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As dádivas de Medeia : por uma teoria das formas de reciprocidade

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Resumo:Actualmente existe um interesse crescente pelo conceito de reciprocidade. No entanto, o paradigma da reciprocidade, que é usado simultaneamente por antropólogos e economistas experimentais, tende a ser míope e limitado ou à explicação de acções altruístas ou a modos de resolução de problemas de agência. Conceitos como homo donator ou homo reciprocans representam o desenvolvimento de uma nova abordagem que tenta ultrapassar as principais dificuldades causadas pelo modelo padrão usado pelos economistas, sendo, no entanto, incapaz de oferecer uma explicação geral para as diferentes expressões de reciprocidade. De forma a fazer avançar o projecto de uma teoria geral das formas de reciprocidade, argumentarei, nesta dissertação, que o conceito de reciprocidade pode ser usado como um importante instrumento teórico destinado a produzir avanços no campo sociológico. Justificarei a minha posição, com base em 10 proposições. Em primeiro lugar, a reciprocidade é um instrumento simples e parcimonioso que passa o teste da navalha de Ockham. Em segundo lugar, a reciprocidade é uma construção poderosa que explica quer as retaliações, quer as dádivas que estão incrustadas nas transacções sociais. Em terceiro lugar, a reciprocidade evita as armadilhas causadas pela consideração dos sistemas de motivação (o argumento da navalha de Sorokin). Em quarto lugar, a reciprocidade explica as razões que justificam que sistemas de confiança como o blat russo, o guanxi chinês ou o girijaponês tenham evoluído de forma diferente. Em quinto lugar, a reciprocidade oferece uma teoria do valor que pode ser usada de modo a evitar distinções espúrias entre dons e mercadorias, explicando os mecanismos de conversão que os transformam uns nos outros. Em sexto lugar, a reciprocidade torna claro o porquê de necessitarmos de hiatos entre dádivas e retribuições (seja em termos de dons positivos e heranças, seja em termos de vingança e de retaliação). Em sétimo lugar, a reciprocidade dá-nos pistas sobre as razões que justificam a ocorrência de comportamentos aparentemente frágeis ou irracionais (como preferir menos a mais) e o porquê de eles serem, por vezes, evolutivamente estáveis. Em oitavo lugar, a reciprocidade torna claras as razões que levam a que um dom puro dê origem à estagnação económica e a sistemas sociais paroquiais. Em nono lugar, a reciprocidade é um instrumento poderoso de explicação da natureza sumptuária e paroxísmica das relações sociais estabelecidas entre pares. Em décimo lugar, a reciprocidade clarifica as razões que conduzem à estabilidade de hierarquias sociais rígidas, dominadas por relações simbióticas.
Autores principais:Marques, Rafael
Assunto:Reciprocidade Retaliação Dádiva Dom Cooperação Solidariedade Retribuição Confiança Obrigação Ética Economia Experimental Hospitalidade Prenda Relações Simbióticas Mimetismo Sumptuário Paroxísmico Paroquialismo Graça Troca Poder
Ano:2002
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Actualmente existe um interesse crescente pelo conceito de reciprocidade. No entanto, o paradigma da reciprocidade, que é usado simultaneamente por antropólogos e economistas experimentais, tende a ser míope e limitado ou à explicação de acções altruístas ou a modos de resolução de problemas de agência. Conceitos como homo donator ou homo reciprocans representam o desenvolvimento de uma nova abordagem que tenta ultrapassar as principais dificuldades causadas pelo modelo padrão usado pelos economistas, sendo, no entanto, incapaz de oferecer uma explicação geral para as diferentes expressões de reciprocidade. De forma a fazer avançar o projecto de uma teoria geral das formas de reciprocidade, argumentarei, nesta dissertação, que o conceito de reciprocidade pode ser usado como um importante instrumento teórico destinado a produzir avanços no campo sociológico. Justificarei a minha posição, com base em 10 proposições. Em primeiro lugar, a reciprocidade é um instrumento simples e parcimonioso que passa o teste da navalha de Ockham. Em segundo lugar, a reciprocidade é uma construção poderosa que explica quer as retaliações, quer as dádivas que estão incrustadas nas transacções sociais. Em terceiro lugar, a reciprocidade evita as armadilhas causadas pela consideração dos sistemas de motivação (o argumento da navalha de Sorokin). Em quarto lugar, a reciprocidade explica as razões que justificam que sistemas de confiança como o blat russo, o guanxi chinês ou o girijaponês tenham evoluído de forma diferente. Em quinto lugar, a reciprocidade oferece uma teoria do valor que pode ser usada de modo a evitar distinções espúrias entre dons e mercadorias, explicando os mecanismos de conversão que os transformam uns nos outros. Em sexto lugar, a reciprocidade torna claro o porquê de necessitarmos de hiatos entre dádivas e retribuições (seja em termos de dons positivos e heranças, seja em termos de vingança e de retaliação). Em sétimo lugar, a reciprocidade dá-nos pistas sobre as razões que justificam a ocorrência de comportamentos aparentemente frágeis ou irracionais (como preferir menos a mais) e o porquê de eles serem, por vezes, evolutivamente estáveis. Em oitavo lugar, a reciprocidade torna claras as razões que levam a que um dom puro dê origem à estagnação económica e a sistemas sociais paroquiais. Em nono lugar, a reciprocidade é um instrumento poderoso de explicação da natureza sumptuária e paroxísmica das relações sociais estabelecidas entre pares. Em décimo lugar, a reciprocidade clarifica as razões que conduzem à estabilidade de hierarquias sociais rígidas, dominadas por relações simbióticas.