneficia da aplicação de algoritmos de risco para alcançar resultados previsíveis a longo prazo. Foi possível derivar e validar uma pontuação de risco para a incidência da doença peri-implantar com excelente discriminação. Um número significativo de casos poderia ser potencialmente evitado se a exposição a factores modificáveis fosse suprimida. O efeito e impacto de um recall > 6 meses foram baixos e não significativos. Foi possível derivar e validar um modelo prognóstico para implantes dentários com doença peri-implantar com boa discriminação. As presentes conclusões determinam a necessidade de intervenções na prevenção primária, secundária e terciária para maximizar a probabilidade de resultados de sucesso. Esta tese como um todo contribui para a avaliação do prognóstico em pacientes com implantes dentários e doença peri-implantar, preenchendo lacunas significativas no conhecimento contemporâneo. Sistematiza os principais factores associados à doença peri-implantar e a um prognóstico desfavorável por meio de uma abordagem epidemiológica que se pode considerar original na investigação actual. Este trabalho atesta a origem multifactorial da condição, simplificando cálculos matemáticos complexos e fornecendo ferramentas que podem ser usadas por qualquer clínico na gestão de pacientes com reabilitações implanto-suportadas. Pode servir como ponto de partida para estudos adicionais sobre o tema da doença peri-implantar e fornece uma base para intervenções preventivas e curativas. Destaca-se a importância de um acompanhamento clínico rigoroso com a inclusão de medidas diagnósticas precisas, profilaxia adequada e planeamento com envolvimento de uma equipa multidisciplinar. |
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